31 de março de 2017

que coisa são as nuvens




Os amigos, mesmo aqueles que têm a felicidade de se encontrar diariamente, sabem que são linhas paralelas destinadas a encontrar-se no infinito.

...

É fácil ou, melhor, é absurdamente comum que os amigos - aqueles que, na vida, habitam o mesmo espaço - percorram o tempo e a memória nas invisíveis coordenadas do silêncio. Jamais se encontram e, no entanto, por uma qualquer circunstância obviamente esconsa, é como se estivessem unidos por um brevíssimo fio de luz.

Talvez por serem inúteis, as palavras são desnecessárias. Não é através delas que se preenchem os diálogos, ou que a esperança se descobre na ilusão dos caminhos. É, em todo o caso, uma espécie de transparência quase hostil que explode no contraponto dos calendários.

É como se, de alguma forma, o vazio pudesse afirmar-se como a superlativa consequência de uma qualquer ruptura com o quotidiano. Como se, na melancolia dos espelhos, se reflectissem os traços da perfeição. O súbito reconhecer de um olhar que se multiplica pela geometria de um sorriso.



30 de março de 2017

para além da própria alma




Como se sofressem da erosão do tempo, as palavras correm o risco de perder a elasticidade e o fascínio. Como um corpo em que já pesam os anos e a saudade.

Algumas conformam-se com um certo pretensiosismo que lhes diminui os méritos, mesmo os que apenas se intuem. Deixam-se manusear tão facilmente, que se vulgarizam como a poeira sobre os retratos e, não raro, tornam-se irreconhecíveis, sem a autenticidade que as tornava únicas. Inconfundíveis.

De equívoco em equívoco, a ternura acabou por se confundir com a permissividade. Adquiriu novos costumes, quase sempre adversos à transparência dos gestos.

Que dizer, porém, quando, no outro extremo da memória, tu permaneces, mãe, tão próxima como se nunca te tivesses verdadeiramente ausentado? Que dizer quando o silêncio se desenha, perfeito, na essência de um sorriso?!...



29 de março de 2017

a vagarosa simetria do silêncio




Pouco a pouco, sem mesmo me aperceber, a alegria foi-se tornando menos óbvia e, agora, como se fosse o cerne de um desafio, a solidão preenche as horas e os lugares que desaguavam no clandestino amanhecer de setembro.

Chegou a vez de partilhar a confluência das águas e o voo das aves a caminho do crepúsculo. São ainda muito jovens as raízes do sorriso que se espraia pelos flancos da memória. Muito em breve, hão-de notar-se os sulcos das palavras na indecifrável afirmação do olhar.

Este é o tempo de transpor a translúcida geografia dos sinais. Depois, quando os lábios se habituarem à vagarosa simetria do silêncio e ultrapassarem as dúvidas que permanecem, a saudade aproximar-se-á do próprio sopro do infinito.

Não sei para onde vou - não sei até onde me conduzem os meus passos. Talvez o futuro não seja mais do que a recordação daquela adolescência que se prolongava pela trajectória da ternura que escorria dos teus gestos. Na verdade, mãe, este é o tempo que se reflecte no anoitecer da tua ausência.



28 de março de 2017

da sabedoria




O silêncio costumava ser o reflexo da memória que se confrontava com o vazio.

Sempre se me afigurou preferível contemplar a fantasia a partir do inconcebível. Talvez tenha sido por isso que nunca partilhei a corrosiva canção dos búzios. As palavras, contudo, raramente se atreveram a questionar a desmaterialização do seu próprio significado.

...E afinal era tão simples!

Bastou libertá-las da timidez e deixar que se aproximassem dos sonhos, para que a solidão se tornasse tangível. Semelhante a uma certa forma de sabedoria que apenas é compatível com os que fazem de cada gesto um novo ponto de partida. Provavelmente porque jamais se deixaram aprisionar pela certeza das ilusões.

As palavras agora - estas palavras que te escrevo, mãe!... - são monólogos que projectam as saudades que tenho do teu sorriso. Da geometria do teu olhar que se espraia pela hesitação dos passos com que atravesso este interminável inverno.

...

Aqui, entre o sossego das paredes e a substância do abandono, vou percorrendo a equívoca lucidez das palavras que se perdem na ausência do futuro. Do meu futuro!...



27 de março de 2017

...e são tristes




Há palavras que trazem consigo a nostalgia de um futuro inacabado. Um futuro que nem o silêncio se atreve a desvendar. E são tristes essas palavras que se proferem no limiar da solidão, como se significassem a perda da memória ou a renúncia à alegria,

É então que se assemelham ao gelo que a brisa recolhe na própria bruma e com o qual atravessa as lágrimas que da esperança se afastaram. Palavras que se confundem no caos da melancolia.

Só a ternura não chega para lhes quebrar as arestas. É preciso que um sorriso subverta a engrenagem das sílabas que esboçam aquele desejo que já não é o aconchego da vida.

É com palavras assim que me demoro a escrever estes retratos que tentam ser o reflexo de uma espécie de precário desencanto. Quase sempre, contudo, me perco no vazio entre a chama da saudade e a inevitável turbulência da distância.

Entre a tua ausência, mãe, e a translúcida lentidão dos relógios.



26 de março de 2017

dos sonhos e da distância




O silêncio, de súbito, fez-se maior do que os sons e do que os cheiros de um outono que não cabia na arquitectura da memória. No insustentável peso da distância.

De tão absurdamente denso, dir-se-ia inadmissível reservar à solidão a partilha desse silêncio. Desamparadas, às palavras mais não restava do que seguir o pensamento, conscientes das suas nunca óbvias limitações.

Quando os olhos se procuraram, todas as coisas se envolveram numa harmonia prodigiosa. Porque naquele exacto momento, soubemos que a perfeição passara a reflectir-se no superlativo. Transparente, quase rarefeita, a tristeza tinha a força dos segredos que só os sonhos conhecem.

É escasso, todavia, o tempo que conjugo nas coordenadas do desassossego. As janelas continuam a manter-se na trajectória dos pássaros, mas a brisa já não é conivente com a carícia do crepúsculo.

Estes, mãe, são os dias em que procuro por mim nas pupilas da tua ausência.



25 de março de 2017

nas páginas de um livro




Os gestos não são os mesmos. Não podem ser os mesmos!... O tempo, esse, é ainda o de tentar reencontrar a alegria soterrada nos escombros da memória.

O silêncio, na maior parte das vezes, não significa o mesmo que desconfiança, antes se projecta para o futuro com a esperança de que o caminho não venha a mergulhar no vazio. Há agora um jeito diferente de sentir as palavras quando elas não se limitam ao inofensivo adicionar das sílabas. Agora, ainda que ocupadas em busca da transparência, já principiaram a árdua tarefa do recomeço.

...E depois, quando não é deliberadamente posta de parte, a tristeza pode ser o fulcro sobre o qual se há-de desenhar a madrugada.

Não é simples, contudo, retomar a trajectória que conduzia à perfeição do teu sorriso. É preciso, mãe, atravessar os baldios onde se instalou a solidão. Faço-o, enquanto me refugio nas páginas de um livro e - por que não dizê-lo?!... - na contemplação da saudade em que se aconchegam os meus sonhos. O meu próprio desassossego.



24 de março de 2017

deste modo




Os anos deixaram de ser o refúgio da memória, quando a impaciência das horas se projecta nas encostas do vazio.

São agora o eco quase irreal dos sonhos que o absurdo foi recolhendo, como se houvesse só um rasto de inquietação entre as dunas e as águas que trazem os náufragos e a esperança. Como se as notas de um oboé se extinguissem entre as franjas do silêncio.

Já não se confundem com a solidão, os anos que se reflectem nas margens do desassossego, onde os olhos se libertam das ilusões. Onde, por fim, se descobrem os brevíssimos fios da ternura, quando os lábios tropeçam na geografia das palavras.

Os anos prolongam-se pelo tiquetaque dos relógios. São a inútil multiplicação dos dedos sobre a indiferença dos calendários. Nada mais do que isso!... A desamparada sequência desta saudade que se revê no coração das searas.

Os anos, mãe, vão-se alargando pelo enviesado rigor da tua ausência. Pela oblíqua estrutura do meu desencanto.



23 de março de 2017

taking your life in your hands




Talvez as águas - talvez só elas - sejam capazes de trazer à memória a recordação da cidade branca, como lhe chamou Alain Tanner, mesmo que seja preferível lembrar os degraus e degraus e degraus que Eugénio de Andrade descia até ao Tejo.

Aqui, onde os fusos horários se vão aproximando do ocaso, não é possível evitar que a saudade se instale numa inexplicável mancha de luz à beira da melancolia. Então, debruçado sobre os primeiros sinais do crepúsculo, facilmente me apercebo da falta daquelas palavras que tinham o cheiro da ternura.

É verdade que os lugares podem ser a realidade que os olhos projectam no infinito, mas quando mal se recortam na trajectória do tempo, a própria madrugada parece incapaz de sobreviver à ausência das estrelas. Foi aqui, não obstante, que a solidão preferiu habitar. Foi aqui que se revelou este silêncio muito jovem, muito frágil, mas autêntico.

O desencanto, se calhar, vai-se colando às paredes que lembram as ilusões adolescentes, quando os sonhos se desenhavam na vagarosa geografia dos arrozais. A casa - a velha casa aconchegada junto ao muro - não é mais do que a imagem inexistente de um passado sem rosto. Tal como a vida!...

Agora, mãe, é nestes retratos que se prolonga o entardecer do teu sorriso.



22 de março de 2017

aprendizagem




A cidade, por estes dias, ocupa-se em trabalhos perpendiculares à trajectória da solidão. Raramente as sílabas se aproximam das palavras que as procuram e, quase sempre, são equívocos os sorrisos que se ocultam nos ângulos da amargura.

Como se fosse um pássaro de asas transparentes, o silêncio afeiçoou-se aos ramos mais próximos da melancolia e espraiou-se pelas artérias do desencanto. São raríssimas as vozes capazes de seduzir a alegria. São inúteis as tentativas para as libertar das mordaças que a si mesmas impõem.

É preciso contornar a confusão e o desânimo. Acreditar na lucidez dos sonhos que a inquietação não poluiu. Ousar prosseguir o caminho, apesar do clamor de quem se limita a construir o vazio.

...

O comboio já não é a projecção da saudade na cadência dos carris. As estações sucedem-se rente ao vento e às pálpebras da memória. Abandono-me, em todo o caso, à recordação dos gestos que se transformaram na telegráfica reinvenção do tempo. Na subtil insurreição dos relógios.

Os teus gestos, mãe. A mais que perfeita definição do sossego!...



21 de março de 2017

ritual




Não se abrem como outrora as janelas por onde os sonhos espreitavam o passado e que eram, tão-só, um recurso para ludibriar a penumbra em que se escondia a solidão.

Então, quando a saudade crescia nos contornos do silêncio, era nelas que se debruçavam as interrogações adolescentes, até a indiferença se apossar das vogais que ajudavam a conjugar a alegria.

E contudo, cada parágrafo do futuro ia sendo construído enquanto se alinhavavam as incertezas que a ilusão permitia. Não havia por que duvidar da vontade que se projectava nas madrugadas inquietas, nem da enviesada simplicidade com que se iam tecendo os dias.

Hoje, são os horizontes que cabem na vagarosa distorção dos sorrisos que no mundo se desenham.

Hoje, mãe, as minhas palavras reflectem-se no prolongamento da memória que me recorda a transparência do teu olhar. É verdade que o vazio se insinua através da trajectória do sossego, mas, ainda assim, posso refugiar-me naquele verde perpendicular à carícia dos búzios. À respiração do orvalho.



20 de março de 2017

arestas




Bem cedo - a manhã ainda embrulhada na penumbra do silêncio - com a brisa a tactear a substância das palavras, os gestos detinham-se na lentidão do sossego, ao mesmo tempo que a memória procurava as pontas do seu próprio novelo.

Ali, somente a ternura poderia conjugar-se com a impaciência dos ramos altos onde o sol principiava a espreguiçar-se. São inesquecíveis esses instantes em que a vida se assemelha ao perfil da eternidade.

Como que desafiados pelo canto da cotovia - era por certo uma cotovia!... - os olhos estreitavam-se a prolongar o crepúsculo parta além da tolerância das árvores. Depois, o desenho de um sorriso reflectia-se na geografia dos sonhos. Na transparência das fontes.

...

É assim, mãe, que me revejo naquele tempo que, todavia, parece ter-se confundido com o acentuar dos monossílabos. Um tempo tão curto como a trajectória desta saudade desamparada e perdida entre as sombras da solidão. Entre o envelhecer do vazio.



19 de março de 2017

na projecção da memória




Simples no traçado que lhe desenha as esquinas, a cidade alarga-se a partir do oceano até aos vestígios do tempo que me preenchia a imaginação, quando os sonhos se perspectivavam na confluência das palavras.

Faltam-lhe porém as referências capazes de enquadrar a alegria na vagarosa interrogação do olhar. Não existem os recantos a sugerir um passeio pela geografia do passado.

E contudo, quando a penumbra lhe dissimula as arestas - quando os semáforos diminuem nos espelhos, ao mesmo tempo que a música de Virginia Astley abraça a derradeira sucessão dos quilómetros que conduzem ao sossego da periferia - até o pensamento se habitua à lenta metamorfose do silêncio.

Por fim, com a estrada já convertida à ruralidade do crepúsculo, o sorriso não demorava a debruçar-se na janela. Transparente, como a saudade a multiplicar-se nos lábios.

...

Fecho-me agora na projecção da memória que se prolonga pelo vazio. Aqui, mãe, onde a solidão se confunde com o peso do abandono.



18 de março de 2017

entre os cardos e a saudade




Neste inverno distante dos mecanismos do silêncio, são muito escassas as recordações partilhadas à sombra da solidão.

A memória, por estranho que possa parecer, foi a primeira a deixar-se arrastar pelo inconfundível aroma de uma alegria em repouso sobre a ternura. As palavras, essas, demoraram-se mais um pouco no sublinhar do vazio.

Agora, neste mesmo lugar com vista para os sonhos, repartem-se os gestos na insubordinação do futuro. Tacteiam-se os vestígios muito antigos de um tempo em que os cardos não se assemelhavam às arestas da indiferença.

Os lábios aprenderam a soletrar a melodia dos búzios e a subversiva lentidão da tristeza. Aprenderam, sobretudo, a saborear as vagarosas sílabas da saudade.

Sento-me à beira da madrugada, entre as persianas e o desassossego. Lá fora, sobre a sonolência das árvores despidas, a brisa entretém-se em redor das estórias que nunca esqueci - as estórias que me contavas, mãe, quando o teu sorriso vinha aconchegar-se no anoitecer dos meus olhos.



17 de março de 2017

a ponte




Mais um dia que se esgota. Longo, que os dias já se demoram bem para lá do vazio.

Apetece subtrair uns minutos ao tempo que ainda resta e ficar aqui entre o relógio e o crepúsculo, procurando distinguir os rumores que trazem a noite e o silêncio. Talvez o cansaço não tarde, mas enquanto vai tropeçando nas arestas da incerteza, sabe bem permanecer na companhia da brisa e com o cheiro das maçãs.

Os sentidos já se habituaram aos sinais que anunciam a floração das palavras sobre a própria solidão. Nada se compara à subtil espessura da memória.

...

Os passos aproximaram-se. Inconfundíveis. A mão estendeu-se no tecer de uma carícia. Um sorriso transparente atravessou a penumbra. O beijo, esse, alargou-se pela lentidão do sossego.

Foi apenas um sonho, mãe!... A única ponte para o amanhecer da tua voz.



16 de março de 2017

na ausência do teu olhar




E de súbito as palavras retomam a construção do sorriso mutilado pelo fio da melancolia.

São quase felizes e surpreendentemente seguras, essas palavras cujo perfil se assemelha às manhãs que costumavam acender-se antes do exílio das antigas primaveras.

Só há pouco atravessaram a adolescência e, no entanto, dir-se-ia que sempre se mantiveram muito perto do silêncio. Embriagados pela ternura que lhes tece os horizontes, os olhos transpõem as portas dos sonhos que o coração não esqueceu.

A alegria, então, ergue-se sobre as promessas de um futuro sem esperança.

Não é fácil, em todo o caso, recuperar a essência desse sorriso que se perdeu na ausência do teu olhar. Aqui, mãe, entre o reflexo da saudade e a inevitabilidade do vazio, os meus dias multiplicam-se pelo desassossego e pela penumbra de uma velha solidão.

Aqui, onde o passado já não me reconhece!...



15 de março de 2017

sobre o ofício do tempo




Quase todos, no cruzar de cada atalho, se lamentam pela vertigem dos dias que vão passando. Pelo tempo que é tão escasso que só restam as memórias. Quando restam!...

Não sei se passa depressa o tempo que é meu também. Vou tentando preenchê-lo com os sonhos e com os gestos tantas vezes inventados. Foi isso que sempre fiz, mesmo quando os gestos tinham a dimensão do vazio e os sonhos se perdiam entre o nada e a geometria das janelas.

Hoje, contudo, as horas são desenhadas sem contar com a viagem pelos ponteiros dos relógios. Conservo de cada fracção um pedaço de silêncio e um outro de alegria, porque sei que tu existes ainda que noutro espaço. É por isso que quando o dia se esconde para lá das ilusões, reencontro no teu sorriso a ternura que percorre os minutos que sustentam o peso da solidão.

O tempo - este tempo - deixou de atravessar o branco das paredes. Já não sei como evitar a turbulência das palavras que se esmagam na projecção de uma indiferença contagiante. Resta-me a consciência dos monólogos com que esboço estes retratos.

Talvez não tenha necessidade de muito mais do que isso, mãe. Talvez a tristeza seja, afinal, um poente por onde caminho em direcção à inútil trajectória dos espelhos.



14 de março de 2017

à beira do absurdo




A chuva!... Fechados, quase irreconhecíveis, os rostos parecem incapazes de escapar ao mimetismo meteorológico que os tinge de cinzento.

As horas arrastam-se, perdidas em monossílabos sem estrutura. No topo da indiferença, as palavras ignoram as desajeitadas tentativas para uma espécie de monólogo quase inócuo.

É nestes dias que me deixo absorver pela nostalgia da distância. Pela certeza de que, mais tarde, quando chegar o crepúsculo, me vai faltar a tranquilidade do silêncio no prolongar do sossego.

É verdade que a música conduz o pensamento até onde se atrever a vontade. Até onde permitir a solidão. Mas não é a mesma coisa. Falta sentir o rumor da alegria.

Em toda a parte - na horizontal geometria da saudade ou na rugosidade dos sonhos - é o desencanto que me acompanha, ao mesmo tempo que me forço a subir os degraus que levam a memória aos telhados do vazio.

Debruço-me sobre os calendários que ocultam as linhas de um passado que permanece na rotação dos ponteiros. O inverno alarga-se pelo cheiro das ilusões. Pela lucidez do teu sorriso, mãe!... Um sorriso que continua a projectar-se na superfície do luar.



13 de março de 2017

coisas de domingo




São quase sempre torrenciais as cores de que se reveste a memória quando se recordam os cheiros e as palavras. Também os lugares!... Há nelas uma espécie de oblíquo desencanto, temporariamente suspenso dos sinais que a saudade cavalga em busca das ilusões que, às vezes, se inventavam. Que ainda são o fulcro da incerteza. Da confusão.

Depois, quando o crepúsculo se desenha na geografia dos sonhos, é o próprio silêncio que se despe de receios e abandona a modorra dos degraus que o conduzem à periferia do desânimo. É então que vou pelos caminhos da insubordinação, atá ao sorriso que se abre nos flancos do futuro.

É então que me refugio naquele lugar onde o coração se reconcilia com a ternura.

Os dias - os meus dias!... - na fronteira entre o desassossego e a solidão, há muito que se multiplicam pela lentidão do vazio, enquanto o olhar se prolonga pela proximidade das janelas.

Sento-me na projecção desta paciência que tinge as paredes do meu quarto, como se fosse possível reencontrar-me com a longínqua lucidez dos búzios. Com a melancolia dos espelhos. Na verdade, mãe, é o teu rosto que se reflecte no anunciar de cada manhã. No definitivo envelhecer das lendas.



12 de março de 2017

vértice




Os anos foram passando pelos sonhos que em segredo construí. Foram passando pela inaudível explosão da distância.

A saudade não faz parte das memórias que guardei naquela casa escondida entre a eira e a neblina. Era ainda muito novo e o tempo dificilmente podia ser arrumado na geometria das molduras. Mais tarde, quando agosto percorria o dobrar dos calendários, descobri que ela existia no folhear das estórias inventadas à beira do vazio.

Os passos, então, voltavam a confundir-se com o cheiro da manhã e com a textura do orvalho. Não se esqueciam dos caminhos que eram apenas atalhos para a solidão das fontes, nem dos outros - os que conduziam à sonolência dos pinhais.

...

A saudade, essa, refugiou-se num lugar para além da poeira. Para além do silêncio!... No sorriso de um retrato quase sépia. Quase triste. O retrato em que tu, mãe, te assemelhas à adolescente perfeição do crepúsculo. À transbordante essência da ternura.



11 de março de 2017

propósito inadiável




A manhã chegou bem cedo - à mesma hora de sempre!... Nem a chuva nem o frio a retiveram no aconchego dos lençóis. Lá fora, na rua ainda deserta, os pombos não se arriscavam a abandonar o refúgio dos beirais improvisados. Não tinha chegado o tempo de escutar os passos com que os dias se repetem.

Depois, à medida que os relógios cuidavam do seu ofício, o bulício e o silêncio iam esticando o diâmetro da sua própria distância. Resguardados nos abafos, os rostos pareciam estranhos aos olhos que mal poisavam nas esquinas e nas sombras. Quase não se reconheciam na matéria que é comum aos corpos e aos espaços.

É assim que a rotina vai preenchendo o lugar dos sonhos. Que cada qual se habitua a viver dentro de si e a fugir das aventuras que, em segredo, se projectam. A esquecer que a alegria é uma coisa palpável. A ignorar o desejo de construir um mundo novo.

Dificilmente me reconheço no retrato deste vazio que me rodeia. As palavras já não são o prolongar dos afectos através dos gestos e da memória. Agora, mãe, já não vejo o meu reflexo no espelho do teu sorriso, como um traço de união entre os búzios e o orvalho.

Limito-me a caminhar pelos intervalos destas paredes. A tua ausência, contudo, não passa de uma ilusão - a melancólica definição da minha saudade!...



10 de março de 2017

mudança




Melancólica, a música dedilhava-se nas cordas daquela velha guitarra, enquanto o silêncio se aconchegava a um canto da lareira. As sombras vieram de mansinho. Detiveram-se na penumbra do alpendre e, discretas, encheram a sala onde se reflectia a chama de uma candeia.

Os sorrisos encontraram-se na projecção do luar que se infiltrou pela janela sobranceira ao ritual do sossego. Contagiados pela harmonia dos sons e da memória, os sentidos ultrapassaram a breve linha do abandono, antes de mergulharem no perfil da alegria.

A melodia desenhou-se nos lábios e nas horas enfeitiçadas pela carícia das palavras. Na luz que se acendeu nos flancos da madrugada.

O tempo, então, pouco mais era do que o adolescente colorido de um futuro que se multiplicava pelo rosto da saudade. Pela lentidão das pegadas do vazio. Os gestos, em todo o caso, recortavam-se com minuciosa destreza no imprevisível tiquetaque dos calendários.

...


Restam-me os retratos, mãe!... O quase irrepreensível branco destas paredes que se tornaram íntimas da minha solidão. Restam-me os sinais do desencanto, mas continuo a prolongar os meus sonhos pela transparência do teu olhar.



9 de março de 2017

na outra margem




As palavras não podem remediar a passagem do tempo. Não têm como reconstruir a realidade dos dias que se foram. Têm, contudo, o tamanho da memória.

Não é difícil assimilar a ideia da ausência da distância. Não é!... O difícil, quase sempre, é acondicionar a tristeza no vazio em que o peito se transformou. Isso, porém, já foi chão que as lágrimas regaram pouco antes de secarem.

Fosse a ubiquidade possível e jamais os condicionalismos haveriam de conjugar-se. Porque o não é, resta a tentativa de entender a angústia. De lhe adivinhar o percurso e de minimizar os estragos que vai causando.

...

Um dia, quando os olhos se cruzarem com a imperceptível proa do silêncio - quando os sonhos se materializarem na trajectória do crepúsculo - a solidão deixará de se projectar nos espelhos da saudade.

Um dia, mãe, o teu sorriso voltará a redimensionar-se na outra margem do sossego. Na terna definição do luar.



8 de março de 2017

broken bird




Que resta do tempo em que as ilusões se multiplicavam no olhar? Terão os dias feito parte de uma realidade consumida pelo fogo-fátuo da fantasia?

...

As memórias estiveram sempre tão perto que ninguém se apercebeu. Continuam a reflectir-se na corola dos meus pensamentos. Na derradeira imagem de um futuro que partiu sem despedidas, para que as lágrimas não se afogassem nos espelhos. Para que o vazio não se alargasse pela geografia dos pássaros.

Agora, naquela seara onde a brisa e as palavras se misturavam, os meus passos regressaram à lentidão dos relógios aprisionados pela espessura do silêncio.

Os anos não se perderam na dependência dos sentidos. Talvez seja um devaneio. A complacência da solidão. Talvez seja tudo isso!... Ou a esperança que flutua sobre a luz do desencanto. A distância, essa, aproxima-se dos degraus da indiferença. Do cerrar das persianas. Da chama de uma candeia.

Lá fora, entre a varanda e os sinais de um inverno que fareja os tentáculos da saudade, é o teu sorriso, mãe, que se demora na noite. Que se aconchega na transparência dos meus sonhos.



7 de março de 2017

uma velha panela de ferro




Tenho escrito pouco sobre a avó Delfina!... Palavras quase avulsas que recolho naquele canto da memória, onde o silêncio e a distância se multiplicam pelos meus olhos hesitantes entre uma alegria adolescente e a insegurança de um futuro à beira da solidão.

Ano após ano, sempre que agosto se reencontrava com as folhas dos calendários, era o regresso àquela casa minúscula de que nem o próprio tempo parece recordar-se. Talvez tenha sido melhor assim - a casa não teria como sobreviver à ausência da avó Delfina.

Havia o cheiro da terra. O cheiro da broa de milho. O inigualável cheiro dos frutos que tornavam perfeitos os dias longe do melancólico tiquetaque da cidade. Havia o cabelo muito branco da avó Delfina. As rugas que lhe marcavam o rosto e, se calhar, as ilusões de um passado sem esperança.

Depois, a um canto da lareira, a mesma panela de ferro em que se cozinhavam os sonhos que se esboroaram na cadência dos passos. No vazio que foi sendo semeado no envelhecer da saudade. Na frágil arquitectura do vira-vento que a avó Delfina me ofereceu.



6 de março de 2017

mystic river




O risco, naquele dia, passava pela indispensável partilha dos sonhos, como se fosse urgente a demonstração dos afectos. Sabia, em todo o caso, que poderia tornar-me refém dos sentimentos ou, melhor, de uma sensibilidade que favorecia o idealizar das coisas. Das pessoas.

...

Habitualmente, os que vivem lado a lado com a solidão, apressam-se quando se confrontam com a hipótese de escapar ao vazio que os cercou.

Não adianta evitar as palavras - é sem medo que devem usar-se!... É ao fazê-lo que se conhecem os próprios limites, ainda que sejam escassas as ferramentas para cavar o futuro. Para que não tremam os alicerces.

Há momentos que perduram sobre a alegria. Que ficam gravados no cerne da memória. Momentos que não se esquecem mesmo que os caminhos não sejam paralelos. Às vezes há que partir, mas ainda que a viagem dure o tempo de uma vida, há coisas que não se apagam. Há sempre os que permanecem.

O risco - se é que posso chamar-lhe assim!... - não se confunde com o abandono. O risco, para além da distância e do desencanto, é o de prolongar a saudade pelo vaivém dos calendários. Multiplicar o silêncio pelas coordenadas de um sorriso.



5 de março de 2017

pela poeira do acaso




É uma chuva quase tímida e, no entanto, agreste. Persistente!... Cinzenta, a manhã enrosca-se nas franjas do silêncio, como se cada minuto se perdesse na poeira do acaso.

Os passos embrulham-se na neblina que lhes cala os sons. O próprio eco preferiu o sossego da memória, em lugar de preencher as palavras com coisas mais consistentes do que as sílabas. Ou do que as letras.

O sol, esse, talvez se tenha entretido em rotas de vadiagem com Plutão. Obviamente solidário contra quem o expulsou da irmandade dos planetas.

O futuro deixou de ser um ponto intermédio entre os sonhos e a eternidade. Caminho agora pelas adolescentes recordações de setembro. Pela periferia desta saudade que se aproxima da transpiração do vazio.



4 de março de 2017

um aconchego convexo




Espontâneas, as palavras soltaram-se como se fossem o prolongamento da alma. Como se o silêncio se reencontrasse no segredo dos carreiros. Na respiração dos sentidos.

Uma carícia partilhada no aconchego de uma realidade convexa.

Voltam a ser possíveis as estórias que os olhos descobriram nas páginas do entardecer. Então, quando a inocência era ainda um gatinhar, o sossego assemelhava-se a um gesto de magia, ou ao sopro da vontade no barro da ilusão. Só mais tarde me apercebi de que é preciso lutar por ele - é preciso que a saudade se reflicta nos parâmetros da memória. Nos labirintos da vida.

Agora, consciente da trajectória que anima os alcatruzes dos dias, a tristeza deixou de ser abstracta. A ternura, por outro lado, vai-se decantando através da solidão.

...E no entanto, as palavras multiplicam-se pela cadência dos relógios. Pela confluência dos sonhos onde o teu sorriso, mãe, se alarga sobre o desencanto. Onde o teu olhar se confunde com o rumor da alegria.



3 de março de 2017

percepções




Como se o tempo se tivesse detido numa esquina do sossego, couberam naquele segundo todos os outros milhões até então decorridos. Os ponteiros prosseguiram; não cessaram de bater os corações que passavam; o silêncio apoderou-se das paredes e do olhar!...

Foi um instante sem nome - o voo de uma gaivota à beira da madrugada; um gesto que se adivinha no caudal das ilusões; o cheiro da maresia na vertigem da memória. Foi o espanto de quem vê a forma dos próprios sonhos.

O sorriso desenhou-se como se fosse o reflexo de todas aquelas coisas que se julgavam possíveis, mas que jamais se encontraram. Até que se descobriram nas palavras que se ouviram sem que os lábios as dissessem. Não foi preciso traduzir a saudade que se assemelha à essência do infinito.

Um segundo, talvez menos, a conjugar a ternura com o cheiro da solidão. Um segundo entre o rumor do crepúsculo e o chapinhar do vazio.



2 de março de 2017

...e de súbito um sorriso




Podem ser tudo isso as palavras!... Ser a essência da vida; bater como bate o coração; ter até a cor das folhas que o outono faz cair no  vazio das areias.

Ser apenas uma flor que ninguém vê e que cresce no canteiro mais distante da memória. Ser o rumor do silêncio numa noite à beira-mar. Um silêncio que se alarga sob os passos. Sobre a voz da solidão.

Talvez um simples sorriso - aquele que se perdeu na fronteira que separa a mágoa das ilusões.

Lá fora, entre as janelas e a lucidez do crepúsculo, não obstante a palidez das aves e a vagarosa timidez dos charcos, há agora a lentidão de um tempo que partilho com as árvores. Com a brisa. Com a saudade!...



1 de março de 2017

diferenças




Os anos foram passando por quem por eles passou. Às vezes parecem perdidos os anos que se rasgaram nas folhas dos calendários. Os anos que se viveram.

Saber que os sonhos se sonham sem que os olhos se demorem sobre a fronteira do sono, quer dizer que a vida não se resume ao que dizem os livros que se folheiam. Aos filmes que se prolongam para além do seu final. Só mais tarde se percebe o tamanho da ilusão - as memórias não se enquadram nas páginas da realidade.

As perspectivas mudaram. Hoje, são as dúvidas que hesitam em ser mais do que esse sonho que em agosto se esgotava. Como se o mundo fosse apenas um jardim por inventar, as palavras falavam só do silêncio. Falavam sobre a certeza de ser diferente dos outros.

Será então que a saudade apenas se faz sentir quando a mágoa faz doer? Quando a tristeza se instala no lugar do pensamento?!...

Os anos deixaram de se esgotar nos ponteiros dos relógios. Na projecção das paredes e na transparência das janelas. Na periferia das aves que, lá fora, se diluem na indiferença dos dias. O tempo, na verdade, continua a ser uma ponte. Nada mais do que isso!...