28 de fevereiro de 2017

amar pelos dois






Chegam notícias do outro lado do vazio - esse lado onde o silêncio amadurece no voo de uma gaivota. Um lado onde as palavras se reflectem no rumor de uma carícia.

Dir-se-ia Cole Porter na subtil trajectória de um sorriso. Na lúcida geometria do outono a percorrer as pupilas da memória. Talvez o gargalhar de uma criança que se descobre no olhar de sua mãe.

Era, se calhar, o jeito trôpego de Charles Chaplin a embalar os sonhos que teimam em rilhar o dorso da tristeza. O perfil da solidão!... Era, por certo, o amanhecer da alegria na perspectiva de um futuro por inventar.



27 de fevereiro de 2017

sonata




Não sei quando foi que o tiquetaque da memória se tornou parte intrínseca do próprio quarto. Da objectiva substância do silêncio. Entranhou-se nele o cheiro de um tempo que não se media nas fracções da impaciência. Na vertigem dos momentos que passaram antes de serem vividos.

A solidão, essa, é agora o reflexo de cada nova manhã!...

Os rostos são apenas sombras. Já não se abrem sorrisos quando se estreitam as mãos e os olhos calam as coisas que só os olhos entendem. A alegria já não é o resultado das palavras inventadas e ali, a um canto, ignorado e inútil, o relógio não é mais do que o espelho da saudade.

Partilho com as paredes o frio e a indiferença. A rugosidade dos sinais que lembram a tua ausência. Aqui, mãe, para cá das persianas - para cá das janelas que se fecham sobre a extremidade do crepúsculo - resta a evidência dos sonhos para que a noite se não perca nos labirintos da loucura.



26 de fevereiro de 2017

os traços do tempo




A saudade tornou-se num desafio diferente. Pleno. Mais perto da respiração do silêncio e da presença do orvalho. Um desafio que a distância não afecta.

A imaginação deixou de percorrer os quilómetros como se fossem uma viagem improvável. Daquelas que parecem inconsequentes à medida que os passos se aventuram pelo desconhecido. Inúteis perspectivas que reduzem os horizontes à escala do desassossego.

Apercebo-me da subtil mudança da voz ainda com a solidão a articular as palavras, e da tristeza que galopa pelos sonhos adolescentes. Adivinho o sussurro de um sorriso e, esse, tem o perfume dos dias longínquos e das confidências que apenas os gestos entendiam.

Debruço-me sobre a perversão dos relógios que se prolongam pelos flancos de um inverno já cansado. Lá fora, os pássaros confundem-se com a indiferença das folhas. Com o que resta da poeira do crepúsculo. Com o rumor dos candeeiros.

Dentro de casa, agora que o frio se instalou nos afluentes do vazio, enrolo-me na geometria dos sinais que se projectam na harmonia do anoitecer.



25 de fevereiro de 2017

mas não é a mesma coisa...




As nuvens acumulavam-se, tecendo sobre o silêncio espirais de melancolia. Os dias aproximavam-se da rotina em que não cabem os restos de um setembro que se extinguia antes de se fecharem as portas.

Um livro de Nietzsche na inquieta substância do crepúsculo, tanto bastava para que os passos seguissem as pegadas que definiam o carreiro. Lá ao fundo, nunca o pinhal deixou de ser parte dessa memória. Desse tempo em que os sonhos estavam demasiado próximos.

Dir-se-ia que os séculos tinham retrocedido até ao início das lendas. Nietzsche - não podia ser de outra maneira - subvertia o bucolismo. A tranquilidade. Apenas ele era estranho ao fascínio daquele mundo e, contudo, as suas palavras conjugavam-se com a bruma, como se alguma coisa se insinuasse entre a neblina. Entre as ilusões.

A tristeza não tardou a abraçar a solidão no prenúncio da despedida. As distâncias não assustam, mas ainda que os quilómetros se reduzam a minutos, a ausência e o vazio não deixam de ser semelhantes. Intransponíveis.

...

Muito haveria a dizer, agora que me refugio nestas paredes e me vejo reflectido nos veios da saudade. Escrevo-te, mãe, na difícil projecção do meu olhar e tento falar-te de um tempo que não se esgotou. Tento falar-te da sabedoria das fontes; da brevíssima transparência do luar que se aconchegava no teu rosto; da confusão dos relógios na perspectiva de um futuro quase opaco...!

Escrevo-te e reconheço-te no prolongar dos meus gestos. Escrevo-te, mas não é a mesma coisa!...



24 de fevereiro de 2017

raízes




É quase sempre irrecusável o desafio de recriar a memória de uma adolescência que o tempo não apagou.

Esquecida a um canto da adega, a bicicleta recordou-me as viagens pela eternidade dos caminhos, quando o orvalho percorria o silêncio das manhãs. Lá estavam as interrogações que se multiplicavam nos olhos deslumbrados pelo riso das crianças.

A inactividade não lhe condicionara o jeito. É verdade que se fechara em si mesma, mas longe de recear a distância que a separava dos sonhos. Da aventura.

Foi um reencontro discreto. Tranquilo, como se os anos coubessem no espaço de alguns minutos. Ali, de súbito, voltei a enfrentar a realidade de um presente sem indícios e sem certezas. Apenas a confirmação de que os gestos se retomam no instante em que o passado se reflecte na projecção da alegria.

Os sinais sucederam-se intensos e vertiginosos, a lembrar a perfeição que, em agosto, se misturava com o cheiro dos eucaliptos. Um despertar estremunhado. Ingénuo. Talvez mesmo clandestino. As primeiras pedaladas pelos carreiros que o alcatrão sepultou. Um passeio pelo fascínio dos segredos tresmalhados.

O que permanece - muito mais do que a tristeza - é a fluência de uma saudade que faz doer a alma. Que faz doer a vagarosa indefinição das horas. O que permanece é o absurdo desencanto das palavras longínquas. Solitárias!...



23 de fevereiro de 2017

memórias




São muito frágeis as recordações desse tempo em que a vida era só um gatinhar. Esse tempo em que as pernas principiaram a sustentar os passos e a vontade. Restam pedaços soltos. Sem sequência. Sem raízes.

As férias preenchiam os dias entre as vinhas e os pinhais - entre o verde dos arrozais e as searas debruadas pelo vermelho das papoilas. Só mais tarde os rostos e as vozes se tornaram íntimos. Só mais tarde se completaram, quando a adolescência inventou os horizontes.

Era ali, no dobrar daquela esquina logo depois do vazio. Ano após ano, quando o comboio reencontrava a harmonia dos sinais, a alegria entretinha-se a contemplar o silêncio no aconchego de um sorriso que sobreviveu à marcha dos relógios.

É tão difícil voltar a percorrer os caminhos que se esgotaram na ausência das canções...! Voltar a sentar-me a um canto do celeiro na projecção do alpendre. Na enviesada geografia de uma saudade inesgotável. É tão difícil alimentar estes monólogos à beira do desencanto. 

As palavras - as minhas palavras - tornaram-se invisíveis. Inaudíveis.



22 de fevereiro de 2017

da confluência dos sonhos




Os anos atravessaram o fluir da solidão. A cada passo e a cada gesto mais se estreitava a distância. Menos se foi conservando na memória dos caminhos.

Pouco a pouco, porém, os olhos foram preenchendo os espaços recortado na névoa dos horizontes. Como um puzzle cujas peças se conjugam. Tão simples que se tornava complexo.

E todavia, quando as almas se completam; quando o silêncio se escuta na textura das palavras - ainda que sejam escassas ou que sejam inseguras - parece que o sossego já não receia o crepúsculo. Como se a noite rasgasse as fronteiras do próprio sono.

Dir-se-ia que a saudade se projecta no envelhecer dos espelhos. Muito lenta. Quase clandestina. Dir-se-ia que o futuro já não cabe nestes retratos que escrevo. Só o presente se mantém nas paredes do meu quarto.



21 de fevereiro de 2017

no dobrar dos calendários




Abria-se a porta entre o alpendre e a neblina. Ao longe, os pinheiros convidavam a percorrer os campos que aguardavam a festa das vindimas. O voo dos pardais e o canto das cigarras, marcavam o ritmo dos passos que os carreiros conduziam ao cheiro da saudade.

Um lugar onde as lendas se debruçavam sobre o infinito!...

O outono não tardaria - acolhedor, como o prefácio de uma estória de encantar. Na fronteira onde o corpo se transformava em pensamento, os sorrisos voltavam a ser jovens, prolongando a alegria até à secreta geometria dos sonhos ou, melhor, até às palavras que a memória não esquecera.

Um gesto - a ternura a desenhar-se nas sílabas de uma carícia. O sussurro das searas na insurreição do tempo. A singular textura do orvalho. Furtivo. Transbordante.

Foi ali que aprendi a crescer lado a lado com a brisa. Foi ali, mãe, entre a eira e o crepúsculo, no tempo das desfolhadas, que me ensinaste a viver. Não disseste muitas coisas. Não teriam sido necessárias!... Pacientes e muito simples, os búzios são tão perfeitos como o silêncio. Como o brilho do teu olhar.



20 de fevereiro de 2017

as palavras




Eram escassas as palavras que se multiplicavam pela alegria. Como poderia a ternura irromper das esquinas do desencanto? Da ausência de versos nas águas transparentes?!...

A distância, por outro lado, entretinha-se a aprisionar a alma no seu próprio labirinto. Ano após ano, regressava o ciclo da impaciência. O ressurgir da memória na fronteira do deslumbramento. O lento calcorrear dos caminhos e do silêncio.

Os sonhos insistiam em fechar-se nas páginas que o vazio lhes permitia. Na embriaguez do outono que vinha logo a seguir. Raramente os sorrisos se atreviam a espreitar pelas frestas dos dias sem sentido. Os corpos, esses, limitavam-se a preencher os vestígios daqueles instantes que se enroscavam no coração.

A melancolia; o desejo; a quase nostalgia das horas extraviadas e jamais recuperadas...! A consciência de que a juventude se autodestruía na voragem dos meses sepultados nos calendários inúteis. Tudo se perdia, nada se transformava!... Até se retomar a reconstrução dos afectos. Temporária. Inevitavelmente curta - o parêntese que se fechava sobre as lágrimas nunca derramadas.

Nesse tempo talvez não fosse feliz, mas, em todo o caso, a infelicidade nunca se reflectiu na superfície do orvalho. Na geométrica melodia dos búzios.



19 de fevereiro de 2017

que futuro?




O tempo foi-se habituando a riscar os próprios dias na inevitável sucessão dos calendários. Órfãs do silêncio e da memória, as palavras refugiam-se na inquietação dos lábios. Nos improváveis atalhos da imaginação.

O vazio instala-se na incaracterística respiração dos espelhos. Por vezes, a alegria torna-se confidente da hesitação dos passos, enquanto os olhos se demoram no minucioso marulhar dos gestos pressentidos. Na breve transparência de outros olhos ou, melhor, na crepuscular perturbação dos sentidos.

Não há como ignorar os sinais da melancolia. O contínuo tiquetaque da distância que fazia agosto tropeçar na poeira onde as sombras se escondiam. Alheios ao desenho da cidade, os sonhos escorregam pelos dedos de uma saudade que envelhece devagar.

Hoje percorro a inevitabilidade da minha própria solidão, prolongando esta cumplicidade com os lugares onde os pássaros adormecem na confluência de um sorriso que se reflecte nas esquinas da eternidade.



18 de fevereiro de 2017

o dedilhar do silêncio




Rigorosos, os dias esgotavam-se num inexplicável instante. Depressa os carris se preparavam para o percurso descendente. Não havia como escapar à tristeza dos sinais que se precipitavam para o ocaso. Os sorrisos confundiam-se com a melancolia que, em vão, me esforçava por aprisionar a um canto do alpendre.

Os passos apercebiam-se da mudança. Escasseava neles a espontaneidade e, por vezes, as saudades antecipavam-se ao próprio canto dos galos. Ao cheiro da terra e ao silêncio dos abraços sem tamanho. A distância magoava muito antes de se instalar.

Dir-se-ia que o vazio se desembaraçava da esperança que agosto introduzia na engrenagem da solidão,

Foi o tempo de crescer. O tempo que preencheu as secretas gavetas da memória e se foi desenhando nas páginas amarelecidas pelo dobrar dos calendários. Um tempo sem hiatos, a prolongar a adolescência que se teceu com os fios da alegria.

Lembro-me dos sons do anoitecer, mas, hoje, entre o rumor do inverno e as paredes deste quarto à beira do desencanto, só tenho as recordações que se multiplicam pela lentidão do meu caminhar.



17 de fevereiro de 2017

código morse




Pode ter sido o sorriso, mas vá lá saber-se ao certo por que foi que aconteceu!... Talvez a conjugação fortuita dos instantes que, ano após ano, se foram semeando nos canteiros da memória, até o silêncio se ter reflectido nos sonhos ainda jovens.

Um gesto? Por que não?!... Dir-se-á que um gesto - um gesto apenas - não chega a ser caudal em que possam mergulhar as emoções. É forçoso, contudo, que a saudade não se resuma a uma daquelas abstracções sem forma e sem substância. A irracional consequência do vazio.

Fosse como fosse, as raízes não se limitaram a esgaravatar nos sulcos da indiferença. Foram-se multiplicando pela lentidão dos calendários, até as palavras se identificarem com a trajectória do imprevisto.

Talvez, com efeito, tenha sido o teu sorriso, mãe. Foi, todavia, muito mais do que isso!...

Foi o sossego do teu olhar. A raríssima confluência da ternura e da alegria que, lentamente, invadiram os meus caminhos para, agora, se projectarem nas desoladas franjas da tristeza.



16 de fevereiro de 2017

sobre os pássaros




Talvez as coisas não fossem tão lineares. Não naquele tempo!... Só mais tarde, à medida que as folhas e os calendários se sucederam, se tornou evidente a dimensão do que apenas a memória conservou.

Desenhavam-se os gestos e a alegria, titubeando sobre o silêncio dos espaços que ainda não eram a geometria da solidão. Não passavam de um hiato na rotina quase desconhecida - a subtil metamorfose de uma adolescência sem cores.

Não eram mais do que monólogos as palavras proferidas na embriaguez das sílabas sem estrutura. Na vertigem dos caminhos de ninguém. Eram escassas as que se reconheciam na fronteira de outros lábios. Os dias, esses, esgotavam-se na sequência dos minutos, porque as vozes não sabiam da inesgotável penumbra dos pinhais.

Hoje os sonhos passaram a ser o reflexo desta saudade que se aconchegou nos meus sentidos. Apesar da ausência dos pássaros!...



15 de fevereiro de 2017

um passo apenas




Dir-se-ia que as aves se esconderam entre as nuvens e o sossego. Para além das arribas, apenas o marulhar das águas e o adolescente cheiro da maresia.

...

No alpendre escassamente iluminado pelo tactear do crepúsculo, o sorriso não é mais do que a memória a recordar o silêncio. Um gesto a reflectir a ternura que se alarga pela noite até à carícia das palavras que se dizem e que cavalgam os dias na viagem que as conduz à periferia do passado.

Os lábios - porque é esse o seu ofício - precipitam-se na partilha dos segredos. Na transcendência de si próprios.

Sozinho, tento reencontrar-me com o sabor do teu olhar e com o que ainda resta de uma certa juventude entre o cheiro dos pinhais e a descoberta da alegria. Aqui, mãe, quando a noite se balança na solidão das candeias, adormeço ao lado da melancolia. Na projecção da tua ausência.



14 de fevereiro de 2017

sempre!...




Um homem, quando passa pela vida não apenas por passar - quando passa pela vida e insiste em querer viver - dá consigo, muitas vezes, sem entender as barreiras que lhe tolhem o caminho. Dá consigo, quase sempre, à margem da própria vida.

E procura-se a si mesmo nas ruelas mais esconsas ou nos cumes sem medida. Um homem não desiste de ser quem é apenas por ser diferente do que dizem ser um homem. Nem mesmo por estar sozinho. Nem que as palavras que escuta sejam apenas aquelas que lhe diz a solidão. Ainda que a solidão tome conta das palavras em que se esconde a memória.

Se um sorriso se desenha mesmo ao lado dos seus passos, o tempo deixa de ser o vazio em que os sonhos se perdiam. É então um desafio ter sempre o tempo consigo. Estar tão perto do silêncio só pelo prazer de estar. Dizer o que há a dizer nos gestos que se entrelaçam, porque os gestos dizem tudo. Até falam da secreta lentidão dos búzios.

...

Aqui e agora, só nas palavras me reconheço. Apesar das paredes nuas - apesar do marulhar da saudade - são as palavras que reflectem o meu jeito de entardecer. O meu modo de regressar à ausência de um futuro sem janelas.

Aqui onde o olhar se debruça sobre o cheiro do outono. Sempre!...



13 de fevereiro de 2017

o secreto sabor das horas




Durou tão-só um instante o tempo que já passou.

Ao recordar o caminho percorrido, não há forma de saber se poderia ter sido de outra maneira. Se teria sido melhor. Não foi fácil, contudo, viver a solidão dos atalhos, nem ignorar as cidades repletas de gente sem sonhos.

Mais tarde, na esquina mais imprevista de um futuro por escrever, a alegria desenhou-se nos olhos deslumbrados pela ternura de um sorriso - o teu sorriso, mãe!... Os lábios, esses, mantiveram-se em sossego na projecção dos sentidos.

...

O silêncio, por estes dias, vai crescendo nas palavras com que falo da saudade e, também, do desencanto. Às vezes, quando a noite escorre pelo vazio das paredes, a tristeza instala-se na vagarosa extremidade das horas. Na lentidão dos meus gestos.

O tempo, então, demora-se na própria trajectória do luar. Como a inevitável vocação dos búzios.



12 de fevereiro de 2017

do lado de cá dos sonhos




Ninguém repara em ninguém. Cada um é como um mundo em elipse antagónica à dos mundos que se movem no mesmo espaço. Um mundo?!... Cada um não passa de uma caixinha ao lado de outras caixinhas que raramente se abrem.

Ninguém conhece ninguém. Todos passam como se não existissem rostos nos corpos que se cruzam no caminho de outros corpos. Os sorrisos, esses, dir-se-ia que secaram. Dir-se-iam extenuados - adormecidos nas varandas solitárias.

...

Comigo tenho o silêncio!... Tenho as palavras capazes de desenhar os retratos que os meus sonhos vão tecendo quando o sono tarda a chegar. É por certo muito pouco, mas aqui, mãe, entre o branco das paredes e os escombros da memória, tenho também a placidez dos teus gestos. Tenho a luz do teu olhar.



11 de fevereiro de 2017

a explicação da ternura




Há palavras que atravessam o espaço onde o tempo não existe, para se demorarem no aconchego dos sonhos imprevistos. Para se assemelharem à carícia que ultrapassa os gestos recortados nos sulcos da solidão.

Palavras que se projectam na própria memória. Palavras que não se diluem na penumbra da distância.

Foi porém o som dos passos que devolveu à manhã a transparência dos horizontes. O som que marcava a cadência da alegria e ignorava as pegadas da indiferença. Talvez fosse apenas a chuva a cair sobre a saudade ou, então, o reflexo da ternura no segredo do teu olhar.

O que quer que tenha sido, alargou-se pela metamorfose de uma realidade quase subversiva. Uma realidade que não tenho com quem partilhar. O que quer que tenha sido, mãe, trouxe o cheiro do outono e as cores do silêncio que escorrega pela luz da madrugada.



10 de fevereiro de 2017

a decantação do tempo




Manhã cedo, na momentânea tranquilidade do terminal de autocarros, só aparentemente me sentava naquele banco. A realidade - aos olhos de quem a observa - pode não corresponder ao que se passa quando se dobram as esquinas da incerteza.

Com gestos lentos e precisos, os dedos folheavam as páginas do livro com o qual me confundia. Um quase imperceptível sorriso devia esboçar-se-me nos lábios e, naturalmente, alargar-se pelo caudal do pensamento, como quem se demora à beira-mar e se aventura para além dos horizontes. Os que passavam, se acaso se apercebiam da minha presença, não saberiam como transpor a invisível barreira que me separava de uma ilusão.

Era ali que estava no instante em que os relógios procuravam compreender a marcha dos ponteiros, mas, ao mesmo tempo, deambulava pelos caminhos mais antigos onde os sonhos se reflectem nas pétalas da alegria. Tão longe de tudo!...

Os autocarros não passavam de acessórios. Tal como as pessoas. Imagens devolvidas pelas paredes do vazio. Pela instável convergência que se encerra nas teias do imprevisto.

De que forma, mãe, hei-de dizer aos outros que a tua ausência não é mais do que o aparente desencanto dos alcatruzes que se movimentam em elipses através da claridade? De que forma lhes poderei explicar que já não habito este corpo que, não obstante, é tudo o que resta de mim?!...



9 de fevereiro de 2017

retrato póstumo




Do vazio das tardes inquietas, à angústia do silêncio sustentado pela lentidão dos passos que percorrem a memória de um futuro inacessível, os caminhos nunca foram a conjunção da alegria e da ternura. Houve sempre a ilusão dos sinais. Houve sempre o inevitável rumor da solidão.

À noite, apenas a melancolia toca as pálpebras já cerradas sobre os sonhos. Extenuados, os lábios recusam afastar-se do refúgio em que as palavras se confundem com as sílabas tresmalhadas.

Olho-me - continuo a fazê-lo através do teu sorriso, mãe - e, não obstante a distância, recordo-me dos dias que costumavam prolongar-se pelo infinito. Recordo-me da tua voz subitamente apaziguada, a preencher a secreta geografia do orvalho.

Reparo nos quase invisíveis contornos da saudade. Na paciente madrugada sobre o teu rosto. Na inevitável textura dos relógios.



8 de fevereiro de 2017

escrito no vento




Foi o silêncio que encheu a manhã. Um silêncio tangível, espesso e, ao mesmo tempo, dúctil como pétalas de orvalho que se aconchegam na corola de um sorriso ainda casto. Espreguiçou-se nos ramos das árvores que definem a fronteira do tempo, enquanto os pardais sobrevoavam a calma repentina que preencheu a terra inteira.

O vento - porque também ele se precipita sobre a memória - vai sacudindo a lentidão dos rostos que se refugiaram nas franjas da indiferença. No que resta daquela distância que aperta o coração.

Os dias demoram-se na incerteza de um calendário extraviado. As paredes, essas, conservam o tom macilento da cal e o da saudade que atravessa a trajectória do luar e vem pousar-me no olhar inseparável dos sonhos. Do súbito desenho do vazio.



7 de fevereiro de 2017

o que coube num segundo




Foram eles a razão por que a saudade se prolongou pelo amanhecer do futuro. Personagens virtuais que traziam o silêncio na poeira das palavras.

Cada gesto era apenas o reflexo de todos os outros gestos que a vida desperdiçava. Que apenas existiam no desassossego das noites ou nos sorrisos desenhados na penumbra dos rostos inexistentes. Vestígios que permanecem à beira da ingenuidade que os anos não corromperam.

...Pedaços quase invisíveis da mágoa que se multiplicou pelas pegadas da incerteza e pelo cheiro do vazio.

Bastou tão-só um segundo!... A transparência de um sonho que se projectou nas horas e nos sinais que os espelhos sublinharam. A vida, essa, transformou-se numa espécie de caminho que conduz à solidão.

Reencontro-me, enfim, na memória das coisas que fui guardando numa gaveta discreta entre a realidade e o desencanto.  Reencontro-me ainda a tempo de esquecer tudo aquilo que é humano.



6 de fevereiro de 2017

construção




Não é fácil o caminho de quem busca a perfeição no rendilhar do silêncio.

Antes, ao julgar que era possível percorrê-lo sozinho, até os sonhos se perdiam nas esquinas da memória. Os passos multiplicavam-se em escaladas sucessivas, tentando escapar à atracção dos labirintos. Sem êxito, tantos eram os atalhos.

...

Foram as lembranças que marcaram o rumo!...

Os gestos, esses, persistem - os gestos que conduzem a noite para além da alegria, quando a manhã se embriaga com o brilho da ternura. Quando a sombra da saudade é como a luz que atravessa as arestas de setembro.

Tenho, porém, as palavras e, com elas, vou tentando perceber a solidão. Vou tentando aventurar-me pelas estremas do vazio que preenche toda a casa. Que se enrosca na poeira dos espelhos. Um vazio que se abate sobre o cheiro das primeiras chuvas.



5 de fevereiro de 2017

bissectriz




É na margem mais antiga do silêncio que as palavras voltam a apoiar-se nos corrimãos da memória. Infatigáveis, como se pretendessem beber as sílabas da distância.

São muito ténues os indícios de uma alegria que não se demora no olhar. Que tenta romper a penumbra que se encosta às esquinas da incerteza e que procura aperceber-se do rumo do pensamento. Mas a ausência de um sorriso também se esboça nas minhas mãos em cujos dedos se aconchega o coração dos dias. Em cujas linhas se esgotaram as promessas.

Este é o tempo em que a realidade se confronta com a cadência dos meus sonhos. Com a previsível tranquilidade dos gestos e da ternura que me espreita do outro lado dos espelhos. Do outro lado da vida.

O tempo de enfrentar as máscaras de uma indiferença subtil e certeira. O tempo de inventar novos caminhos. Solitários, em todo o caso.



4 de fevereiro de 2017

no despertar de um sorriso




À noite, noite após noite, diz-se o silêncio com as palavras mais simples. Inventa-se a alegria nos recantos da memória - a memória que se alarga pelos flancos da madrugada onde o tempo se revê. Como se houvesse um poema na lentidão das estrelas.

Não há lugar para o sono!... Talvez um simples rumor de pétalas que se desfolham. Talvez um som de guitarras, lá longe, aonde a brisa desperta. Depois, o sorriso com que se correm as cortinas da manhã, tem o sabor da ternura. Uma carícia que brinca na vastidão do olhar.

A saudade, essa, aconchega-se nos traços com que escrevo estes retratos.

Os sonhos já não se esgotam nas esquinas da amargura, quando a tristeza se abate sobre a própria solidão. Detêm-se à sombra daqueles dias no limiar dos espelhos. Na fronteira de um futuro quase sempre adolescente, onde os pássaros se multiplicam pelo vazio. Onde as vozes se prolongam pelas estrias da ilusão.



3 de fevereiro de 2017

reencontro




A manhã chegou mais cedo. Insinuou-se pela melancólica geometria da janela e, lentamente, aconchegou-se nos lençóis onde a noite parecia querer prolongar-se.

Só o silêncio lhe reconheceu o brilho - um silêncio complacente, a encher a casa e a memória. A brisa ia afagando os derradeiros vestígios da madrugada. A percepção do orvalho e o quase imperceptível movimento das folhas, percorreram-me o corpo debruçado sobre a saudade.

Uma luz ténue pendurou-se nas cortinas. Alargou-se pelos recantos das paredes e desafiou os ponteiros de um relógio já cansado. Já parado.

Era outono!... A sustentada quietude de uma ternura a derramar-se na essência de uma solidão que continua a transformar a quotidiana lentidão das palavras. Bem sei que pouco nítida, mas, em todo o caso, persistente. Concreta. Subversiva.



2 de fevereiro de 2017

na memória desse outono




Como quem se revê no retrato de um dia que adormece!...

Os lábios atravessam a fronteira da ternura, antes que a luz se apague e no peito se aconchegue a navegável estrutura do silêncio. Antes que a distância se transforme num conceito inexistente.

Os relógios não importam. Basta a cadência de cada um dos segundos que se projectam nas almas. Os olhos mergulham bem fundo num olhar sem mácula e percorrem a nupcial geometria de um sorriso. Um sorriso quase tímido que enche os cantos do quarto. Os cantos todos da vida.

...

O outono espreitava pelas franjas do calendário. Trôpego, aproximava-se lentamente das árvores e dos caminhos. O outono - aquele outono!... - era, porém, o reflexo da tristeza instalada nos ramos da solidão. Nas esquinas da saudade.



1 de fevereiro de 2017

consonâncias




Outrora eram as árvores frondosas e acolhedoras, mas essas até o tempo esqueceu. As que depois se plantaram perderam o porte austero e não alargam a sombra até onde se insinuam as longas horas do verão.

A rua despojou-se das cores e dos sons. Desenharam-se nos rostos as marcas irreparáveis de um calendário que teima em condicionar a vida.

Havia os que despertavam a cadência da manhã e que, à noitinha, voltavam trazendo nos passos a volúpia das viagens inventadas. Deles, porém, já as pedras não recordam o perfume.

A alegria, por outro lado, deve ter-se refugiado para lá das persianas da saudade. Por vezes - poucas vezes, em todo o caso!... - sinto-a perto, como a espraiar-se pelos ramos do silêncio ou, então, a espreguiçar-se pela mansidão das palavras.