31 de maio de 2017

perspectivas




Debruço-me sobre as ameias do silêncio, onde o inverno há muito se instalou, e recordo o perfil dos sonhos jovens, ainda ocultos pela bruma das madrugadas em que o tempo não era o reflexo do vazio.

...Como se o futuro se tivesse privado dos seus próprios desafios, ou se as aves se perdessem na memória dos horizontes.

Em todo o caso, mãe, preciso recuperar a vontade que costumava anteceder a busca do desconhecido na perspectiva do infinito. Preciso que o teu sorriso permaneça, não obstante as interrogações. Não obstante as armadilhas.



30 de maio de 2017

fascinação




Foi apenas um sussurro. A inexplicável textura de um grito sufocado pelo contemplar do sossego. Pela outrora imperceptível claridade.

Um sonho!... Uma carícia no rosto do crepúsculo, como se houvesse um promontório a tolher-nos a passagem ou, então, mãe, como se a madrugada não tivesse interrompido a alegria que caía sobre as horas.

Como se o tempo nos esperasse à beira da eternidade.



29 de maio de 2017

padrões




Quantas vezes as dúvidas não se intrometem entre os sonhos e o desconforto perante uma realidade amorfa?!... Uma realidade que se reflecte nos rostos. Nos gestos.

Por que há-de a saudade ser sinónimo de absurda inquietação, quando os padrões ditos normais são, eles mesmos, o fulcro da intolerância e da imposição de regras que apenas conduzem a interrogações incapazes de discernir entre a distância e a memória?

A saudade, mãe - porque é dela que se trata - não tem que se ocultar nas esquinas do vazio. Nas recordações que se esgotam na indiferença das paredes nuas. A saudade não se conforma com a ausência de um sorriso a pairar sobre a tristeza.

A saudade não se combate com estereótipos acantonados nas trincheiras da irracionalidade.



28 de maio de 2017

entre os sonhos e a matéria




Nem sempre a alegria se reflecte nas palavras que se dizem quando o sossego sucede à cadência da ternura. Às vezes, mãe, é no silêncio que os sentidos se projectam. Saciados - por que não dizê-lo?!... - pela eternidade de um instante.

É porém no transbordar de um sorriso que se completa o ciclo da madrugada. Que a confusão se dissipa e se entende a vocação da saudade. É aí, quando os gestos se equilibram sobre o fio da navalha, que se adquire a sensação de que as coisas são possíveis. De que os sonhos não voltarão a ser a ausência da matéria.

...Ainda que, ao princípio, as circunstâncias não pareçam capazes de sobreviver às interrogações de um quotidiano quase híbrido. Quase tresmalhado.



27 de maio de 2017

o crepitar de um sorriso




A noite ia trepando pela indiferença dos relógios. Cortante, o frio convidava a permanecer entre as paredes do meu quarto onde a música se reflectia na penumbra do vazio. No rodapé do sossego.

...

O silêncio era apenas um sinal, mas a calma aparente não bastava para filtrar os vestígios da tristeza. Indecisos, os gestos denunciavam o cansaço que desaguou no coração da memória.

Dir-se-ia inevitável a perspectiva do abandono. Ainda assim, ousei aventurar-me pelas estremas da distância, sem verdadeiramente me aperceber dos limites do absurdo. Ou talvez a esperança fosse o meu derradeiro recurso.

O que quer que fosse, mãe - o que quer que me tivesse levado por aquele caminho - deve ter-me confidenciado que ali, à minha espera, estaria o crepitar de um sorriso. O teu sorriso!...



26 de maio de 2017

desmedidamente presente




...A mãe está sentada e o filho morto repousa no seu colo. Os biógrafos de Michelangelo são unânimes em sublinhar a importância da figura materna na sua obra: ele perdeu a mãe aos seis anos e, em muitos momentos, a sua arte será uma espécie de diálogo - em evocação discreta ou em puro grito - com essa figura ausente e, por isso mesmo, desmedidamente presente.

...

Como se o silêncio continuasse a multiplicar-se pela geometria dos espelhos, vou por aí através das palavras adolescentes que nunca deixaram de me acompanhar. Uma certa forma de me proteger do vazio e, se calhar, da minha própria indiferença.

Não sei se ainda consigo reconhecer-me nesta realidade em que procuro refugiar-me. Dir-se-á, por certo, que os caminhos deixaram de ser o reflexo das canções que ouvia minha mãe cantar, no tempo em que a alegria se demorava no secreto tiquetaque dos relógios. A verdade, contudo, é que as recordo para além da distância. Para além dessa ausência que não é mais do que uma ilusão.

As janelas, agora, abrem-se sobre a sombria perspectiva dos retratos, sem que a memória ouse projectar-se nos meus olhos indefesos. Há muito que deixei de dialogar com um passado que mais ninguém viveu. Talvez não tenha mais do que esse futuro a que, creio, nunca haverei de pertencer.



25 de maio de 2017

a jusante da incerteza




Por onde principiar, mãe? Como alinhavar o silêncio na desordem das palavras e permitir-lhe que se espraie pela lentidão dos búzios? Como evitar o eco da solidão nos parapeitos corroídos?

Do dia - deste dia - sobrou a distância que se multiplicou pelas esquinas do absurdo, quando os meus gestos se perderam no vazio, ao mesmo tempo que as dúvidas me preenchiam o olhar e se acumulavam no rodapé de um futuro inexistente.

Sobrou a perspectiva das horas extraviadas. Sobrou a confusão dos sentidos sobre as coordenadas da memória e sobre o cheiro da saudade. Sobrou a imensidão dos degraus. Sobrou a transparência do teu sorriso!...



24 de maio de 2017

as regras do jogo




Não é fácil conciliar as palavras, quando a saudade parece ser um obstáculo intransponível. Talvez o mais determinante!...

Desamparadas, inocentes, leves, como se lhes referiu Eugénio de Andrade, as palavras não hesitam em instalar-se-me no pensamento. Não seria racional detê-las, de tal forma elas se me impõem. Resta disputar o jogo de acordo com as regras pré-definidas. Em todo o caso, devo reconhecer-lhes capacidades não negligenciáveis, susceptíveis de me conduzirem ao cerne da solidão.

Não raro se afiguram lúcidas e, por vezes, o próprio sossego revela-se um escudo ineficaz. Que fazer, então, quando o vazio se projecta na distância? Que fazer quando a memória me arrasta pelos caminhos que deixaram de conduzir ao anoitecer das estórias entre a lareira e a lentidão do alpendre?

Que fazer, mãe, quando apenas os retratos me trazem o teu sorriso?!...



23 de maio de 2017

da poeira dos caminhos




É um silêncio transparente, esse em que as palavras se reflectem na nostalgia dos horizontes que não conheço. O lugar em que me reencontro com os sonhos que tomam conta das horas e que definem a minha própria ausência.

A distância - hoje como sempre - continua a alimentar esta ilusão que prolonga a incerteza e o medo de ser apenas a substância de um amanhecer sem a curva do teu sorriso. Sem a erupção da memória, quando os meus olhos se detinham na vastidão dos teus.

Resta-me a saudade dos dias que não vivi. O crepitar da lareira e a persistência da chuva a escorrer pelas janelas. A música, mãe, continua a ser a mesma, mas privados do som dos teus passos, os meus passos vão-se habituando à poeira dos caminhos.



22 de maio de 2017

elegia




As palavras aprenderam a prosseguir o caminho através do desencanto. As mãos rasgaram o silêncio que desabou sobre os olhos. A saudade, essa, sobrepôs-se à resistência das horas.

Não sei se a música se terá projectado na distância e no vazio ou se, por outro lado, se terá limitado a ser parte do murmurar da memória.

A noite fez-se enorme, mãe!... Maior até do que a solidão que recortava o luar e descia pelas paredes, ao mesmo tempo que os degraus da tristeza se prolongavam pelas estremas do absurdo.

Nada mais restou no desenho dos espelhos. Como se a proximidade do absoluto tivesse preenchido a própria lentidão do crepúsculo. Como se o teu sorriso atravessasse o singular amanhecer dos meus sonhos.



21 de maio de 2017

entre os álamos




Vinha dos lados do rio o rumor do silêncio e da memória. Insinuante, o vagaroso cheiro da madrugada antecipou-se ao sossego dos sentidos.

O olhar confundiu-se na espiral que as sombras projectaram na essência do próprio sonho - aquele sonho que se multiplicou pela distância e pelos labirintos do vazio. Como se fosse um poema a escorrer da solidão.

Foi ali, mãe, entre os álamos, à beira do crepúsculo, num chão sem pegadas, que descobri o significado das palavras protegidas pelas pétalas da tristeza. A noite afastava-se lentamente, mas as estrelas, essas, surpreenderam-se com a trajectória da saudade.



20 de maio de 2017

sobre a primavera




A primavera não é apenas uma estação exterior - nem sempre se resume a um assunto climático ou botânico - mas tem uma acepção inevitavelmente humana.

...

O que sei do silêncio é tão-só o que me trouxeram as palavras adolescentes que escrevi no limiar da minha própria utopia. Isso, porém, foi no tempo em que os meus sonhos eram diferentes de qualquer outra coisa, como se não existisse mais nada para lá da porta que, do alpendre, se abria para a insurreição do olhar.

Foram aqueles dias - irremediavelmente escassos - em que percorri a quase humanidade de uma alegria que, no entanto, pouco se demorava nos rostos e nos espelhos, mas que sempre nos acompanhava na viagem de regresso.

Minha mãe e eu vivíamos, então, muito perto da memória dos dias que prolongavam o sossego e se multiplicavam pela lentidão de um futuro inexistente. Vivíamos na promessa de um sorriso que ainda não era o reflexo do outono no perfil dos calendários. Só mais tarde - bem mais tarde!... - me dei conta de que a primavera se perdera no caminho.



19 de maio de 2017

tentáculos




Ainda que o silêncio se demore na periferia do orvalho e a madrugada principie a alargar-se pela timidez das palavras, este é o tempo de me refugiar na memória e prosseguir a viagem pela lentidão do vazio.

São demasiado ténues os vestígios de uma alegria apenas pressentida e raramente esboçada na inocência dos lábios. Aqui, mãe, aonde me trouxeram os sonhos coniventes com a saudade, imagino-me a calcorrear a imensidão do teu olhar. A secreta explosão do teu sorriso.

Os dias, porém, repetem a sucessão da sua própria metamorfose. O cansaço já não permite que os gestos se multipliquem pela esperança e pela ternura. As rugas já me invadiram o rosto, mas é na alma que as sinto, como tentáculos a dilacerar o futuro. O desalento é a mais óbvia das consequências.

Como se o sossego se tivesse perdido por entre as esquinas da solidão, também os meus olhos se vão habituando às teias do desencanto. Já nada me prende ao meu próprio reflexo. Nem a melodia do anoitecer quando o outono se derrama sobre as árvores.



18 de maio de 2017

circunstancialmente




Nada sei deste deserto, a não ser pelas interrogações que me conduzem à periferia onde se projecta a tua ausência, mãe. Insisto, contudo, em prolongar o vazio que se apossa do meu olhar e da simplicidade das coisas que te ofereço.

Sempre perpendiculares à consequência dos sonhos, talvez os dias se tenham habituado a permanecer em silêncio, mesmo quando a luz regressa da sua própria sombra. Aqui, onde a ignorância se alarga pelos detalhes do caminho, mantenho-me atento às evidências que me ferem a memória e destroem a vontade.

Talvez eu possa envelhecer entre a transparência do orvalho e a melancolia do violino que percorre as minhas palavras quando tropeçam no rumor da saudade. Talvez tenha chegado o tempo de esquecer os receios adolescentes e, por fim, deixar que a solidão se instale na poeira dos meus passos.



17 de maio de 2017

confissão




Por onde principiar a confissão desta angústia que me escouceia o peito, ao mesmo tempo que as sombras do crepúsculo se adensam na teia do horizonte? Que fazer com esta ternura que se apodera da intangibilidade do meu silêncio incapaz de subverter o ciclo da solidão?

Não sei como impedir que os dias corroam os derradeiros vestígios de uma vontade já sem argumentos para se libertar da sua própria memória. Como evitar que as metáforas continuem a domesticar as palavras que se mantêm fiéis aos meus sonhos de adolescente.

Quero sair daqui, mãe!... Esquecer que as horas se limitam a adiar o desejo e partir até reencontrar o aconchego do teu sorriso. O olhar, porém, já se quebra pelo cansaço e pelo desânimo. Já se submete aos desígnios da incerteza.

O que resta de mim é a imensa nostalgia das pupilas aprisionadas por trás desta janela.



16 de maio de 2017

para além dos sonhos




A noite passou sem pressas entre a exiguidade das persianas e a penumbra do silêncio que a manhã trouxe consigo. Dos sonhos ficou apenas o vazio do lugar que ocupaste - o lugar que foi teu na melancólica geografia do sono.

E ficou o teu sorriso. Uma realidade improvável, amordaçada pelo turbilhão das imagens. Pela solidão das paredes deste quarto.

Diria que são escassas essas horas de precária vigília em que te vejo tão nitidamente. Em que te tenho comigo. Talvez um dia a madrugada me surpreenda. Talvez ela possa vir a ser o prolongamento de um abraço, mãe. Do beijo que voltarei a dar-te!...



15 de maio de 2017

mais do que nos gestos




Anoitecia, ainda que o crepúsculo se demorasse na vagarosa letargia do outono, quando os teus braços se ergueram em busca de aconchego no desalento dos meus olhos. Cruéis, as perguntas soletravam-se no silêncio dos teus lábios.

Dissemos tantas coisas, mãe!... Com algumas até a memória se surpreendeu, escondidas que estavam nos detalhes do pensamento: a antiquíssima substância da ternura; a discreta luminosidade dos pinhais; os campos onde as papoilas se desenhavam na projecção de um sorriso.

...E antecipámos o insensato instante do adeus!

Mais do que nas palavras - mais do que nos gestos - foi na trajectória do vazio que me dei conta do peso da solidão. Depois, quando os relógios já se inclinavam sobre o ocaso, os tons fulvos do entardecer precipitaram-se sobre as lágrimas. Sobre o espanto!... Até se confundirem com a percepção do abandono.

Foi ali que a noite me encontrou. A noite e o rumor da escuridão.



14 de maio de 2017

da noite que principiava




Bastar-me-ia ser poeta, ou possuir um talento singular, para conseguir dizer o que os gestos não alcançam. Para falar do que faz bater o coração até ao limite do possível e o olhar perder-se nos abstractos contornos da realidade.

Talvez então fosse capaz de revelar o que ficou gravado na memória desse dia - da noite que principiava - em que nos revimos um no outro. O anúncio da solidão na vertigem de um abandono que se prolongou bem para lá do vazio. O sabor daquele beijo onde o silêncio se extinguiu...!

Mas eu, mãe, a quem as palavras gostam de surpreender, só posso esperar que a saudade te segrede aquilo que não sei como explicar.



13 de maio de 2017

como um simples fio de água




Como a brisa que passeia pelo silêncio das searas, ou como um sorriso tímido na periferia de um sonho, é assim que continuas a preencher a confusão dos meus passos.

Como um simples fio de água na vastidão do deserto...!

Somente tu, mãe, consegues afugentar a solidão dos meus dias. É, de súbito, um mundo por descobrir; um gesto novo que é preciso entender; o branco de uma tela a desafiar as cores. Então, sílaba a sílaba, invento palavras que ninguém antes dissera porque, antes, apenas o vento passava pelos caminhos da memória.

...E no fundo dos teus olhos, volta a reflectir-se a ternura que a saudade reclamava. Nos teus lábios, neles, desenha-se a alegria de um tempo que se esgotou.



12 de maio de 2017

sobre a bússola e sobre o norte




Talvez estejamos apenas numa encruzilhada e a agulha da bússola ainda não se tenha estabilizado na indicação de um norte, e tudo isto seja normal. Talvez seja só uma questão de tempo e daqui a nada vejamos mais claro. Contudo, seria iludirmo-nos e não reconhecermos até que ponto vivemos um daqueles momentos em que não conseguimos dizer ao certo para onde caminhamos - nem como sociedade nem como indivíduos.

...

Dia após dia - como se cada um deles apenas se reflectisse na espuma do vazio - continuo a hesitar na titubeante geometria dos meus gestos. Os caminhos existem e as encruzilhadas dir-se-iam ser uma vertigem contagiante que não deixa de alimentar a trôpega ladainha dos meus passos.

Não creio que a sociedade seja, em si mesma, um conceito razoavelmente credível. Não consigo olhá-la para além dos parâmetros do meu próprio desencanto. É como se recusasse perscrutar a madrugada através das persianas. Como se o silêncio fosse o único ritual capaz de me permitir conjugar o futuro na ausência das palavras.

Muitas vezes ou, melhor, quase sempre, procuro refugiar-me na proa de uma qualquer utopia, mesmo tendo a consciência de que as minhas perguntas não se esgotam no fluir das metáforas. Na multiplicidade dos sonhos onde me reencontro com uma adolescência obviamente peregrina.



11 de maio de 2017

depois de ti




Partiste discretamente, como se o silêncio procurasse no teu sorriso o sossego que não existe nas esquinas do crepúsculo.

Foram muito escassas as palavras que dissemos. Não havia, então, como entender a geometria dos gestos. A lentidão dos relógios!... Não havia por que suspeitar de que a ternura adormecia no esboço de uma carícia. O dia - aquele dia - refugiou-se na penumbra de uma quase indiferença, mas os meus passos passaram a confluir na direcção da saudade.

Depois de ti, mãe, talvez só o desespero se tenha demorado no que sobrou da juventude.

Houve madrugadas que se seguiram a noites de absurda solidão, em que apenas com os sonhos me atrevia a partilhar o vazio. Houve janelas que se fecharam sobre as dúvidas e sobre as incertezas, mas continua a ser o teu rosto que procuro no amanhecer de cada dia. Para sempre.

Ano após ano, o outono não deixa de despir as árvores e de arrefecer as horas. Eu continuo só com a tua recordação.



10 de maio de 2017

no outro lado de mim




Se soubesse escrevia um poema para ti. Um poema com a espessura do orvalho e da resina. Sem rimas, mas capaz de se reflectir no silêncio como a brisa que se liberta do seu próprio sossego.

Um poema em que as palavras não fossem o mais importante. Que prolongasse a transparência dos gestos e o cheiro da alegria. Que evocasse as memórias mais antigas, quando as nossas mãos se encontravam na projecção do olhar.

Um poema breve, profundo como os oceanos ou, se preferires, tão denso como o voo de um pássaro rente à ondulação dos sonhos. Que te inundasse a alma e, ao mesmo tempo, te elevasse para além do próprio crepúsculo.

Se soubesse, mãe, escrevia um poema para ti!... Um poema que te falasse de tudo o que guardo no outro lado de mim.



9 de maio de 2017

como o céu




Hoje, mãe, quero falar-te das coisas que acontecem quando os sonhos se debruçam na janela do silêncio. Das coisas que, apesar da tua ausência, não cessam de me surpreender, como se cada gesto que faço se desenhasse na poeira dos teus passos.

As palavras, contudo, guardei-as nas gavetas da memória. Há muito que as decorei para te sussurrar ao ouvido, quando a saudade deixar de ser o reflexo da distância. Quando tudo se confundir com a alegria que nos corria pelas veias.

...E talvez não chegue a proferi-las. Talvez me baste rever-te na projecção dos meus olhos para, então, acordar em ti como o céu na superfície do mar.



8 de maio de 2017

do desejo e da ternura




Fica ainda mais um pouco, mãe!...

Deixa-me olhar-te nos olhos. Gosto de te ver assim, com o sossego a percorrer-te o rosto enquanto o silêncio se aproxima do tiquetaque do relógio. Deixa-me ficar contigo sem palavras e sem promessas.

Basta saber-te comigo dia após dia através das coordenadas da memória. E o sol há-de trazer as manhãs, como se prolongasse o mistério daquela noite que se multiplicou pelo vazio. E o teu sorriso voltará a ser o reflexo da ternura. Da perfeição.

Que outra coisa poderia desejar?!...



7 de maio de 2017

perdido




Caminho devagar sobre a distância. A cada passo um sorriso solto; uma quase gargalhada à beira das palavras que preenchem o silêncio do meu olhar. Uma frase que não se completa; um segredo que não se diz...!

Caminho pela noite, embriagado pelas luzes da cidade. Ando como quem flutua sobre as nuvens ou sobre papagaios de papel. Como se a alegria me tivesse aprisionado na eternidade da infância, ignorando que fui crescendo na inevitabilidade do tempo. Talvez já não tenha idade para isto, mas é tão bom quando me recordo de cada um dos brinquedos que me ofereceste!...

Entendíamo-nos através de uma lógica pouco clara. Através da lentíssima trajectória dos gestos.

Recordo-me de um dia em que, à beira da velha Torre, ficámos muito quietos, saboreando o azul do céu. Talvez aquele sossego fosse já o reflexo desta saudade que hoje, mãe, apenas partilho com a solidão.



6 de maio de 2017

quase memória




Já não sei se sou aquele que contigo partilhava o tempo em que o verão se erguia a prumo sobre o verde dos arrozais. Talvez só restem de mim as palavras que escrevia nos papéis que se perderam nos alcatruzes da vida - os poemas, como tu gostavas de lhes chamar!...

Hoje, se tento lembrar-me, receio que as imagens estejam gastas, amarelecidas pela distância, mas não estáticas ou esquecidas. Conservam a inocência e o deslumbramento. Também os segredos que mais tarde se multiplicaram pelo cheiro da resina, quando o silêncio se entornou sobre os carris.

Mas sabes, mãe, os dias nunca mais foram os mesmos. Os caminhos já não possuem a ruralidade que sempre me fascinou. Nunca mais os percorri, porque a tristeza invadiu cada recanto e até a memória se tornou permeável ao sopro da solidão.

Era tão feliz contigo. Tão livre. Tão capaz de preencher as horas com a recordação do teu rosto e a certeza de me reconhecer no sossego do teu olhar.



5 de maio de 2017

morada precária




O mundo é uma morada - morada precária, é verdade - mas da mesma maneira que o é para todos os homens sobre a terra.

...

De mim, não obstante a trajectória do silêncio, poucas coisas se prolongam nesta espécie de futuro cujos caminhos há muito se confundiram com o envelhecer dos espelhos. Com o inevitável tiquetaque da distância.

As manhãs deixaram de se reflectir na bissectriz dos sonhos que continuam a esboçar a cadência dos meus passos. Interrogo-me - dir-se-ia que é apenas o que me vai permitindo manter este equilíbrio instável!... - e a realidade não deixa de ser uma equação insolúvel. Um equívoco a multiplicar-se pela erosão dos relógios.

O mundo já não se projecta nas palavras com que setembro costumava anunciar-se no rodapé da memória. Já não existem canções à solta nas esquinas da saudade. À beira da solidão.



4 de maio de 2017

metáforas




É na cadência das palavras que os nossos passos se reencontram. É a única forma de nos darmos. De escutar em cada gesto o discreto fluir do silêncio. De prolongar a ternura na imprecisão dos sentidos.

Sou tão irremediavelmente minúsculo no transbordante caudal do futuro, que nem me apercebo da sucessão de vozes que tentam escapar ao eco da solidão. É quase sempre por reflexo que prossigo em busca das parcelas que compõem os meus sonhos, como se o desassossego não estivesse no murmurar dos relógios.

Não sei como se deu a aglutinação das sílabas que resultam dos instantâneos do pensamento. Talvez seja a melancolia das estórias que se espraiam pelos flancos da saudade, onde ainda permanece uma certa juventude à espera de que os dias não se esgotem nas franjas do acaso. Sei, porém, entender os sinais que adivinho na projecção do teu olhar.

Ah, mãe, se soubesses como dói a tua ausência - como é triste este abismo que nos separa...!

...

Poder tocar-te o rosto numa carícia perfeita, com os dedos a percorrer a memória do teu sorriso. Esquecer que as palavras vêm e vão como as ondas do mar e que, no regresso, também os meus lábios se debruçam sobre as metáforas como se neles pretendessem beber a eternidade.

São assim os meus dias. Vazios de tudo. Vazios de ti.



3 de maio de 2017

era outono




Lembro-me de ti na imprevisível trajectória dos meus sonhos. Sempre perto. Sempre à distância da tua própria claridade. Lembro-me do teu sorriso desenhado sobre a penumbra. Dos teus olhos presos nos meus, como se o silêncio fosse a única forma de saborearmos a presença um do outro.

Dir-se-ia que o tempo se foi estreitando na memória, em lapsos que já não consigo controlar. A tua ausência, essa, deixou de poder medir-se com gestos razoáveis.

Os dias sempre me pareceram demasiado rápidos, mesmo quando as horas se demoram em elipses contemplativas. Às vezes chego a pensar que as que restam já não bastam para atingir a transparência do teu olhar, ainda que eu saiba o caminho que conduz a esse lugar que, agora, apenas nós conhecemos.

...

Era o mês em que o outono descia sobre as árvores. Isso sei!... Lembro-me, mãe, de que costumava ficar na periferia da noite que chegava demasiado cedo, Era lá que te projectavas nas minhas palavras e, desde então, a ternura jamais se afastou dos beijos com que tecias os calendários.



2 de maio de 2017

sobre a distância




A distância, por vezes, assemelha-se à hesitação do salto sobre o abismo - ele também objecto da convicção que tende a sobrestimar o receio. Apercebo-me da enormidade do caminho e dou por mim a multiplicar os passos que separam estes dias do tempo em que, contigo, me aproximava da fronteira entre o orvalho e as inadiáveis cores do outono.

Detenho-me na solidão do meu quarto, debruçado sobre esta ausência que me magoa. As sombras principiam a descer pelo branco das paredes e juntam-se à minha volta, como se pretendessem confrontar a memória que guardo de ti.

Sinto desenhar-se nos meus olhos o inesquecível rumor do teu sorriso, como se o próprio silêncio se tatuasse nos meus gestos. Como se sem ti, mãe, eu não pudesse viver!...

Como se viesse enrolado no sopro da brisa, o teu cheiro alarga-se pela lentidão do sossego, projectando-se nos sinais em que procuro reconhecer-te. Apenas a crueldade do vazio me impede de transpor a realidade. Nos meus sonhos, porém, continuam a reflectir-se as palavras com que, outrora, tecíamos as horas e a alegria.



1 de maio de 2017

pelas franjas do desencanto




A inadiável ternura do teu olhar, desagua nestas palavras que escrevo como se o silêncio flutuasse sobre a minha própria memória, O secreto rumor da saudade percorre o perfil da solidão, deixando sinais que, mais tarde, ninguém será capaz de entender.

Não é como no tempo em que os dias se dobravam sobre a transparência dos sonhos. Os gestos, agora, vão-se desenhando através do teu sorriso e da aventura dos meus passos pelas franjas do desencanto. Pela lentidão do crepúsculo. Pela súplica dos espelhos.

Dificilmente controlo a angústia que me percorre os sentidos. Está ainda demasiado longe esse futuro em que os dias hão-de jorrar do infinito para se materializarem na sabedoria dos pássaros. No murmúrio da noite e na previsível adolescência das rosas.

A primavera já se confunde com as sombras do passado. Com as esquinas das estórias que me contavas à luz de uma promessa. Vejo-a na copa das árvores e nas esteiras em que se reflecte a madrugada. Olho-a, mãe, deste lado das janelas, ao mesmo tempo que recordo as viagens que fizemos rente ao amanhecer do orvalho.