30 de junho de 2017

carta aberta a...




...Tiveste uma reacção que me tocou: escreveste-me imediatamente, marcámos um café e creio que, desde então, aceitando as divergências que mantemos, nos consideramos amigos.

...

Era quase à entrada do silêncio que os meus passos hesitavam entre os monólogos e a complexidade das memórias que, já então, me acompanhavam.

Creio que nunca tive oportunidade de me descobrir para além da antiquíssima trajectória de um sorriso. Não sei mesmo se terá sido na perspectiva de uma amizade quase adolescente que os sonhos acabaram por se transformar na ausência das palavras.

Talvez tenha sido muito perto de um futuro que, contudo, jamais se reflectiu na lentidão dos caminhos. A verdade é que os calendários foram sempre muito estranhos - foram sempre a inútil convergência dos retratos com a inadiável melancolia dos espelhos.



29 de junho de 2017

prece




Nada sei desse silêncio, a não ser que a demorada inquietação das sombras se prolonga para além da solidão.

...

Naquele tempo, mãe, quando as interrogações se multiplicavam pela memória de outros dias - quando a alegria se aproximava da transparência dos sonhos - o sorriso que se desenhava nos lábios assemelhava-se às raízes que suportam a determinação das árvores.

Como quem se apercebe do marulhar do desespero, os relógios corrigiram a trajectória do próprio vazio. O inverno chegou logo a seguir!...



28 de junho de 2017

mo chuisle




Chegam dos lados da incerteza, os sinais das madrugadas que dos sonhos se perderam. O sorriso, esse, alarga-se pelas margens da memória. Pelos caminhos do desencanto.

Hoje, mãe, as palavras sufocam na adolescência de uma saudade que se torna transparente, enquanto o olhar se aconchega na poeira do vazio. O que resta já não tem as cores da primavera. Apenas a bruma continua a acompanhar a cadência dos relógios.

Que penosos que são estes passos com que tento não sucumbir à beira dos degraus da solidão...!



27 de junho de 2017

do silêncio e do vazio




É no silêncio que procuro a explicação para as palavras tresmalhadas que martelam o absurdo. Nada mais posso fazer - nada pode restituir-me a ternura que se fechou sobre os teus olhos subitamente cerrados.

A realidade continua a pesar-me no peito e, não obstante, teimo em resistir-lhe. Não tenho onde me refugiar, porque o vazio preencheu os próprios sulcos da razão.

Um vazio, mãe, que se reflecte na precária lucidez dos meus gestos. Um vazio triste que contrasta com a transparência do teu sorriso e com a vagarosa cadência da saudade que se instalou no meu olhar.



26 de junho de 2017

brevíssima crónica de agosto




Debruço-me sobre o silêncio, agora que o tempo já principiou a apoderar-se das memórias que buscam o aconchego da lareira.

Pouco a pouco, os sentidos vão perdendo o brilho que partilhavam com as adolescentes madrugadas de agosto. Vão perdendo a capacidade de se deslumbrarem face ao cheiro da terra e à alegria que esperava a cada esquina.

É verdade, mãe, que ainda resta o fascínio pela nudez dos sonhos recortados no crepúsculo, mas, esse, acabará por perder-se perante a indiferença. Ou perante a solidão.



25 de junho de 2017

o lado selvagem




São muito espessas as horas que se extinguem na confusão dos caminhos e no hesitar da memória. Quase sempre porque o silêncio e o vazio se conjugam exactamente da mesma maneira.

Às vezes, mãe, quando a madrugada se espraia pela inquietação dos meus sonhos, apetece-me reinventar o futuro através das sílabas que tecem a penumbra e a saudade. Os passos, porém, não acompanham a espiral do pensamento. Não é ainda o tempo de ignorar os flancos da melancolia.

A solidão é outra coisa!... A solidão, essa, apodera-se do reflexo dos nenúfares.



24 de junho de 2017

ser artesão de si mesmo




Nem sempre o futuro se assemelha à geometria dos sonhos. À lucidez dos desejos. Muitas vezes por culpa própria!... Onde existia generosidade sobreveio o calculismo e as palavras, essas, foram sendo substituídas por vocábulos inconsistentes, ambíguos e, não raro, em contradição com as antigas convicções.

Talvez o idealismo se tenha convertido numa utopia vaga. Sem substância. Incompatível com os desafios e as exigências que sucedem a uma adolescência que se extingue quase sem remissão. Como se a aprendizagem não fosse mais do que um hiato imprevisto. Como se, numa sorte de prestidigitação, pudessem apagar-se as referências que sustentam o carácter.

Não creio, mãe, na inevitabilidade das regras supostamente relacionadas com o que poderia caracterizar a maturidade. Como se pudesse colocar-se um enorme pisa-papéis sobre a objectiva individualidade. Como se o ser humano não fosse sinónimo de desassossego. De conquista!...

A experiência e a curiosidade não se situam em campos opostos. Tão pouco deve contrariar-se a vontade de experimentar outros caminhos que não sigam as pegadas de um passado longínquo. O homem deve assumir-se como o artesão de si mesmo e, se for caso disso, transformar-se num iconoclasta.



23 de junho de 2017

não pode ser só isto!...




...Seguro daquilo que lhe falta, o místico percebe que cada lugar por onde passa é ainda provisório e que a demanda continua. Não pode ser só isto!...

(...)

Como recorda Certeau, o místico "não habita em parte alguma, ele é habitado". E amarra-se, assim, não ao futuro, mas ao invisível. Quer dizer: ao ainda não (visível).

...

Caminho devagar. Não sou mais do que a lentidão do meu olhar poisado na inconsistência dos espelhos. Há uma permanente interrogação que não cessa de atravessar os meus dias. A própria nudez de um silêncio extenuado que se projecta no tumulto daquele outono.

Há - creio que nunca deixou de haver!... - um longo equívoco que se alarga pelos rostos sonâmbulos, como se a memória não fosse mais do que o prolongar da própria solidão. Como se a adolescência dos sorrisos se confundisse com a incoerência dos relógios.

Não sei como relacionar-me com a ilusão de um futuro que não consigo imaginar. Há muito que as minhas palavras deixaram de ser o reflexo desta realidade obtusa. Deste tempo cujos contornos vão tropeçando no precoce envelhecer dos diálogos. Na interminável convulsão de um passado apodrecido.



22 de junho de 2017

pelos recantos da memória




São rudes, por vezes, as memórias. Pouco dóceis e nem sempre disponíveis quando a saudade as procura na encruzilhada do tempo. É preciso vasculhar nos recantos menos óbvios do baú, para recuperar alguns fragmentos dispersos, não necessariamente sequenciais e quase nunca susceptíveis de reconstruir um passado pouco nítido.

Terão sido momentos determinantes ou, então, meras curiosidades sem outro interesse que não o de distinguir entre o acaso e o inconsciente. Seja como for, mãe, as folhas em branco do hipotético álbum, não são mais do que um convite à imaginação para especular sobre as probabilidades, sem verdadeiramente lhes definir os limites. Talvez fiquem a faltar alguns pilares e, sem eles, não é possível garantir-lhes a solidez.

Dir-se-á que são pormenores irrelevantes e, objectivamente, não há como refutar essa ideia. Não somos tão complexos na especificidade das nossas limitações?!... Pouco hábeis no confronto com os nossos próprios fantasmas?!... Para quê, então, essa urgência em nos tornarmos transparentes quando seria bem mais simples deixarmo-nos levar pela corrente sem cuidar do que ficou a montante?

É provável que a resposta se situe ao nível do cognitivo, no limiar de uma racionalidade mais elevada. Ainda que se trate de uma caminhada sem futuro.



21 de junho de 2017

timshel




Uma palavra!... Dir-se-ia apenas isso - uma palavra entre tantas outras. Uma palavra talvez privada da sua essência. Uma palavra desconhecida. Ou não!...

Uma palavra estranha. Desde logo um desafio. Provavelmente o mais objectivamente identificado com o livre-arbítrio que, por vezes, nos liberta das algemas que a inércia e o conformismo nos impõem. Uma forma de atingirmos a nossa própria consciência e, simultaneamente, a certeza de que as nossas limitações não nos impedem de dar um passo em frente sem receio do abismo.

Aqui estou reduzido à minha incapacidade de exprimir tudo o que ultrapassa o improvável. Não fora a míngua de talento, mãe, e poderia estabelecer um vínculo com as memórias que não esqueci, não obstante a tristeza. Não obstante a solidão.

Nada então seria impossível. A única dúvida haveria de limitar-se ao verbo a conjugar - à diferença entre o crer e o querer. A opção, em todo o caso, não constitui um dilema.



20 de junho de 2017

gin' ougo




Percorro o vazio que ficou daquela memória que, todavia, continua a preencher a esdrúxula inclinação das palavras órfãs do silêncio e da melancolia das paredes. Olho-me através da adolescente melopeia dos meus passos incapazes de reconhecerem a rugosidade dos caminhos, e sinto-me refém desta espécie de exílio que se reflecte na ausência das janelas.

As estrelas deixaram de ser capazes de se projectar no vagaroso espreguiçar das madrugadas. Dir-se-ia que os sorrisos se transformaram no próprio ronronar do desassossego. Na inútil explicação dos calendários.

Já não sou o prolongamento das horas na secreta geometria dos retratos. O tempo é agora o inquieto dedilhar do pensamento ou, se calhar, a agressiva arquitectura de uma solidão que me acompanha para além dos livros. Para além da dissonância dos monólogos.



19 de junho de 2017

um tiro no escuro




Nos diálogos que pontuam os caminhos de Axle Munshine, Christian Godard destaca a amizade como sendo um bem demasiado precioso para confiar a um ser humano.

Na vulgar estrutura das palavras, o que costuma definir-se como amizade, não é compatível com o grau de exigência que deveria ser-lhe intrínseco. Dir-se-ia que ser amigo é quase uma superficialidade e, essa, não se coaduna com o superlativo. Com a procura do absoluto.

Só muito raramente um amigo pega de estaca na alma e nos sentidos. O processo de fusão é lento, vagaroso, para que seja possível saborear cada momento e permitir que a semente possa desenvolver-se em harmonia.

É preciso que a indiferença se confronte com o seu oposto; que o silêncio tenha espaço para crescer livremente; que a alegria não se limite ao fogo-fátuo de um gracejo inconsequente. Um amigo é bem capaz de ser um projecto para toda a vida e, se calhar, os degraus prolongam-se inesgotáveis. Sem certezas, mas considerando cada gesto e observando os pormenores. Ainda que pareçam irrelevantes.

É por isso, mãe, que nesta busca incessante, nesta cruzada pouco óbvia, nem sempre o antagonista se situa no exterior. Nem sempre são os outros que armadilham as convicções.

Não se trata de um tiro no escuro, mas, não o sendo, a verdade é que se assemelha à essência de um acto de fé. Importa manter a ingenuidade da juventude, a capacidade de sonhar que caracteriza a adolescência e a determinação que ajuda a contornar as dúvidas que chegam com a rotação dos dias.



18 de junho de 2017

farsas




A voz de June Tabor parecia saudar o crepúsculo que descia sobre a cidade, como se o caos urbano e a impertinência dos semáforos clamassem por uma tranquilidade cada vez menos previsível.

Por trás de uma vidraça quase corroída pelo abandono, esquecido entre a poeira e a solidão, um derradeiro malmequer atrevia-se a desafiar a marcha do tempo. Sedentas e alquebradas, as pétalas tentavam inutilmente captar a atenção de um sol pouco credível. Ali, mãe, tudo parecia multiplicar-se pela decadência e pelo vazio.

O homem que o dobrar da esquina permitiu observar de relance, não era muito diferente dos demais que, àquela hora, se aprestavam para prosseguir o ciclo do desencanto que continua a sublinhar-lhes o dia-a-dia. Inerte, aparentemente alheio ao vaivém de quem pretendia usurpar-lhe os escassos centímetros disponíveis, era simultaneamente o personagem e o intérprete da mesma farsa em que participava o malmequer moribundo.



17 de junho de 2017

monotonia




Ali, em sossego, entre os canaviais que se multiplicam pelo leito do rio, a canoa quase se confundia com a bruma do entardecer. Foi então que a memória descobriu o pretexto por que aguardava para retroceder ao tempo em que os sonhos se demoravam no pensamento - o tempo em que as estórias se esboçavam no imaginário que resiste à passagem dos relógios. À subversão dos próprios sorrisos.

Parada, talvez entretida em secreto diálogo com as águas, dir-se-ia o prolongamento do homem cujos contornos a distância não permitia distinguir. Era, em todo o caso, a insurreição de uma paisagem desencantada com a monotonia das horas.

Quantas vezes, mãe, na descuidada azáfama com que se percorrem os caminhos, se deixam escapar estes pedaços de uma afectividade cada vez mais rara?!... Breves momentos que nos reconciliam com a ingenuidade de uma adolescência irremediavelmente ultrapassada pelos conceitos e pelos hábitos de uma nova realidade onde o silêncio não tem lugar.



16 de junho de 2017

a excepção e a regra




Quanta gente não recobra forças, só porque sente que alguém se preocupou pelo seu descanso e bem-estar!... Com pedacinhos de delicadeza assim, é mais fácil levar a vida até ao fim.

...

É essa a memória que me resta de tudo quanto no dia-a-dia preencheu aquela alegria quase lúcida - aquela alegria que se multiplicava pela cadência dos meus passos. Pela geométrica lentidão de um tempo que o próprio passado já não reconhece.

...E, vendo bem, é como se o silêncio fosse agora a abstracta desordem que me separa do envelhecer das estórias com que aprendi a projectar-me no sorriso de minha mãe. É como se me limitasse a ser o triste reflexo de um vazio sobre o qual desabou a indiferença.

Não tenho já como regressar a essa memória inseparável de um verão que se completava no secreto debruar dos calendários. Não tenho como recuperar as palavras rente à sombra dos pinhais. Deixei de me rever na rotina dos relógios e na melancólica ilusão dos espelhos.



15 de junho de 2017

genética




Há gestos que, por inesperados, se libertam dos limites da surpresa para se traduzirem no reflexo do que os sentidos intuem e que não se resume a uma explicação tantas vezes inócua.

...

Naquele dia, quando o silêncio principiava a sublinhar o crepúsculo que descia sobre a cidade, bastou um simples botão de rosa para que as palavras se transformassem no murmúrio com que se define a beleza.

O tempo, então, deixou de ter significado. Talvez, mãe, porque o beijo que te dei tenha sido diferente de todos os outros. Talvez por haver momentos únicos que se projectam na genética do pensamento. Da utopia.



14 de junho de 2017

causa e efeito




O silêncio torna-se perceptível - quase tangível - sobretudo quando é a solidão que me preenche as horas. À medida que foram sendo construídos os muros da indiferença, o tempo acentuou os sinais deste desencanto que, todavia, não se reflectiu no futuro que estava por descobrir.

...E ele chegou depressa!

Não ignoro os aspectos que contribuíram para que me fosse mantendo à margem de um equilíbrio dito racional. Se calhar é por causa deles que consigo olhar-me com alguma parcimónia, revendo-me nas etapas que fui ultrapassando, como se a um gesto se seguisse outro, talvez predeterminado, numa sequência de equações quase metafísicas.

Dir-se-ia, mãe, que as esquinas se tornaram inúteis. Os dias já não acontecem a um ritmo definido pela rotina. Os olhos habituaram-se àquele sorriso que se prolonga na madrugada, e os sentidos, oscilando entre o êxtase e o deslumbramento, adquiriram uma tranquilidade que se sobrepõe à impaciência de quem desconhece os obstáculos e os caminhos.



13 de junho de 2017

inquietação




O silêncio fez-se enorme, semelhante ao bucolismo que a memória ainda era capaz de reproduzir. Como o sussurro do rio na proa de um barco a projectar-se na lentidão do luar.

Aquele, mãe, deveria ser um outono diferente, longe dos equívocos que se perdem na confusão dos passos. Perto do olhar que não se revia nas promessas sem substância.

...E no entanto, quando mais nada se interpunha entre os sonhos e a solidão - quando a realidade se aprestava para preencher o caudal da incerteza - as interrogações foram-se multiplicando por um futuro distante da cumplicidade desenhada no pensamento. Na alma.

Inaudíveis, as palavras não deixaram que o sossego e a razão se antecipassem à trajectória da saudade que os relógios teciam. Que os espelhos prolongavam pelo infinito.

 ...

O tempo - qual ancião que aprendeu a interpretar os ventos e os sinais - ajudou a relativizar as mágoas, mas não a dissipar o desencanto.

Ao percorrer os caminhos onde a adolescência se fez refém dos seus próprios desafios, era o som de uma guitarra que fazia transbordar os sentidos e se reflectia na inquietação dos dias à beira do absoluto. Foi ali que as dúvidas e o deslumbramento coincidiram. Foi ali que um sorriso muito tímido desfez as rugas gravadas no rosto de um setembro longínquo.



12 de junho de 2017

fronteira




Era habitual confrontar-me com a ausência das palavras para que, depois, o diálogo me permitisse a reflexão através da minha própria subjectividade.

Agora, os interlocutores pouco têm de comum com aqueles que fui encontrando nos alcatruzes do desassossego. Na realidade foram sempre muito escassos e, por outro lado, os que mais se aproximavam não tardavam a ficar para trás. Não por demérito, mas, se calhar, porque nunca me conformei com os louros de um contentamento prematuro. Superficial.

Os patamares não significam o fim da subida, apenas permitem descansar para, então, enfrentar um novo desafio. Aceitá-lo, mãe, define a fronteira entre o sonho e os equívocos.



11 de junho de 2017

pelos atalhos da alegria




Subiste lentamente as escadas do silêncio. Cada passo e cada gesto dir-se-iam espirais de ternura tecidas nos meus olhos deslumbrados. Como se as águas de um rio, no caminho para a foz, parassem por um momento na contemplação das margens ou, discretas, embalassem a proa de um barco quase lúcido. Quase feliz.

Escorriam pelos teus cabelos os fios das madrugadas longínquas, quando os sonhos e a saudade se perpetuavam no orvalho que sobrevivia às cores do amanhecer. Cinzelado pelos dedos da memória, o teu sorriso assemelhava-se ao canto de um rouxinol a espraiar-se pelos atalhos da alegria.

De súbito um grito de palavras estranguladas, como se a realidade se projectasse na imensidão da distância. Na vertigem do desassossego e na música da tua voz. Um sinal apenas, ou talvez fosse o cheiro da maresia a percorrer as raízes da tristeza.

Quando entraste, mãe, a chuva desabou sobre a cidade, mas foram as minhas lágrimas que anunciaram a chegada do outono.



10 de junho de 2017

insustentável




As árvores definem a fronteira que me separa dos limites da memória. Abro a janela e vejo-as no mesmo lugar onde o teu sorriso se aproximou da madrugada e se projectou nas pétalas da rosa que te dei.

Mas é com a mágoa que me confronto!... A mágoa de saber que, entre nós e o sossego, se erguem os insustentáveis cortinas da distância, a impedir que os nossos olhos se reencontrem na geometria do silêncio.

A minha mão tenta atravessar a espessura da bruma e do desencanto para, enfim, se demorar na paciente curva do teu rosto. No despertar da saudade e no contorno das promessas que desenhei na transparência do orvalho. E pergunto-me, mãe, por que dói tanto esta proximidade do vazio...!



9 de junho de 2017

como um jogo insolúvel





Resmungamos com a vida. Falta-lhe alguma coisa, nunca nada é perfeito, nada está acabado ou resolvido. É como se estivéssemos a jogar um jogo insolúvel.

...

Volto sempre à memória de setembro. À translúcida geometria do silêncio que nunca mais foi o mesmo. Dir-se-ia que me perdi de mim mesmo ou, se calhar, transformei-me num equívoco. Numa sucessão de perguntas que se apagam à beira da incerteza.

Outrora, quando os calendários ainda se partilhavam com a cadência do comboio, era o habitual ronronar de uma alegria que se espraiava pela interjeição do olhar. Era o reencontro com os amigos que, depois, ficaram reféns numa esquina do tempo. No inacessível tiquetaque do vazio.

Talvez não seja este o caminho que os meus passos sempre procuraram. Talvez fosse preferível tentar recuperar os carreiros adolescentes de que ninguém parece recordar-se. Mesmo que as palavras se esgotem na lentidão dos monólogos. Mesmo que as sombras já não se projectem no anoitecer de um sorriso.



8 de junho de 2017

exígua parcela




O crepúsculo descia sobre a cidade. O relógio aproximava-se do instante em que aquele dia seria apenas passado. Nada sabia, entretanto, sobre a transparência que filtrava as tuas palavras repletas de mágoa. De saudade.

Foi então, mãe, que a noite se instalou no outro lado das paredes recortadas no cheiro da solidão. Foi então que os meus gestos se perderam na exígua parcela de uma alegria quase perversa. Curiosamente, sem que o tivesse previsto, tornei-me cúmplice de uma espécie de sossego que se reflectiu nas estrelas.

Lentamente, o teu sorriso espraiou-se pelas interrogações do meu olhar, até que o sono se sobrepôs à vertigem da surpresa. A eternidade, essa, aconchegou-se nos ponteiros do silêncio!...



7 de junho de 2017

um certo e previsível rumor




Vieste dos lados do sol trazendo a memória das madrugadas distantes, quando os sonhos e os sorrisos se vestiam com as cores do silêncio. Quando os segredos se pareciam com o dizer de um poema e com o cheiro que, em agosto, preenchia os horizontes.

Vieste dos lados do sol, mãe!... Quase anónima e, mesmo assim, transbordante.

Chegaste com a tranquila ondulação da brisa. Na serenidade de cada gesto. No previsível rumor da saudade!... A cada interrogação, mais se alargava a alegria das palavras que não te disse porque, havia muito, as misturara com as gotas de orvalho que amanheciam no teu olhar.



6 de junho de 2017

proximidade




Vou percorrendo o caminho entre o outono e a tristeza. Uma distância que se multiplica pelas palavras que me chegam desse lado da saudade onde os sonhos permanecem.

São notícias que me recordam a nossa memória comum. Que me recordam aquele dia em que nos revimos um no outro, quando o silêncio se fez nos lábios e se projectou nos atalhos sob um céu sem limites. E volto a adormecer na lentidão do vazio.

Depois, mãe, quando a madrugada se confunde com a paciência dos relógios, os meus sentidos prolongam-se pela eternidade. Pela solidão.



5 de junho de 2017

da súbita percepção




Não sei o que foi que aconteceu. Talvez a materialização de um daqueles sonhos tardios, quando a noite se aproxima da geometria do sossego.

O que quer que tenha sido, mãe, tornou-nos íntimos do silêncio, na perspectiva de um sorriso que não tardaria a chegar.

E todavia - soube-o quando o sol principiou a insinuar-se pelas janelas!... - não era mais do que o cheiro da maresia ou, melhor, a súbita percepção do que há de transbordante nas estrias da saudade.



4 de junho de 2017

sobre os caminhos




Tal como a utopia na arquitectura dos sonhos, assim a persistência deve ser indissociável da vontade, quando os caminhos são difíceis e longínquos os horizontes.

Nem sempre a obstinação e a memória se conjugam, mas talvez o coração seja impermeável aos gestos em que se reflecte o vazio. É preferível deixar que o tempo cumpra a sua tarefa e que a alegria possa subir ao olhar onde se projecta a saudade. Deixar que o desencanto envelheça para que a madrugada se prolongue pelos relógios.

Deixar, mãe, que o silêncio se instale nas janelas. Que a solidão se afaste quando chegar a manhã e o teu sorriso se desenhar na fragrância do orvalho.



3 de junho de 2017

introspecção




Debruçada sobre o matinal sossego das águas que reflectem a melancolia do lugar, a memória retrocedeu até aos flancos do silêncio que marca a fronteira entre os sonhos e as inquietações de uma adolescência quase sempre refém das dúvidas. Do vazio.

Um lugar onde, todavia, o futuro não se limita à percepção dos minutos que escorregam pela engrenagem do tempo, nem se esgota na despreocupação dos dias que prolongam a lentidão do estio. Um lugar onde o caminho se faz através dos desafios com que se ignoram os conceitos preestabelecidos.

Agora, mãe, não obstante as recordações, é preciso que os passos se reconciliem com uma autonomia que lhes permita o equilíbrio sobre o envelhecer das palavras. Talvez por isso seja tão necessária esta introspecção que reduz o desencanto à dimensão da saudade.

Porque, apesar de tudo, a solidão continua à distância de um só gesto. Do menos provável.



2 de junho de 2017

uma questão de olhar





Cada um de nós tem tudo de que precisa para experimentar a alegria. Não é um problema de conhecimento, é uma questão de olhar. Olharmos para o que somos e para o que nos rodeia com um coração simples, capaz de perceber o dom que nos habita.

...

É na multiplicação de cada gesto pela nupcial geometria do silêncio, que os meus passos se vão aproximando da inocente carícia das palavras. Que os caminhos se descobrem no anoitecer da memória.

Talvez os olhos tenham deixado de se demorar sobre a vagarosa simetria das abelhas. Talvez este já não seja o tempo de procurar a alegria na fragmentação das coisas mais simples. Talvez já nada reste para além dos sorrisos que se perderam na distância. No adolescente rumor dos corpos.

Aqui, onde as esquinas se resumem à imperceptível - e, não obstante, óbvia - trajectória de uma complacente melancolia, vou-me confrontando com a hesitação das páginas em branco e com a lucidez de um lápis que insiste em percorrer o derradeiro chapinhar de agosto.



1 de junho de 2017

sob a luz de um lampião




Hoje, mãe, no reencontro com as palavras onde os segredos se reúnem, dei por mim lado a lado com a memória que não cessa de me surpreender. Lembrei-me de que costumavas acenar-me daquela janela sobranceira ao silêncio dos lampiões. À chegada do crepúsculo.

As recordações reflectiram-se na lucidez de um sorriso, ignorando a sucessão dos gestos pantanosos. Desafiando a distância, ao mesmo tempo que a noite se alargava pela cidade, tudo em mim se multiplicou pela geografia da saudade.

Os pássaros vieram com a lentidão da brisa. Os sonhos, depois, transformaram-se na ternura que brincava nos teus olhos.