19 de maio de 2017

tentáculos




Ainda que o silêncio se demore na periferia do orvalho e a madrugada principie a alargar-se pela timidez das palavras, este é o tempo de me refugiar na memória e prosseguir a viagem pela lentidão do vazio.

São demasiado ténues os vestígios de uma alegria apenas pressentida e raramente esboçada na inocência dos lábios. Aqui, mãe, aonde me trouxeram os sonhos coniventes com a saudade, imagino-me a calcorrear a imensidão do teu olhar. A secreta explosão do teu sorriso.

Os dias, porém, repetem a sucessão da sua própria metamorfose. O cansaço já não permite que os gestos se multipliquem pela esperança e pela ternura. As rugas já me invadiram o rosto, mas é na alma que as sinto, como tentáculos a dilacerar o futuro. O desalento é a mais óbvia das consequências.

Como se o sossego se tivesse perdido por entre as esquinas da solidão, também os meus olhos se vão habituando às teias do desencanto. Já nada me prende ao meu próprio reflexo. Nem a melodia do anoitecer quando o outono se derrama sobre as árvores.



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