30 de abril de 2017

o amanhecer das rosas




Na vagarosa perspectiva do amanhecer, as rosas confundem-se com a solidão que se projecta no jardim. Pequenas gotas de orvalho que se reflectem nos primeiros raios de um sol estremunhado, enquanto o silêncio se prolonga até à embriaguez do crepúsculo.

É aqui, no quase imperceptível hiato que se intrometeu entre a trajectória dos sonhos, que me deparo com o secreto sorriso da saudade que se desenha nos espelhos. Que se reconhece na transparência da aurora. À beira do sossego, o meu coração vai repetindo as palavras que preencheram a noite e a alegria.

Como interromper este abandono sem romper os delicados fios da memória?!...

Deixo-me conduzir pela reverberação do teu olhar que parece afagar a ternura que veio aconchegar-se na minha alma. Recordo cada momento, mãe - deixo que os meus gestos se multipliquem pelos sulcos da eternidade.



29 de abril de 2017

da interjeição dos sonhos




Acordo com o breve rumor do teu sorriso e com o inacessível silêncio destas paredes, sem perceber se és a própria madrugada ou se és o reflexo de um outono cuja tarefa se cumpriu. Procuro então a vagarosa geometria do teu olhar, com receio de perturbar os sonhos e os segredos.

Dir-se-ia que nos encontramos naquela esquina onde as palavras se soletram como se pretendêssemos preservá-las do tumulto dos dias.

Lembro-me da simplicidade dos gestos com que preenchias as horas e os sulcos da memória. Reparo, porém, na névoa que se abateu sobre o relógio. Na equívoca claridade deste tempo a jusante de uma alegria que me é estranha.

É provável, mãe, que a solidão se reconheça na lentidão das folhas que, lá fora, se multiplicam pela vocação do vazio. Talvez seja por isso que a tristeza adormeceu sobre as candeias. Talvez seja por isso que os búzios deixaram de apontar o futuro.



28 de abril de 2017

até que todas as coisas se mereçam




O importante não será arrumar o mundo como nós fazemos, etiquetando, separando, permitindo que o preconceito nos reja. Importante será, sim, escutar, surpreender-se e deliciar-se com a alma do mundo que em nenhuma parte é duas vezes igual.

...

Penso na inadiável perspectiva das abelhas - na turbulência dos dias que, todavia, se prolongaram para além da adolescente inquietação do olhar. Para além da discreta erupção do silêncio.

Há muito que me revejo nas palavras que os relógios insistem em sussurrar-me no cochilar da memória. Há muito que me pergunto se não haverá, na incerteza dos meus passos, um qualquer propósito consentido pela sucessiva extrapolação dos sonhos.

É esta, quase sílaba a sílaba, a única explicação que sou capaz de articular, sem tropeçar nas dúvidas que se vão multiplicando pela vagarosa herança de um futuro difuso. Pela teimosia com que tento compreender os parâmetros do vazio.



27 de abril de 2017

refúgio




Entre a proa deste barco subitamente enternecido e o melancólico bater do coração, só a saudade parece preencher os contornos do crepúsculo.

Na transparência das águas reflectem-se as palavras sequiosas e o desejo de uma carícia na sustentação dos sonhos. Tímido, há um grito - talvez de um pássaro, talvez de um espelho - que se projecta no entardecer das margens, como se quisesse prolongar-se pela substância do sossego.

Quero ser capaz de alargar os limites mais recentes da memória, através da luminosidade do teu sorriso aconchegado na trajectória da brisa que me recorda a superfície do orvalho. A secreta cantilena desse agosto aprisionado na penumbra dos retratos.

Os meus olhos, contudo, perdem-se na erosão dos calendários. Na absurda cadência dos relógios que se multiplicam pelo ritual da solidão. É então, mãe, que me refugio no que ficou do velho alpendre, ao mesmo tempo que a música vai preenchendo o vazio destes dias tão distantes do adormecer do silêncio.



26 de abril de 2017

um chá no deserto




Recomeço a lentíssima tarefa de percorrer os caminhos da tua ausência. Reconheço-te na simplicidade de cada grão de areia, desafiando os limites da incerteza e a fugidia espessura do silêncio.

Permaneces nos versos do poema que escrevi nos muros da melancolia. O teu corpo projecta-se através da ternura que conservo na memória. Ou serão os sonhos que não esquecem o cheiro do teu sorriso?!...

Reencontro-te no lugar menos previsível desta precária realidade, exactamente onde principiam todas as dúvidas e se esgotam as perspectivas. Lá, na periferia da minha própria saudade, o teu olhar mantém-se na transparência do orvalho, como no tempo em que me surgias no amanhecer da brisa.

Naquele tempo, mãe, em que as palavras ainda se contemplavam na aproximação dos pardais.



25 de abril de 2017

secretamente




Um  beijo!... A recordação que percorreu os sentidos e se aconchegou na alma. A ternura desenhava-se nos teus lábios que tocaram o meu rosto como se receassem o despertar do sonho na arquitectura da distância.

...

Mais um dia que começa. As pálpebras subtraem-se à cerimónia do sono e reencontram-se no reflexo dos espelhos. Como uma promessa, o frio aguarda-me na projecção das janelas. A música, como um sussurro, acompanha-me através dos ponteiros de um relógio muito antigo.

Nunca mais as palavras se pareceram com a súbita explosão da beleza. Nunca mais o silêncio se demorou na transparência do teu olhar e na interrogação do teu sorriso. Apenas a madrugada foi testemunha do espreguiçar da solidão. Da geografia da tristeza.

Ah, mãe, que cansado que estou - que vazio de esperança pelos degraus do abandono!...



24 de abril de 2017

...e o sol encostava-se às janelas




Foi um voo muito curto, aquela adolescência que se esgotou antes que a ternura se desenhasse no teu sorriso e o silêncio se fizesse nos meus olhos em busca de uma alegria que, só muito mais tarde, fui capaz de compreender.

Lembro-me das palavras que escalavam os degraus de uma saudade que, então, se sucedia nas folhas dos calendários. Lembro-me do frio das madrugadas e do aconchego das paredes em que nos refugiávamos, mas que nunca foram verdadeiramente nossas.

Lembro-me das tuas lágrimas, mãe!... Quantas vezes as não dissimulaste na penumbra dos relógios...!

Pouco a pouco, os sonhos transformaram-se num lugar em que a tristeza raramente se demorava. É certo que deixámos de ter a presença das abelhas e que as cigarras já não se multiplicavam pelos caminhos quando o verão se reflectia nos corpos. Tínhamo-nos, porém, um ao outro e o sol encostava-se às janelas sempre que te ouvia cantar.

Agora só no vazio me reconheço. Só na solidão.



23 de abril de 2017

pelos veios da memória




Do tempo em que as palavras e os sonhos tinham exactamente a mesma espessura, trouxe os segredos que os olhos tantas vezes murmuravam.

Éramos então a imperceptível medida do silêncio, como se pretendêssemos que os caminhos se alargassem pelas veias onde corriam as manhãs de maio. Lembro-me da ternura que espreitava pelo teu sorriso e do cansaço que percorria os teus gestos. Lembro-me da alegria que semeavas no meu peito.

Agora, frente ao envelhecer destes dias que se confundem com a solidão, é sem surpresa que me revejo nos contornos do teu rosto. Na saudade que atravessa as minhas mãos desamparadas.

A memória, mãe, é como um pássaro sonâmbulo a cantar à sombra de um futuro prometido. Pena é que as candeias já não preencham as noites de agosto. Pena é que as papoilas já não amanheçam nas searas.



22 de abril de 2017

reflexo




As árvores já se reflectem nesta primavera com a memória a projectar-se na embriaguez das águas. A saudade atravessou a delicada espessura da manhã que os pássaros iam anunciando através da fria arquitectura do silêncio.

Era cedo - as sombras mal se definiam nas paredes. Indiferentes, quase sonâmbulos, os meus gestos limitaram-se ao ritual de todos os dias. Uma sucessão de abstracções que os sentidos têm vindo a decorar. A inconsequente mecânica que se confunde na dimensão da tristeza.

As palavras adquiriram um jeito telegráfico que talvez as torne imperceptíveis. Pouco mais do que monólogos que multiplicam a penumbra do olhar pela trajectória do vazio. Nem mesmo o cansaço parece resistir à secreta erosão das horas.

É assim, mãe, que vou passando pela desordem dos calendários. Apenas os sonhos me impedem de seguir o rasto do desencanto - apenas eles me ajudam a manter uma espécie de lucidez que resiste ao cheiro da solidão.



21 de abril de 2017

indescritível




Num momento todo o meu coração se comoveu como nunca; eu acreditei por dentro e com todas as forças; todo o meu ser era como que violentamente arrebatado para o alto. E havia em mim uma convicção tão forte - uma segurança tão indescritível - que fez desaparecer todos os resquícios das anteriores dúvidas.

...

Vive talvez no lugar mais inacessível da memória - esse lugar onde o pensamento costuma refugiar-se - a consciência de que, muito mais do que na perspectiva das palavras, é na transparência do silêncio que se reflecte a geometria de um sorriso.

Um sorriso quase tangível que se multiplica pela própria realidade dos lugares. Pela transbordante latitude do sossego que amanhece no prolongar dos passos e dos caminhos. Um sorriso ou, se calhar, a explicação do tempo e da saudade.

Porque o tempo não é apenas a irracional rotação dos ponteiros de um relógio. O tempo projecta-se na dimensão do vazio. No infatigável marulhar das ilusões. Na súbita percepção de que existe uma espécie de alegria no soletrar da distância.

...E há gestos que não se perdem na ausência de um olhar.



20 de abril de 2017

um gesto apenas




Um gesto apenas. Discreto. Imperceptível. A matéria que prolonga o rumor do pensamento. O desenho da saudade no despertar de um sorriso.

O gesto com que a ternura se aproxima do vazio. Com que os dedos anoitecem na convulsão dos espelhos, quando te debruças sobre a explosão das palavras. Quando os teus olhos se projectam nos meus e os sonhos se libertam do nó cego dos relógios.

É o silêncio que cresce no amanhecer do orvalho. Na inocência dos búzios. É um rio no outro lado do tempo. No envelhecer da memória. O sossego que se espraia na superfície de um retrato.

O teu retrato, mãe!... O meu desencanto.



19 de abril de 2017

metamorfose




Interrogo-me sem obter respostas. Pesa-me nos ombros a sombra da solidão. O tamanho do vazio!...

Deixo-me ficar na inóspita encruzilhada da memória - na difícil projecção de um futuro que não desejo - sem saber se os meus passos se atrevem a desafiar a indecisão dos relógios.

É nesse lugar que permaneces, mãe!... Tão perto da lentidão dos sonhos, num difícil equilíbrio entre a saudade e as ruínas de uma infância muito breve.

Noutro tempo, as palavras nunca foram o reflexo da ternura que trazias no olhar ou, então, talvez eu ainda não tivesse escutado o assobio do silêncio na superfície dos espelhos.

Foi só quando os meus olhos se demoraram na inquietação das janelas, que um sorriso muito triste se espreguiçou na geometria do teu rosto e se espraiou pela discreta metamorfose dos dias.



18 de abril de 2017

introdução ao futuro




As sombras vão-se acumulando sobre a cumplicidade que nos unia. Que nos permitia a improvável compreensão dos equívocos e do silêncio.

E todavia, é na frágil sustentabilidade deste vazio que me rodeia, que se estabelecem os apoios de uma força súbita. De uma tranquilidade tão capaz de tropeçar na superfície das areias, como de se elevar para além da lucidez.

É na mais breve partícula do teu sorriso, mãe, que se desenha o futuro que vou tecendo através da solidão. É na semelhança entre os pássaros e as ilusões, que as minhas palavras se revêem na projecção daquele tempo que partilhámos e que, com transparente objectividade, faz de mim um eterno caminhante em busca da superlativa dimensão do sossego.

Falta-me a ternura do teu olhar onde me refugiava de cada vez que os meus sonhos se esmagavam contra os muros do desânimo. Agora, porém, não sei para onde me levam os meus passos trôpegos. Desconfio mesmo de que os meus dias se perderam numa qualquer esquina de um qualquer calendário.



17 de abril de 2017

talvez...!




Agora que o inverno já se escondeu no equinócio que o devolveu ao ritual dos calendários, talvez seja possível reinventar o tempo na periferia dos horizontes. Talvez o sol me convoque para o aconchego das palavras no regaço do crepúsculo.

Talvez descubra outra vez o teu sorriso a reflectir-se no refúgio das viagens inventadas.

Agora que as aves se aquietaram e a penumbra se prepara para tomar o vazio por confidente, talvez a música se demore na contemplação das cores que a primavera acendeu na transparência das lâmpadas. Na tristeza do olhar.

Nunca sei o que esperar destes dias que há muito se aproximaram da trajectória dos retratos. Não tenho mais do que a memória, mãe. Não tenho mais do que a saudade!...

Há pouco, logo após o abrupto amanhecer do relógio, pouco mais havia do que a solidão a abater-se sobre os candeeiros. É através dela que caminho rente aos muros que desconhecem o rumor de uma carícia. Não estou só. Os meus passos aproximam-se da rigorosa cadência do silêncio.



16 de abril de 2017

indecisão




Dir-se-ia que a saudade amanheceu sem recear as arestas da solidão. Como se os derradeiros sinais de uma alegria compulsiva prolongassem a carícia dos sonhos interrompidos pelo marulhar do silêncio.

Lembro-me da minha súbita perplexidade - uma espécie de hesitação entre o estremecer de um beijo e a vontade de mergulhar na contemplação das palavras.

...

Lembro-me de tantas coisas, mãe!... Lembro-me de te ouvir cantar quando o sossego principiou a demorar-se na projecção dos teus olhos. Isso, porém, foi muito antes de descobrir que a ternura não é incompatível com as ruínas de um outono adormecido na perversão dos calendários. No envelhecer da memória.

Lembro-me do teu sorriso...!



15 de abril de 2017

dos equívocos do inverno




Um sorriso cuidadosamente cravado nas inadiáveis pupilas dos meus olhos, como se a solidão fosse a haste mais apetecível do silêncio. A letargia da saudade sobre a transparência da alegria.

Quantas recordações não se derramam na intemporalidade dos caminhos que a ti conduzem...!

Nenhuma palavra se desenhou na penumbra dos espelhos que ocultaram o nosso abraço. O derradeiro!... Os passos, contudo, enquanto os sonhos partilhados continuam a percorrer o vazio, mantêm o rumo da ternura que se prolonga para além da indefinição dos relógios.

Deve haver no canto menos equívoco do inverno, uma forma de subverter a espuma daquele dia que se reflectiu na muito frágil materialização de um grito.

A primavera já por aí anda - pelos lugares que a memória não esqueceu!... São agora muito escassos os que comigo atravessaram a imperceptível fronteira dos gestos que tinham o cheiro da terra molhada. O brilho das noites que se insinuavam pelas janelas e se aconchegavam no branco dos lençóis.

O tempo, esse, deixou de se medir através da lentíssima viagem dos girassóis. Vou passando pelas horas como se o frio se tivesse despenhado sobre os búzios, mas tu, mãe, nunca deixarás de ser a secreta trajectória do meu futuro.



14 de abril de 2017

salário mínimo




Colocarmo-nos nos sapatos dos outros também nos ajuda a entender melhor o que poderá ser a nossa marcha.

...

Ao acordar - naquele instante em que as palavras ainda não permitem distinguir a geografia da memória - lembrei-me do vazio que, às vezes, ao longo dos calendários e dos caminhos, se descobre na incerta súplica de um olhar.

Na realidade, quase nunca nos debruçamos sobre esse vazio ou, para melhor dizer, sobre o abandono que nos observa do outro lado do silêncio. Uma espécie de tristeza que se multiplica por uma imensa solidão. O absurdo de um sorriso que se esboça na trajectória de cada dia.

Confesso que não sei como dar esse passo que me separa do inexplicável. Como desenhar esse gesto que, muito provavelmente, me aproximaria de um futuro onde o preto e o branco dos retratos haveriam de projectar-se no vagaroso soletrar da alegria.



13 de abril de 2017

a prolongar o sossego




Quase triste, quase imperceptível, o que resta do meu sorriso perde-se na superfície dos espelhos; os meus olhos descem devagar até aos escombros da alegria; os meus gestos precipitam-se num horizonte de aventuras e de espigas.

Depois, como se o silêncio sugasse a ondulação da brisa, a minha memória passeia-se pelas esquinas da saudade. Pela encruzilhada de um sossego em que não me reconheço.

Na súbita projecção de uma candeia, as palavras têm a forma de um grito a irromper da ternura. Inaudíveis na perspectiva do vazio, dão lugar aos porosos instrumentos desta difícil solidão.

...

A noite chegou mais tarde. Veio pelos trilhos da melancolia, enrolada na indiferença das vozes que, ao longe, se multiplicam pelo abandono.

Deixo-me ficar, mãe, entre a recordação do teu olhar fatigado e o desencanto dos muros que se apoderam dos meus sonhos. Os dias agora não se demoram no reflexo dos meus passos. Não se deixam retratar no aconchego dos sentidos.

Agora pouco mais tenho do que a poeira do tempo. Tenho contudo as rosas no prolongar das estrelas. Tenho o teu beijo no adormecer dos relógios.



12 de abril de 2017

no amanhecer da saudade




Como substituir o silêncio que as palavras levam consigo quando a cancela se fecha sobre o crepúsculo e o fogo arrefece na lareira? Quando os sonhos se reflectem na vocação das aves?

Quando os gestos se aproximam do que sobrou da melancolia que resiste ao pachorrento baloiçar de uma candeia...!?

As horas já não me agridem os sentidos como acontecia naqueles dias que capturavam os sorrisos, ocultando-os entre a penumbra e o receio. Os relógios, contudo, não cessam de me recordar o peso da solidão, quando o vazio vai sendo preenchido pelo movimento das pálpebras no amanhecer da memória.

É cedo para regressar a um tempo que se confunde no rodapé dos calendários. Já não tenho como me reconhecer num passado que não se partilha ao serão, entre a alegria e a adolescente perspectiva do futuro. Agora, mãe, restam-me alguns fragmentos - uma espécie de retrato debruçado sobre a saudade.



11 de abril de 2017

sob a luz de uma candeia




Não é fácil habituar-me a este vazio que me rodeia. Aos contornos da saudade que preenche os meus dias à beira do desencanto.

Sou apenas a transposição da tristeza que, desde os flancos da memória, se prolonga pela prodigiosa dimensão da tua ausência, ainda que uma carícia se desenhe na explosão do silêncio.

Então, quando me debruço sobre as ameias do tempo, fico mais perto do coração da terra e da fronteira onde me dou conta dos sinais de uma beleza muito frágil. Cristalina.

Onde o sossego se descobre na trajectória de um sorriso. O teu sorriso, mãe!... A vagarosa essência dos meus sonhos. O singular rumor de uma ternura que não sei como alcançar. A distância de um anoitecer sob a luz de uma candeia.



10 de abril de 2017

de súbito ou talvez não




Não fora o sorriso a espraiar-se pelo olhar e talvez o inverno não tivesse como chegar à monótona ladainha dos relógios.

Mas naquele dia - na noite que se aproximava - com a saudade a instalar-se nos flancos do crepúsculo, os gestos eram o próprio reflexo dos pássaros em tímidos voos através da solidão.

Nos espelhos subitamente iluminados pela carícia do silêncio, dissiparam-se os vestígios com que o desassossego desenhara o caminho. Muito ténues, não eram mais do que recordações à beira de se diluírem na indiferença.

Até que se abriram as janelas da memória...!

...

Foi apenas um instante que se multiplicou pelo abandono que me separa da periferia dos retratos. Talvez não se esgotem nestas paredes as palavras que não deixam de ser monólogos. A noite já me pesa nas pálpebras. As minhas mãos, mãe, essas continuam vazias.



9 de abril de 2017

pelo rasto das charruas




Aprende-se com a melancolia a enfrentar o silêncio que as palavras projectam nas franjas do desencanto. Um silêncio construído com a paciência dos anciãos que envelheceram no contacto com as suas próprias interrogações.

Era à beira do inverno que as respostas se encontravam - violentas, às vezes, tão capazes de se demorarem no reflexo da brisa, como de se esboroarem nos parágrafos do desassossego.

Mas aqui, onde o receio se alarga pela periferia do abandono, antecipa-se o declínio pela degradação dos verbos que se conjugam no passado. Surpreendentemente, são os mais novos que se atrevem a rasgar os caminhos. Eles e a inocência sugerida pelo rasto das charruas.

Agora, quando os calendários se sucedem na bissectriz da memória, recordo-me, mãe, dos teus gestos simples. Da harmonia do teu sorriso que se desenhava no amanhecer da ternura, E espanto-me com a vulgaridade dos dias incapazes de acompanhar a lentidão dos relógios.



8 de abril de 2017

quase todas as coisas




Tenho aqui quase todas as coisas de que preciso. O silêncio, sobretudo o silêncio, nunca se me afigurou tão objectivamente deslumbrante!... Dir-se-ia que um escultor lhe desenhou os contornos e foi capaz de lhe insuflar a alma que o distingue das metáforas.

Há as árvores de que me aproximo, antes mesmo de alcançar a discreta transparência do outono, como se me tivesse tornado indissociável deste lugar e não um ocasional figurante a perturbar a conjugação das sombras.

As horas, não obstante a presença dos relógios, parecem contemplar a vocação das palavras. Parecem enroscar-se no seu próprio espanto!...

Há as lendas que se escondem nas esquinas da memória e a ternura dos teus olhos clandestinos que me fitam de cada vez que a alegria se define na lentidão dos meus lábios. Há o cheiro do sossego e a nocturna solidão dos meus sonhos.

Tenho a tua ausência, mãe, e no entanto, para além da confusão e da tristeza, o teu sorriso - sempre ele!... - continua a reflectir-se nos parâmetros da minha saudade.



7 de abril de 2017

dos livros e da memória




Ler é uma actividade indissociável da curiosidade e do desejo. É preciso aprender a senti-la como uma necessidade interior, um gosto, uma alegria que pode até ser frívola e profunda ao mesmo tempo, um encontro a que nos dispomos sem porquê.

...

Ler é, sobretudo, um acto tão solitário como a intangível decantação do silêncio. Uma espécie de reencontro com um futuro que se perdeu algures entre a adolescência e a inequívoca consistência dos sonhos.

É muito mais do que uma permanente interrogação que se multiplica pelos recantos da memória, como se fosse possível tactear a essência do vazio em que mergulham as palavras quando o tempo parece ser alheio à cadência dos relógios.

Ler, todavia, não deixa de ser a ausência de caminhos. Quase um equívoco que não detém a lucidez da distância, ou o entardecer de uma canção que se escuta ao longe, antes de entreabrir as janelas daquele agosto na projecção de um sorriso.



6 de abril de 2017

à sombra das palavras




Não fora a saudade que se aconchega nos sonhos e no olhar, e o silêncio haveria de parecer-se com o cheiro dos eucaliptos. Com o apelo da juventude. As sombras, porém - aquelas que insistem em permanecer - enchem de tristeza as palavras que continuo a alinhavar à beira da solidão.

Talvez elas tenham necessidade de reencontrar o sorriso que costumava esconder-se a um canto da memória, quando, ultrapassadas as interrogações, apenas se escutava o rumor dos passos que vinham com o crepúsculo.

Hoje, ao recordar os caminhos, detenho-me na esquina mais próxima de setembro, onde explodiam as sementes da eternidade, até me embrulhar no vagaroso espreguiçar do sossego. O tempo agora é o de partilhar os desafios e os segredos. De prolongar o sono para além da madrugada, quando o vento e a poeira se identificam com o desencanto.

A verdade, mãe, é que para lá destas paredes - para lá das persianas que se fecham sobre a incerteza - apenas tenho o vazio. Apenas me deparo com a indiferença. Aqui, ao menos, o teu rosto continua a reflectir-se na inocência das horas. No amanhecer dos búzios.



5 de abril de 2017

rosa - dos - ventos




Centenária, com os ramos a trepar pelo dorso da madrugada e a sombra a alongar-se até à periferia do verão, a árvore tornou-se inseparável das linhas da memória, quando a adolescência era apenas uma ave a espreitar o primeiro voo no limiar da sua própria indecisão.

...

Um dia, quando o silêncio se acumular nos parapeitos, hei-de recordar as palavras com que cresci. As palavras com que tentei desenhar todos os lugares que arrumei no baú onde os anos se aconchegaram entre as teias do passado. Onde a saudade se instalou porque os monólogos jamais tiveram retorno.

Hei-de voltar a percorrer os recantos desse tempo a que não sei como regressar e recuperar os caminhos muito antigos, onde os sorrisos aprenderam a esboçar-se nos lábios ainda ingénuos. Ainda incautos e, certamente por isso, confiantes.

Lá, onde os cedros não existem - onde as searas e os pinhais já não se revêem no amanhecer dos sonhos - talvez possa partilhar com a solidão, o sabor de uma alegria que fui esquecendo. Os sinais do desencanto que principiava.

Um dia, mãe, hei-de voltar a essas palavras que se refugiaram para além dos horizontes. No sossego do teu olhar.



4 de abril de 2017

a multiplicação das horas




As manhãs não são diferentes - mantêm-se os vestígios da solidão, não obstante a convicção de que os calendários se hão-de preencher na embriaguez de um sorriso.

Não tenho como ultrapassar a melancolia das canções que ainda trazem o rumor da incerteza, nem a crueldade das horas que não deixam de atravessar os caminhos entre as sombras e a perspectiva da tristeza.

...E contudo, existem os sinais de uma cumplicidade invisível, em inadiável confronto com o reflexo do imprevisto. Já é mais forte a vontade de enfrentar o sussurro das vogais incompatíveis com as sementes da alegria.

A ternura - porque é ela que se multiplica pelo silêncio dos relógios - já não receia o perfil da tua ausência, mas o tempo ainda não é a projecção do sossego. O prolongamento do teu olhar.

Está frio!... Não sei se o nevoeiro se instalou no coração ou se as paredes se confundiram com a trajectória do vazio. Com a perplexidade desta transparência órfã da vagarosa agitação das searas. Está frio, mãe, mas há um cheiro a alfazema que se espraia pela lucidez do teu retrato.



3 de abril de 2017

na periferia das fontes




Aprende-se com o passado, ainda que seja próximo, a entender os sinais do silêncio. Bem mais do que com as precárias tentativas de reescrever a saudade na progressiva inconstância da memória.

Imaturos, os gestos ainda se esboçam na imprecisão das águas, mas pode ser que a alegria venha intrometer-se entre as sílabas do desencanto. Entre as arestas da melancolia.

Os relógios passaram a percorrer não a elíptica espessura da solidão, mas a transparência dos sonhos que se partilham ao mesmo tempo que se aconchegam no coração dos búzios. Talvez as horas, também elas, possam reiniciar a aprendizagem das manhãs por inventar.

Não há por que aguardar o declínio da primavera, agora que os caminhos se desenham na recordação das amoras. Na secreta periferia das fontes e do cacimbo. Na dolorosa ausência das searas.

O céu - aquele céu que me habituei a descobrir na imprecisão dos meus monólogos - já não tem a cor da ternura que se demorava no amanhecer do teu olhar. Os meus dias, mãe, deixaram de ser o reflexo do teu sorriso, mas conservam o sabor dos beijos que me davas.



2 de abril de 2017

a importância dos detalhes




É, às vezes, um detalhe insignificante, apenas perceptível para quem não tem da ternura o entendimento que dela têm os sonâmbulos. O sorriso dissimulado nas franjas da indiferença; a alegria que insiste em rilhar a solidão; o gesto que denuncia o lugar onde se refugia a memória. Também o rosto da madrugada.

Por muito menos se concluiria a caminhada!...

Deste modo - e não de outro qualquer - foi possível compreender o silêncio. A lenta comunhão das almas com o imaterial entardecer da saudade.

Lembro-me, mãe, do sossego dos nossos dias para além da cadência desse agosto que se projectava nos caminhos rugosos. Na convergência do orvalho com o adolescente rumor dos passos. Na crepuscular insurreição das candeias.

Todas as minhas palavras me parecem demasiado pobres para te falar da tristeza. Tenho, porém, os meus sonhos. Tenho o teu sorriso aconchegado no envelhecer do relógio.



1 de abril de 2017

a exemplar quietude das abelhas




As palavras questionavam o futuro e reflectiam-se no olhar onde se aconchegavam as aves. Onde se partilhavam as lendas e o sossego.

Pacientes, os gestos enroscavam-se à sombra do desencanto, porque a vida não era uma sucessão de factos inevitáveis e fortuitos. Era, sobretudo, a busca da perfeição, ainda que por caminhos opostos à confluência das vozes.

Para que não se lamentasse o tempo perdido!...

...

A vida, mãe, transformou-se na permanente multiplicação da saudade pelos tresloucados espelhos da distância. Deixo-me conduzir pela cantilena da solidão que se projecta entre a lucidez de setembro e a exemplar quietude das abelhas.

Refugio-me na trajectória de um inverno interdito à melancolia dos salgueiros. À súbita convulsão da tristeza.