31 de janeiro de 2017

entre as lendas e o sossego




Ano após ano, quando agosto completava a rotação dos calendários, as vozes voltavam a iludir a memória que se demorava nas esquinas.

Recordo-me das estórias mais antigas. Recordo-me das lendas. Recordo-me das aves e das horas percorridas quando as canções se desenhavam no anoitecer das colmeias. No secreto amanhecer das paredes!... Mas isso foi noutro tempo - no tempo em que a ternura se assemelhava à trajectória da saudade.

Agosto, porém, já não se revê no pulsar da alegria. O comboio já não é o traço de união entre os sonhos e o silêncio. Entre o cheiro do sossego e a convergência das palavras.



30 de janeiro de 2017

foi há quanto tempo...?




Talvez seja pelos sons da madrugada. Pela trajectória dos sonhos que se reflectiam no caudal da solidão. Talvez por ser preferível ignorar os espelhos e olhar para além dos barcos. Para além do luar.

Talvez seja por isso - só pode, de resto, ser por isso!... - que, lentamente, a tristeza vai pesando na memória. A saudade, contudo, alarga-se pelos caminhos. Invade o amanhecer dos pássaros e a arquitectura dos búzios.

Dizem-me que há outros lugares. Outras palavras onde o silêncio se aconchega. Dizem-me que há sorrisos que tropeçam no secreto rumor da alegria. Eu, porém, já não me demoro nas impacientes areias de um futuro que não escolhi.



29 de janeiro de 2017

o voo do pensamento




Na manhã sem brilho passam as gaivotas. Os seus gritos roucos rasgam aquela espécie de melancolia em que a noite se aconchegava.

Por que não sossegam os sonhos de que se fez o sorriso que preenchia todos os recantos da memória?!... Cada um deles oferece-se à carícia das palavras, como se nada mais houvesse para além da inocência dos búzios.

Naquele rosto - na rectangular transparência do retrato - a luz continua a reflectir-se como se os relógios tivessem ignorado os alcatruzes do tempo. Dir-se-ia o próprio rosto da madrugada. A irrepetível trajectória do silêncio,



28 de janeiro de 2017

uma porção de esperança




Inacessível é esta trajectória de um futuro que se prolonga pela lentidão dos horizontes. Uma réstia apenas da solidão que se abate sobre a indiferença das palavras. O silêncio, por outro lado, envelhece na projecção do vazio.

A distância vai crescendo nos meus olhos que teimam em manter-se rente à primavera que se debruçava sobre a promessa de um agosto que não tardaria.

Aqui, neste lugar onde a memória vai transformando em saudade o reflexo dos gestos com que continuo a preencher as coordenadas do desassossego, somente os sonhos resistem à penumbra das vozes que se entretêm a rasgar a transparência dos passos que dou.

...

Talvez seja o cheiro da terra. Seja como for, não tenho muito mais do que o secreto branco onde desenho os retratos do absurdo.



27 de janeiro de 2017

o sopro da madrugada




Só a saudade ilumina as madrugadas que se alargam para além do desencanto.

A distância - esse tempo que se apossa dos gestos e do olhar - deixou de ser o retrato das fontes e dos pinhais. É agora uma ilusão!... O reflexo do abandono. Um grito que se perde entre o mar e a tristeza.

O silêncio, mãe, esse, não é mais do que a memória dos dias em que te ouvia cantar. Aqueles dias longínquos que eram apenas meus, porque era neles que poisavam os meus sonhos e era então que os pássaros chegavam em busca do teu sorriso.



26 de janeiro de 2017

até ao canto dos galos




As férias habitualmente trazem consigo a alegria. Trazem consigo o silêncio das madrugadas que acordam num leito feito de orvalho onde os sonhos permanecem. Trazem consigo o sorriso dos dias que não se esquecem.

...

As férias foram sempre uma ruptura. Com o mundo. Com a vida. Trouxeram sempre o vazio!...

...A partida dos amigos e a falta que eles faziam. Alguns não regressavam e, nesse tempo, não havia outros para fugir ao abraço da solidão instalada. Havia, é certo, aqueles dias longe de todas as coisas, perto da alma da gente que tinha a alma nos olhos e nas estradas do rosto. Mas eram curtos.

Havia o céu transparente e o perfume dos pinhais. Havia a água das fontes. Havia, naturalmente, o instante do regresso, por vezes sem despedidas. Por vezes sem entender que as horas já não se ouviam na cadência do comboio.

As férias são agora uma ilusão. Sem queixumes. Com a saudade instalada nas folhas dos calendários.

...

O caminho fez-se estreito - pouco mais do que um momento entre o sopro da ternura e os contornos da tristeza. Entre o branco das paredes e a memória do outono. Este, agora, é apenas o meu caminho. Um súbito rumor de chuva no coração da distância.



25 de janeiro de 2017

o que diziam os olhos




Era no tiquetaque da vida que se embalava o silêncio.

Era o jeito da memória no turbilhão das palavras debruadas no luar e no sossego. A brisa que adormecia mesmo à beira do orvalho. No limiar da saudade. Era um sonho ou, melhor, um poema a reflectir-se na mansidão dos teus olhos.

Era neles que descobria a vocação da ternura. O ofício da alegria. Era neles, mãe, que o tempo amanhecia e que um sorriso se abria sobre as rosas.

Hoje, somente sei da tristeza!...



24 de janeiro de 2017

irrepetível




O sorriso, porque foi o sorriso que encheu a cidade, reflectiu-se nos olhos e na alma. Só mais tarde - bastante mais tarde, é preciso dizê-lo!... - o silêncio se tornou audível. Não o silêncio das rosas, mas o outro, o silêncio dos búzios.

Como se projectasse o sossego na geografia dos caminhos, a manhã desenhava-se na furtiva cadência dos passos. Na adolescente lucidez do olhar.

...

O outono é ainda um pássaro de asas quase sonolentas. A memória ainda não decorou os sinais que as crianças costumam desenhar no entardecer das esquinas. Na trajectória dos sonhos. As palavras, por outro lado, antes ainda da agitação das abelhas, demoram-se em redor da alegria.



23 de janeiro de 2017

instinto




É um caminhar penoso através da solidão. Um caminhar inquieto, quase sempre sem entender a beleza dos atalhos. A memória dos carreiros.

Por vezes, quando o silêncio atravessa a interjeição dos gestos - quando o olhar se prolonga para além das respostas que o tempo já esqueceu - é como se o vazio fosse a única evidência. Como se, na desolada trajectória das palavras, o futuro se tivesse perdido na projecção dos espelhos.

De mim, talvez não exista mais do que a abstracção das perguntas tecidas pelo ruir dos calendários. Seja como for, este é o caminho que os meus passos se habituaram a percorrer. Uma espécie de deserto sem pássaros. Sem a lentidão do outono.



22 de janeiro de 2017

como se fora um sorriso




É na lucidez da memória que os meus sonhos se aconchegam. Os dias - também as noites, por que não? - transformaram-se em inúteis retratos daquela espécie de transparência que atravessava as paredes muito brancas. Há a saudade e há estas mãos que sustentam o absurdo do vazio, mas os meus olhos hesitam entre a realidade e o antiquíssimo cheiro do outono.

As rugas vão riscando os rostos que se demoram na confluência da distância. Da solidão!...

Está frio. Um frio que escorrega pela surda melancolia dos telhados. Um frio que tenta proteger-se nas próprias franjas do silêncio. Na corola de cada gesto que desagua no que sobrou daquela ternura que, não obstante, continua a projectar-se no milagre de um sorriso.



21 de janeiro de 2017

entre parênteses




Lembro-me das rosas!... Uma beleza cruel a definir os contornos da distância. Uma explosão de carmim a derramar-se sobre o vazio. A súbita percepção de uma espécie de espanto que me encheu o olhar. Que se reflectiu nos meus gestos e tingiu de silêncio aquele outubro sem horizontes.

Lembro-me das palavras que se atravessaram no anoitecer das paredes. Na trajectória de uma saudade que se prolongava pelas inadiáveis interrogações sem resposta. Lembro-me dos sonhos que adormeceram no desassossego dos lençóis.

Lembro-me do cheiro da solidão e das viagens pela memória daqueles rostos que o futuro nunca conheceu. Lembro-me dos retratos e dos espelhos - talvez sejam eles o resultado deste abandono que desceu sobre o imperceptível chapinhar dos calendários.



20 de janeiro de 2017

inquietação




Quando os calendários voltam a situar-se entre a saudade e os quase imperceptíveis traços da indiferença, as palavras hesitam em percorrer a singular harmonia das papoilas. A vagarosa reflexão das vozes.

Lembro-me das esquinas do silêncio. Daquela espécie de solidão que se pendurava na copa dos pinheiros. Lembro-me dos atalhos onde os sonhos se entretinham a desfolhar as suas próprias memórias. Lembro-me da resignada tristeza de um sorriso.

Hoje, quase nada resta da adolescente geografia dos passos. As casas deixaram de ser o retrato da alegria com que se desenhavam as horas de agosto. Olho-me ou, melhor, tento descobrir-me através da inquietação dos espelhos, mas só a penumbra sobrou desse tempo que preenchia o brilho do meu olhar.



19 de janeiro de 2017

...you've never said that before




Foi como se um sorriso percorresse o sossego das paredes estremunhadas. Como se o lume se reflectisse no regaço da noite que principiava. Foi como se as palavras - poucas, em todo o caso - se prolongassem pela morfologia dos sentidos.

Uma noite inesgotável na própria definição de um tempo que ainda não conhecíamos. O relógio, talvez consciente dos gestos que sublinhavam a furtiva lucidez do luar, hesitava entre o silêncio a crepitar na lareira e a brevíssima agitação das árvores no tactear da memória.

Chegou então o momento de partilhar a transparência de uma alegria sem mácula. A perfeição do olhar. A explicação das vogais onde explodiram os corpos. Completos. Transbordantes!...



18 de janeiro de 2017

I'm very fond of you




Há palavras, de tão intrinsecamente simples, que se reflectem na própria geometria de um poema. Palavras, não obstante, que se prolongam pela transparência da memória, como a madrugada que se multiplica pela lentidão do olhar.

O silêncio, então, enrola-se na complexa lucidez de um instante que se refugia nas franjas da eternidade. É como se o imperceptível esboço de um sorriso atravessasse as próprias coordenadas de um futuro quase perfeito. Como se os caminhos se abrissem à indecisão dos passos.

Talvez o Gunnar já soubesse que as árvores, na imensa solidão deste inverno sem cotovias, continuam a recortar-se na longínqua perspectiva de um azul que não se detém no outro lado da janela. Talvez!... Aquele, na verdade, foi o momento em que os nossos corpos se aproximaram da irrepetível explicação dos espelhos.



17 de janeiro de 2017

da substância dos sonhos




Por vezes, no breve espaço de tempo que os relógios demoram a percorrer a distância entre a bruma e a saudade, as palavras ainda são uma ponte para o outro lado da solidão. Para a complexa geografia da memória.

Nem sempre, contudo, os sonhos conseguem libertar-se do tiquetaque do desencanto. Do cheiro a mofo dos estios que sobreviveram ao vagaroso rumor das pétalas. À inquietação das pálpebras. À penumbra que continua a corroer a palidez das paredes.

Talvez o silêncio possa vir a ser o reflexo desta melancolia que se projecta no desassossego dos pardais.



16 de janeiro de 2017

o tempo tresmalhado




Estes são os dias que se confundem com as sombras de uma saudade que se apossou da própria memória. Os dias que percorrem os flancos do imprevisto, como se o tempo se limitasse a ser uma impossibilidade. Como se as árvores já não fizessem parte de um daqueles outonos prestes a invadir o olhar.

Talvez acabe por permitir que me invada a embriaguez de setembro. O sussurro da brisa. O derradeiro verde dos salgueiros.

Talvez me refugie nas madrugadas que se abrem à passagem dos versos com que se constrói a utopia ou, se calhar, deixo-me habitar pela ladainha dos búzios. Seja como for, não consigo ver-me para além da fronteira de cada dia. Para além do improviso de cada passo.



15 de janeiro de 2017

rugas




Os pássaros já não se demoram nos relógios e nos sorrisos que se projectam no horizonte. Na curva da madrugada. Na geografia da saudade.

O olhar espraia-se para além do vazio que preenche as ruínas do velho alpendre. Como se fosse a derradeira fronteira do silêncio, a memória arrasta-se através do desencanto. Através do abandono.

A brisa, essa, já não poisa nos ramos da buganvília!...



14 de janeiro de 2017

dissonâncias de um poema




As paredes eram lentas. Rugosas. Muito brancas. Como se o silêncio por ali andasse a meio caminho entre as abelhas e as cordas de uma guitarra. Como se fossem pássaros, os sorrisos alargavam-se pelas árvores. Pela indolência dos frutos que tinham a cor da esperança.

Recordo-me, mãe, da pueril consistência dos versos com que principiei a desenhar o teu retrato. Já então, talvez porque bem cedo as palavras me tivessem crescido nos dedos, o mundo não era mais do que a vagarosa geometria do orvalho. Do que o prolongar das searas.

Esse mundo, todavia, modificou-se!... Não voltou a ser como no tempo em que te tinha comigo.



13 de janeiro de 2017

um rapaz do campo




Nem sempre o silêncio se reflecte nas noites sem lágrimas e sem a música dos oboés. São muitas vezes inócuos esses momentos que se repetem pela opacidade dos dias que se limitam a ser o eco da incoerência que preenche os calendários. Que persiste e se alarga pela monotonia dos relógios.

Aqui, longe do despertar dos galos e do sussurro das searas, perdido na indefinição das vozes e na inconsequência dos sonhos, sou apenas o companheiro deste vazio em que não me reconheço. Sou, contudo, bem mais do que isso!... Sou a memória dos dias que se confundiam com a masculina lucidez do olhar. Com o desafio do orvalho e com o ofício da madrugada.

Sou o guardião desta saudade em que me projecto e com a qual vou tecendo estes versos que escrevo para te dar.



12 de janeiro de 2017

rente ao pulsar da ternura




Talvez tenha sido entre o sossego do alpendre e as coordenadas da memória, que as palavras se reconheceram na discreta acentuação do silêncio. Um silêncio imperceptível e, ainda assim, transbordante. Só muito mais tarde a saudade se reflectiu naqueles caminhos que prolongavam os sonhos para além da utopia.

Hoje, quando o vento e as andorinhas já não são o retrato da ternura que se demorava na subtil metamorfose das paredes solitárias, os passos continuam a refugiar-se na tranquilidade dos dias que conduziam à embriaguez do olhar.

Ao longínquo amanhecer dos degraus!...



11 de janeiro de 2017

I'm glad you're still here




Foi uma espécie de silêncio a reflectir-se na lentidão da memória. Um súbito anoitecer na periferia do olhar. Na moldura das palavras.

Não foi senão um sorriso a preencher a rectangular projecção da lareira. A hesitação das paredes. Aquele jeito imperceptível de transformar a ternura na cadência dos relógios. De percorrer a saudade para além da solidão.

Estava frio!... Um frio espesso. Inadiável. Um frio debruçado sobre a tristeza - sobre a noite que chegava. Uma noite de janeiro no prolongar de um abraço. Como se o passado e o futuro ainda coubessem na adolescência dos sonhos, o Ezhno multiplicou-se pelos contornos da sua própria alegria.

Quando o luar atravessou a lucidez da janela, deixámo-nos surpreender pelo ronronar do sossego.



10 de janeiro de 2017

pelos sulcos do vazio




Não tenho como evitar este vazio que, por vezes, continua a ser o mais difícil dos caminhos que é preciso percorrer.

A solidão e a tristeza não se esgotam na rotina dos ponteiros de um relógio que, dia após dia, não deixa de manter-se num movimento quase utópico. Não se esgotam no folhear dos calendários que se abatem sobre o desencanto.

Indelével, contudo, permanece a lembrança daquele sorriso!... Como a textura do silêncio que se projecta numa aguarela com vista para o outono. Permanece a memória do perfume que amanhece em cada sonho - que se alarga pelos socalcos da melancolia que me sobe ao olhar.



9 de janeiro de 2017

sobre o abismo




Lentamente!... Como se, perante o abismo, os passos hesitassem entre o receio e a promessa de um olhar a prolongar o infinito, assim a solidão se reflecte na dimensão da memória.

Talvez seja a saudade que preenche o vazio das palavras perpendiculares à trajectória dos sonhos. Talvez seja ela que partilha o sossego com o coração que se fecha sobre as mágoas e, não obstante, sobrevive à penumbra dos monólogos.

Principiam a desenhar-se na morfologia da tristeza, os traços de uma ternura que se projecta no rodapé do silêncio. Que separa os dias da angústia que os aprisionava à beira do abandono. À beira da incerteza.



8 de janeiro de 2017

...to someone I can talk




Ainda era verão - os dias continuavam a ignorar a quase imperceptível intransigência dos relógios!... Ali, muito depois do anoitecer de um agosto à beira da solidão, descobrimos que já não nos reconhecíamos na prometida lentidão da memória. Descobrimos que era em nós que principiava a embriaguez de um futuro sem retorno.

...

Durante todo este tempo percorrido rente aos muros do silêncio, foi como se as palavras nunca tivessem sido necessárias. Só contigo, todavia, o sossego se prolongou para além da própria alegria.

Talvez tenha sido pela discreta interjeição do olhar, que nos fomos dando conta de que os caminhos não se esgotavam na trajectória dos passos. Foi, se calhar, aquele instante em que os nossos gestos se multiplicaram pelas vogais da ternura. Em que os nossos lábios aprenderam a soletrar o reflexo da saudade.



7 de janeiro de 2017

sobre as cores da perfeição




Havia muito mais do que um sorriso. Muito mais do que poderá ser dito na promessa das palavras. Nem o silêncio, nem a geometria do orvalho, bastariam para revelar a ternura poisada no coração. Na transparência da alma.

Era naquele sorriso que os dias se preenchiam para além da realidade. Para além dos próprios sonhos. Muito mais do que nas cores de uma aguarela, foi nesse sorriso que os meus olhos aprenderam a distinguir os sinais da perfeição. Os traços da eternidade.

...

O azul do céu. O apelo da brisa. A infatigável cadência da alegria...! A felicidade a reflectir-se nos gestos e no desenho do sol poente. No brilho das estrelas. No rumor da madrugada.



6 de janeiro de 2017

através das persianas




Intangível e difícil de conjugar com a saudade, a tristeza vai-se multiplicando pela vertigem dos relógios, ainda que o silêncio tente refugiar-se nas franjas da madrugada.

Não há forma de preencher a distância entre a ternura e a solidão. Entre o vazio e o matinal perfume de uma rosa. Talvez seja pelo equívoco das palavras, que as sombras vão crescendo sobre a geografia do desencanto.

Os passos deixam-se conduzir através das inóspitas margens do desassossego. Anónimos, como os dedos do abandono sobre a superfície do outono. Sobre a penumbra da memória.



5 de janeiro de 2017

o estranho jogo da vida




A vida, por vezes, contraria os parâmetros da sua própria racionalidade. Não é fácil ajustá-la ao perfil do desencanto. À melancólica turbulência do vazio.

O sossego esgota-se na confusa trajectória das palavras. O caminho, por sua vez, assemelha-se às próprias ruínas do silêncio...!

O chão pode faltar. Os sonhos podem perder-se na projecção da memória. A saudade, porém, há-de transformar a tristeza na translúcida geometria de um sorriso. Na substância de um olhar que não se deixa derrubar pela ausência. Pela distância.



4 de janeiro de 2017

da nostalgia




Na fronteira mais longínqua da memória, agosto deixou de ser o reencontro com a adolescência dos sonhos. Com a penumbra dos pinhais. Com a harmonia das searas.

Agora, as palavras são o reflexo de uma saudade que o tempo aprisionou. O sorriso já não se demora na transparência do olhar que escorregava pelas paredes do alpendre. Pela simetria dos gestos.

Perdidos, os passos não se reconhecem na indiferença dos caminhos. Os carreiros que prolongavam os dias pela geografia do silêncio, deram lugar a uma espécie de abandono que se refugiou nas entranhas do vazio. As cigarras, como a brisa, já não mostram a direcção do futuro e o velho portão de madeira já não se abre à passagem da alegria.



3 de janeiro de 2017

gira - discos




A chuva cai sobre a lenta superfície da tristeza. Paciente, escorrega pelas janelas perpendiculares ao cheiro da solidão. Lá fora, entre o inverno e o melancólico tiquetaque do silêncio, as árvores parecem simples arbustos que o vento não cessa de agitar.

A noite não tarda a estender-se pelos telhados. A instalar-se nos espelhos da memória, onde persiste a chama de uma candeia. Onde a saudade se acende e se recordam os sonhos. A alegria, essa, perdeu-se na bruma dos calendários. Na assimetria das vozes. No confuso trovejar da distância.

Como se fossem o reflexo de uma ilusão, vou folheando as páginas deste livro na projecção dos relógios. Um regresso muito breve às ruínas de um passado sem palavras, a que falta a explosão de um sorriso. Quase clandestina, a música apodera-se das paredes indefesas.



2 de janeiro de 2017

por trás daquela janela




Agora que o silêncio se habituou a escorregar pela lentidão das paredes, as árvores deixaram de ser o reflexo da saudade no amanhecer da memória. As persianas estão gastas, como se o vazio as tivesse roído. Como se os relógios se tivessem refugiado nos labirintos da tristeza.

Os livros nunca deixaram de ser uma espécie de ponto de encontro com o que sobrou daquele sorriso. Com as palavras que se repartem pela ausência de um olhar na projecção da ternura.

Há a música, é verdade!... Mas há, também, o cansaço. O cheiro das coisas que recordam o perfil de uma alegria longínqua. Uma inocência que se multiplica pela embriaguez dos sonhos. Há a janela. Antes das árvores. Antes do sono.



1 de janeiro de 2017

vagabundo




Há muito que os meus olhos se perderam no labirinto dos passos com que atravesso as interrogações do silêncio e da memória. Bem sei que não passam de perguntas quase inócuas, mas, na maior parte das vezes, dou por mim em desacordo com a previsibilidade das respostas. Com a perspectiva de ser coagido a submeter-me às definições dos compêndios e da rotina.

Um simples grão de areia não é tão elementar quanto poderiam imaginar os meus pés cansados e, eventualmente, pouco atentos. Importa-me compreender o essencial, ainda que o acessório acabe por revelar-se bastante mais apelativo. Na realidade, porém, deparo-me quase sempre com a ausência de argumentos capazes de suprir o vazio que se projecta no perfil dos horizontes.

Hoje, sem com isto pretender afirmar que alguma coisa se modificou, o confronto matinal com aquele espelho enviesado, devolveu-me a imagem de um pária sem espaço e sem futuro nas próprias entrelinhas do quotidiano. Não que as minhas convicções se tenham aproximado do absurdo, ainda que as considere paredes meias com os traços da utopia.

Limito-me, em todo o caso, a ser o guardião de um tempo em que os sonhos costumavam adormecer à beira dos riachos ou, para ser mais rigoroso, aconchegados na bruma que mantinha cativo o cheiro da resina.

Uma vez por outra, quando as saudades vêm alimentar-se do que resta dos gestos e dos retratos, gosto de regressar àquele tempo que, agora, apenas sobrevive na teia das palavras com que desenho o meu pensamento. Como um vagabundo, vou através dos atalhos que já não existem, olhando os rostos dos que não volto a encontrar. Não espero que me recordem, pretendo apenas descansar à sombra de um sorriso - o singular reflexo da perfeição!...