segunda-feira, 20 de março de 2017

arestas




Bem cedo - a manhã ainda embrulhada na penumbra do silêncio - com a brisa a tactear a substância das palavras, os gestos detinham-se na lentidão do sossego, ao mesmo tempo que a memória procurava as pontas do seu próprio novelo.

Ali, somente a ternura poderia conjugar-se com a impaciência dos ramos altos onde o sol principiava a espreguiçar-se. São inesquecíveis esses instantes em que a vida se assemelha ao perfil da eternidade.

Como que desafiados pelo canto da cotovia - era por certo uma cotovia!... - os olhos estreitavam-se a prolongar o crepúsculo parta além da tolerância das árvores. Depois, o desenho de um sorriso reflectia-se na geografia dos sonhos. Na transparência das fontes.

...

É assim, mãe, que me revejo naquele tempo que, todavia, parece ter-se confundido com o acentuar dos monossílabos. Um tempo tão curto como a trajectória desta saudade desamparada e perdida entre as sombras da solidão. Entre o envelhecer do vazio.



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