26 de julho de 2017

no rodapé da saudade




Posso, finalmente, aguardar a chegada do crepúsculo para contemplar o rosto do silêncio. O tempo, mais do que limitar-se a coleccionar as horas e os sonhos, foi desenhando os traços da melancolia que me acompanha na aprendizagem da saudade.

É verdade que, nesta caminhada, foram sempre as sombras da solidão que se impuseram à determinação dos meus passos. As próprias palavras entretiveram-se em monólogos surdos e sem substância. Incapazes de definir a trajectória da alegria, porque não se demoram no anoitecer dos búzios.

Às vezes, mãe, quando a mágoa e o desalento se reflectem nos meus olhos, procuro desafiar a estrutura dos monossílabos e da indiferença. Tudo porque tu continuas a marcar a cadência das manhãs e é nelas - apenas nelas!... - que reencontro a transparência do teu sorriso.



25 de julho de 2017

cantilena




Procuro o silêncio das madrugadas de agosto, quando o vazio não passava de uma abstracção anódina. Um tempo em que o futuro me parecia tão longínquo como a própria explicação da melancolia.

Os monólogos, contudo - aqueles que me limitava a protagonizar - foram-se prolongando através da minha própria insegurança. Da minha própria solidão!... Os meus gestos tentavam conjugar-se com a aventura dos meus lábios, mas apenas foram capazes de se perder nos labirintos da distância.

Cansado, mãe, vou alinhavando as sílabas que principiam a escassear. Resta-me o exercício da complacência porque, agora, as horas mais não são do que a trajectória do abandono.



24 de julho de 2017

poema com lágrimas




É o vazio que se atravessa nos caminhos da solidão, embrulhado na turbulência das palavras que jamais se pronunciaram. Na incompatibilidade dos sonhos com a interminável violência dos espelhos.

Fazem-me falta o sossego do teu olhar e a transparência do teu sorriso. Sem eles sinto-me frágil - demasiado frágil perante as lágrimas que se reflectem na explosão do silêncio!...

Por quanto tempo poderei resistir a esta mágoa que não tenho como iludir? Sem ti, mãe, perco-me no desassossego do meu próprio labirinto, exactamente quando a noite e a loucura se projectam sobre a eternidade.



23 de julho de 2017

jogos de sedução




Recordo os teus gestos, mãe!... Lentos, a sublinhar a transparência do sorriso que enchia o meu olhar. Recordo-os na secreta geometria dos retratos.

No aconchego do tempo que partilhámos - mesmo naquele que ainda  não era a memória do silêncio - as nossas palavras entretinham-se em jogos tão pueris que resistiam ao pressentir da penumbra.

Foram tão escassos os dias em que estivemos tão perto da alegria que, quase sempre, dou por mim a tentar recuperar a inocência e a deixar que os meus dedos se passeiem pela saudade que se confunde com o branco das paredes. Com a madrugada para além das persianas.



22 de julho de 2017

segredos




Não fora o silêncio que se espraia pela memória dos dias despovoados e os passos dir-se-iam senhores dos relógios e da distância. O tempo, contudo, já se apoderou daquela ternura que, fatigada, se refugiou na geometria dos sonhos.

Hoje, mãe, prisioneiro do abraço que não te pude dar, ainda creio na transparência das madrugadas, porque, na verdade, tu continuas a adormecer na solidão dos meus olhos.

Talvez seja por isso que me mantenho à margem da lucidez das palavras a que, outrora, me afeiçoei. Aqueles dias em que a alegria me parecia ao alcance de um só gesto, deixaram de preencher a minha inquietação, para se misturarem com a inevitável penumbra da indiferença.



21 de julho de 2017

no prolongar dos beirais




Eu sou quem existe para/ pensar em ti quando fico sozinho/ ou de noite acordo,/ eu sou quem deve esperar, seguro de voltar a/ encontrar-te,/ eu sou quem deve cuidar de te não perder para/ sempre.

...

Não é ainda a memória das searas de agosto, quando os sonhos se encavalitavam nos muros do silêncio. Não é a saudade das estórias que guardei nas gavetas de um sorriso ou, melhor, na solidão que atravessa os meus próprios passos.

Talvez seja o cansaço destes dias que adormecem à beira de uma adolescência que apenas sobrevive na periferia dos retratos. Na insensatez do vazio que se projecta na lentidão dos meus gestos.

É, se calhar, o meu jeito de enfrentar a inquietação dos espelhos ou, então, de me demorar junto à migração das andorinhas cujos ninhos já não se distinguem no prolongar dos beirais. É a peregrina vocação dos monólogos com os quais me liberto do apodrecer do futuro.



20 de julho de 2017

os donos da verdade




Multiplicam-se como se a urgência lhes alimentasse o desejo. Utilizam as palavras como instrumentos de uma certeza construída sobre o vazio dos gestos que não sabem distinguir a lucidez em que se refugia o silêncio.

Quem não se confrontou já com a negligência com que esgrimem a impaciência das metáforas? Com a incaracterística vocação dos lábios onde se misturam a cegueira e a surdez?!...

Muito se poderia dizer, mãe, sobre a intolerância, mas a indiferença já por aí anda a suplantar a vontade de partilhar os esparsos vestígios da melancolia. Entre a indecisão e o desencanto, crescem agora as sementes do abandono.



19 de julho de 2017

o triunfo e a derrota




Sobre o silêncio se diz que é eloquente. Não é fácil, porém, entender os sinais que o identificam com a substância que se derrama sobre a insensatez das palavras. Quase nunca os seus desígnios são transparentes.

No desordenado galope dos dias, dir-se-ia que a saudade se esgota na definição dos passos e dos caminhos que não são o reflexo de uma escolha à beira da lucidez.

O triunfo e a derrota, mais não são do que argumentos a que falta coerência. São condicionalismos que amarram o inconsciente às suas próprias hesitações. São muito antigos, mãe, esses conceitos com que se ferem os sonhos e se destroem as memórias. Os mesmos com que se rasga o futuro.



18 de julho de 2017

apenas um dizer




Sento-me na periferia da solidão, onde as madrugadas se confundem com a inclemência do inverno e o silêncio mal se distingue das estrias do desencanto. Até a música me parece menos óbvia - mais dispersa pelos atalhos da indiferença.

Muito haveria a dizer, mãe, da penumbra que se abateu sobre os imprevisíveis traços do futuro, mas as palavras deixaram de ter a fluidez que as protegia do cheiro da tristeza. Já quase não sei tecer-lhes os contornos.

Os dias são agora muito breves e, ao mesmo tempo, desoladoramente próximos da substância do vazio. Nem um sorriso emerge do exíguo caudal da alegria. As horas, por outro lado, vão-se esgotando na insensata vertigem dos calendários.



17 de julho de 2017

do vazio e da distância




No segredo dos meus dias, desenham-se as linhas descuidadas de uma solidão que principia a definir o futuro. Inquietas, as palavras deixaram de ter o privilégio de descrever o sossego, para se perderem nas estrias da incompreensão.

Talvez seja exagerada esta angústia que se assemelha à indiferença com que o olhar se abstrai da alegria. Com que os gestos se refugiam na lentidão do vazio.

O cansaço, mãe, há muito que invadiu os lugares onde se demorava o teu sorriso. Hoje, sem perspectivas capazes de me fazer enfrentar o desafio da memória, apercebo-me de que o próprio silêncio se multiplica pelas margens mais distantes do delírio. Já não o encontro na súbita transparência da saudade.



16 de julho de 2017

da memória das varandas




Quando os sonhos se intrometem na definição do silêncio, é que os meus olhos se refugiam na exígua parcela onde as palavras se aproximam da solidão.

Pouco a pouco, mãe, vou-me apercebendo de que todas as coisas se tornam estranhas, como se nada mais existisse para além da minha própria memória. Como se cada passo que dou fosse a projecção do vazio que, subitamente, principiou a atravessar-se no meu caminho.

Já não reconheço os lugares onde, antes, costumava demorar-me. Os sinais deixaram de existir e a poeira abateu-se sobre as varandas.



15 de julho de 2017

quase um lamento




Podia ser a tristeza a insinuar-se pela escassa claridade da manhã que principiava. Procurei os vestígios do silêncio ou, melhor, os sinais daquele sorriso que preenche as esquinas da memória. O teu sorriso, mãe!...

Ainda nuas, as árvores continuavam a resistir à chuva que não cessava de cair sobre a periferia dos sonhos. Os pássaros não encontravam nelas o aconchego das noites em que o verão se inclina sobre as casas. Os ramos, esses, permaneciam indefesos face à negligência dos olhos apressados.

Quando abri a janela, só a penumbra se alargou pela lentidão das palavras. A música era apenas o retrato da saudade. Quase um lamento.



14 de julho de 2017

as lentes desfocadas




Sabemos pouco da relação completa entre aquilo que vemos do mundo e o próprio mundo. O nosso olhar é míope. As nossas lentes desfocadas. E no entanto, sentimos que "estranhos fios ligam o tempo a alguns outros grandes mistérios em aberto: a natureza da mente; o destino dos buracos negros; o funcionamento da vida...". Sentimos que algo de essencial continua a reportar à natureza do tempo - essa natureza de que ignoramos quase tudo.

...

Já quase não nos reconhecemos no projectar do silêncio. Deixámos de ser o reflexo da memória no amanhecer de um sorriso, talvez porque permitimos que os sonhos se tornassem numa certa forma de novelo onde os relógios se confundem com a indiferença.

Trôpegos, os passos limitam-se a percorrer os círculos concêntricos que se alargam pela hipótese de um futuro à beira da melancolia. Tropeçam nas palavras inquietas que se esgotam na cadência dos monólogos.

A vida passou a ser uma fuga à transparência do orvalho e aos desafios que eram, por assim dizer, uma espécie de traço de união entre o tempo e a própria essência do vazio. A vida deixou de ser um ponto de interrogação capaz de iludir o obsessivo folhear da solidão.



13 de julho de 2017

da origem do sossego




Por vezes sento-me às portas do crepúsculo e fico ali onde os sonhos se habituaram a partilhar a alegria com as searas de agosto, quando o silêncio preenchia a inquietação das palavras.

Desde sempre, mãe - desde que os meus olhos passaram a descansar à sombra da melancolia - quis ter-te comigo lá onde o verão e as cigarras se assemelhavam à essência da memória. Eras tu que, ano após ano, preenchias aquelas tardes que se multiplicavam pelo cheiro dos eucaliptos.

Hoje, se me recordo desses dias longínquos, é ainda o teu sorriso que procuro. É a saudade que me persegue - a saudade que desenha os meus gestos no sossego do teu olhar.



12 de julho de 2017

bradley lowery




Uma página que se dobrou sobre a imprecisão do tempo. Sobre a inconsistência dos calendários. Uma espécie de silêncio que caiu sobre o tropeçar da memória.

Se ao menos as lágrimas pudessem sobreviver ao secreto voo das aves que não têm como decorar o que restou de um futuro imperceptível...! Um futuro que se perdeu no outro lado das gaiolas!...

Incrédulos, os retratos ainda reflectem aquele sorriso que adormeceu no olhar e nos derradeiros flancos da tristeza. Os sonhos, esses, incapazes de se prolongarem na distância e na alegria, limitam-se a percorrer as sombras coalhadas pela espessura do vazio.



11 de julho de 2017

thalles ou a inquietação no olhar




Inquieto, como um náufrago que se debate na indecisão das palavras, o olhar não se detém na promessa dos seus próprios segredos. Na trajectória de um silêncio estremunhado.

Dir-se-ia o reflexo quase translúcido de uma solidão que se prolonga pelos parâmetros da memória. Há uma espécie de carícia invisível que lhe desce pelo rosto - que lhe percorre o adolescente amanhecer do corpo. Há um brevíssimo sorriso que se desenha na tardia definição de cada gesto.

Cai-lhe nos ombros a discreta juventude dos sonhos que continua a coleccionar, ao mesmo tempo que vai enfrentando as sombras de um qualquer futuro ou, melhor, de um inadiável desafio na projecção dos relógios.

É, por assim dizer, o seu jeito de atravessar a turbulência dos dias. A melancólica melodia do crepúsculo.



10 de julho de 2017

lucubrações




Lembro-me do silêncio com que se preenchiam as metáforas daquela tristeza perpendicular à essência dos meus sentidos. Os olhos, porém, não se reflectem no desencanto das palavras.

...

A música com que me entretinha a percorrer o tempo e os sonhos, foi sempre o contraponto da minha própria solidão. Como a brisa que se prolonga pelo rosto da madrugada!... Foi sempre, por assim dizer, a saudade que nunca deixou de se espraiar pelos meus dias.

Pergunto-me, mãe, por que foi que a beleza se me afigurava ao alcance de um único gesto se, agora, sei que apenas tenho respondido ao apelo do vazio...!



9 de julho de 2017

na outra margem de setembro




Foram escassas as palavras com que aprendemos a decifrar a complexidade do silêncio. Pouco mais tínhamos naquele tempo, para além da sabedoria dos espelhos e da confluência dos pássaros.

Partilhámos, ainda assim, o espaço que sobejava entre o amanhecer das estórias e a realidade dos calendários. Partilhámos o verde dos arrozais e a chama de uma candeia através dos caminhos que nos conduziam a setembro. Que serpenteavam na projecção do luar.

Foi nessa altura, mãe, que o teu sorriso se gravou na transparência do meu olhar. Lentamente, para que a memória se habituasse à perpendicular descoberta do sossego. Os passos - os nossos passos!... - como se a neblina se espraiasse pelo rosto da madrugada, iam percorrendo a difícil trajectória da saudade.

Lembro-me desses dias, mas o inverno já desceu sobre o futuro. A tua ausência transformou a solidão na dolorosa perspectiva do vazio.



8 de julho de 2017

nostalgia




Era um lugar onde o silêncio se prolongava pela dimensão da saudade. Havia as árvores, as searas e a lentidão da resina. Havia os campos, mas o verde que os vestia perdeu-se nos labirintos da incerteza.

Também te tinha comigo, mãe, e, então, os sonhos pareciam-me mais fáceis de percorrer, mas eu não sabia o que fazer para que as horas se demorassem na trajectória do teu sorriso. Recordo-me de que os meus olhos costumavam acompanhar-te desde o amanhecer até à melancólica - e mesmo assim transbordante - projecção das candeias.

Só mais tarde, contudo, me apercebi do cheiro da madressilva e do singular rumor da ternura. Depois, o tempo e a distância tornaram-se incompatíveis. Apenas o desencanto permanece!...



7 de julho de 2017

cordão umbilical




Os pais precisam aceitar que cada filho é uma vida distinta e autónoma, ao mesmo tempo gerada por eles e inacessível, à maneira de um segredo que protegem mas cujo conteúdo está destinado a escapar-lhes.

...

Há em toda a parte - na melancólica lucidez dos relógios e na brevíssima racionalidade dos calendários - uma quase inconsciência que se projecta na rugosidade dos caminhos. Uma promessa que se esgota na multiplicação das esquinas.

Talvez seja o reflexo da memória que se alarga pelo envelhecer da saudade ou, se calhar, o adolescente rumor do silêncio que, pouco a pouco, se vai confundindo com a mansidão dos sorrisos. Com o receio de um futuro em que os sonhos já não serão a herança das palavras que se habituaram a preservar.

Há, na própria bissectriz do olhar, uma inevitável ausência de esperança. Um permanente cansaço que se adivinha na translúcida vocação dos passos e na esdrúxula trajectória do vazio. No inútil silabar dos monólogos.



6 de julho de 2017

monólogo precário




É o momento de falar sobre os amigos!... Agora que vou partilhando o tempo com a breve melopeia do sossego, apercebo-me dos gestos que se foram esboroando de cada vez que a incerteza se tecia nos meus olhos.

O silêncio foi sempre a mais urgente das minhas necessidades. Recordo-o apenas pelos esboços a que não faltavam certas incompatibilidades, como se a penumbra se articulasse nas arestas de cada nova manhã. A amizade, por outro lado, quando lhe defini os contornos, transformou-se na minha própria utopia, porque as palavras nunca foram suficientes para que um sinal pudesse emergir da lentidão do vazio.

Às vezes não passava de um apelo furtivo - um trejeito ou, melhor, o gume de uma ilusão. Jamais os passos se aventuraram para além da paciência e hoje, mãe, quando me debruço sobre a saudade, só reconheço os sinais do teu sorriso. Único. Perfeito!...



5 de julho de 2017

reflexos do tempo




Deve haver uma forma de impedir que o tempo se instale na impaciência dos relógios. Não é possível que o silêncio se deixe surpreender pela indiferença e pela solidão.

Os passos, não obstante o olhar se estender até aos mais longínquos apeadeiros da memória, já não se revêem nas adolescentes sílabas do sossego. A beleza, por outro lado, já não se demora nas pupilas como se fora uma permanente explosão de luz.

A saudade, mãe, é agora uma sombra que se alarga sobre a madrugada. Sobre o cheiro da maresia. Os rostos já não se reconhecem nas viagens pelos labirintos da distância. Os sorrisos, esses, refugiaram-se na equívoca lentidão do vazio.



4 de julho de 2017

quase peter pan




Não fora o olhar já marcado pelos contornos da melancolia, e jamais a distância haveria de comparar-se com a súbita inclinação das areias, quando o silêncio e a memória se percorrem com passos tristes. Quase trôpegos.

Os gestos tornaram-se estranhos. Impacientes. Como se as palavras se tivessem escondido no segredo das suas próprias metáforas. Os sorrisos, esses, deixaram de esvoaçar sobre as ruínas do desencanto.

O cansaço galopa sobre os sonhos. A ternura é apenas a recordação de um futuro inacabado e incompatível com o comércio da alegria. Só a solidão se aproxima do adolescente cheiro da saudade, antes da trajectória do vazio. Antes, mãe, do labirinto da tua ausência.



3 de julho de 2017

da geometria e da distância




Sempre que os meus olhos, talvez perdidos na eternidade da minha própria solidão, percorriam o silêncio transparente do teu sorriso, tentava que as horas se multiplicassem pela lentidão dos espelhos, até que os meus sonhos se reflectissem numa aguarela.

...E as sombras nunca deixavam de cair sobre os campos onde se apagavam as minhas palavras.

Hoje, mãe, ainda que as madrugadas já não me conduzam aos flancos da alegria, deixo-me tentar pela lucidez com que costumavas enfrentar o rigor das ilusões. Hoje, basta-me partilhar contigo esta distância, para que os relógios se demorem na vagarosa geometria da saudade.



2 de julho de 2017

ruptura




Lembro-me das palavras com que costumava percorrer os caminhos de uma adolescência vivida entre os sonhos e a solidão. Eram, habitualmente, o reflexo do silêncio em que me refugiava quando o sol adormecia no regaço das searas.

Hoje, mãe, quando a tarde chuvosa chega ao fim e as sombras se acumulam na brancura das paredes, fazem-me falta os campos de uma obstinada lentidão, onde os sorrisos se misturavam com o paciente cheiro dos eucaliptos. E a fonte no cimo da estrada poeirenta - a inseparável companheira do crepúsculo!...

É esse o lugar a que pertenço, mesmo que, agora, a realidade seja uma coisa inatingível.



1 de julho de 2017

romaria




Os olhos percorrem os farrapos que cobrem a tristeza e a amargura. Confrontam-se com a lentidão dos sonhos já cansados, mas ainda embriagados pelo rumor da primavera.

O sossego, mãe, abandonou aquele lugar onde o silêncio e o sorriso se reflectem no mesmo perfil. Doída, a memória projecta-se no rodapé do vazio, enquanto a saudade me ajuda a recordar os carreiros solitários que o tempo foi apagando.

Pacientes e convictos, os passos aproximam-se da periferia onde as palavras se demoram no esboço da sua própria nudez.