9 de julho de 2017

na outra margem de setembro




Foram escassas as palavras com que aprendemos a decifrar a complexidade do silêncio. Pouco mais tínhamos naquele tempo, para além da sabedoria dos espelhos e da confluência dos pássaros.

Partilhámos, ainda assim, o espaço que sobejava entre o amanhecer das estórias e a realidade dos calendários. Partilhámos o verde dos arrozais e a chama de uma candeia através dos caminhos que nos conduziam a setembro. Que serpenteavam na projecção do luar.

Foi nessa altura, mãe, que o teu sorriso se gravou na transparência do meu olhar. Lentamente, para que a memória se habituasse à perpendicular descoberta do sossego. Os passos - os nossos passos!... - como se a neblina se espraiasse pelo rosto da madrugada, iam percorrendo a difícil trajectória da saudade.

Lembro-me desses dias, mas o inverno já desceu sobre o futuro. A tua ausência transformou a solidão na dolorosa perspectiva do vazio.