19 de junho de 2017

um tiro no escuro




Nos diálogos que pontuam os caminhos de Axle Munshine, Christian Godard destaca a amizade como sendo um bem demasiado precioso para confiar a um ser humano.

Na vulgar estrutura das palavras, o que costuma definir-se como amizade, não é compatível com o grau de exigência que deveria ser-lhe intrínseco. Dir-se-ia que ser amigo é quase uma superficialidade e, essa, não se coaduna com o superlativo. Com a procura do absoluto.

Só muito raramente um amigo pega de estaca na alma e nos sentidos. O processo de fusão é lento, vagaroso, para que seja possível saborear cada momento e permitir que a semente possa desenvolver-se em harmonia.

É preciso que a indiferença se confronte com o seu oposto; que o silêncio tenha espaço para crescer livremente; que a alegria não se limite ao fogo-fátuo de um gracejo inconsequente. Um amigo é bem capaz de ser um projecto para toda a vida e, se calhar, os degraus prolongam-se inesgotáveis. Sem certezas, mas considerando cada gesto e observando os pormenores. Ainda que pareçam irrelevantes.

É por isso, mãe, que nesta busca incessante, nesta cruzada pouco óbvia, nem sempre o antagonista se situa no exterior. Nem sempre são os outros que armadilham as convicções.

Não se trata de um tiro no escuro, mas, não o sendo, a verdade é que se assemelha à essência de um acto de fé. Importa manter a ingenuidade da juventude, a capacidade de sonhar que caracteriza a adolescência e a determinação que ajuda a contornar as dúvidas que chegam com a rotação dos dias.



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