24 de setembro de 2017

retrato com contentor




Coberto pelos farrapos da sua própria sombra, o homem atravessou a imperceptível estrema que separa a demência da solidão. Inexpressivo, marcado por uma indiferença à beira da resignação, o rosto reflectia uma infatigável ausência de perspectivas. Há quanto tempo lhe não sobe aos lábios o breve traço de um sorriso descuidado?!...

Os sonhos, mãe - se é que existe lugar para eles nos parâmetros do vazio - devem ser a multiplicação do absurdo pela incerteza. A mais que perfeita incompatibilidade entre os contornos de uma adolescência perdulária e a melancolia perante um futuro tresmalhado.

Inútil retrato esse!... Autêntico, ainda assim, sem os habituais subterfúgios capazes de lhe amenizar as arestas do infortúnio. Um grito de revolta que não impede a insalubre humidade do silêncio, mas que destroça a essência do inexplicável.



23 de setembro de 2017

do berço e dos relógios




Se encarar um ser humano como o meu "tu", se o introduzir na relação fundamental "eu-tu", ele deixa de ser uma coisa entre coisas.

Não me perco a analisar e a pôr à prova o homem a quem digo "tu". Entro em relação com ele, na sacrossanta palavra fundamental... Aqui se encontra o berço da vida verdadeira.

...

Moro agora no outro lado de uma distância a que há muito não pertenço. Uma distância onde já não se projecta o adolescente rumor do teu olhar. É bem provável que este tempo não se reveja nos passos com que percorremos a incerteza dos caminhos.

Havia então, no quase definitivo reflexo das nossas palavras, uma espécie de silêncio ou, se quiseres, uma inocência que não voltei a reconhecer no inútil calcorrear dos relógios. Dir-se-ia, se calhar, que foi por isso que a amizade se manteve, não obstante o vazio que caiu sobre os meus cadernos. Sobre o que de juvenil restou de mim nas memórias que guardei de ti.

Sei - e não tenho necessidade de o compreender - que sempre foste o prolongar do meu próprio sorriso. O impossível tactear de um futuro que nunca foi nosso.



22 de setembro de 2017

memórias do ashrama




Não existe, quando dedilho as palavras, qualquer suporte a um possível projectar do silêncio sobre o absurdo. Nem sempre, porém, foi assim!...

Houve um tempo em que, se calhar, teria sido preferível não deixar que a adolescência se demorasse a polir o misticismo, com o objectivo de descansar à sombra da perfeição prometida. As lendas, por outro lado, já eram demasiado incompatíveis com os afectos, mas, então, a ingenuidade não me permitia compreender a importância dos muros no desbravar dos caminhos.

Era necessário, mãe - ia dizer imprescindível - afagar a cumplicidade que mantínhamos com o sossego,  para que pudéssemos saborear aquilo a que ainda não chamávamos alegria. Para que, um pouco mais tarde, a tranquilidade se instalasse mesmo a montante da paciência.

Foi uma aprendizagem que se multiplicou pelas dúvidas e também pelo desencanto. Uma aprendizagem que deve prosseguir para que se não quebre o fio condutor entre a juventude e as cores do sol poente.



21 de setembro de 2017

uma página em branco




Há lugares a que gosto de regressar sem ideias preconcebidas, como se fossem uma página em branco à espera de um texto cujas palavras ainda ignoro.

Depois, à medida que os recantos se tornam familiares, não obstante a ausência e alguns lapsos de memória, surpreendo-me com os pormenores que - vá lá saber-se porquê!... - me tinham passado despercebidos. Tenho, então, a oportunidade de reescrever o silêncio através de uma perspectiva que advém da circunstância de me reconhecer diferente daquele que, antes, se deixara contagiar pelo imprevisto.

O parque, naturalmente, perdeu uma parcela do fascínio que o aproximava do indizível, mas não pude deixar de me rever no desenho de cada canteiro. Na percepção de uma discreta tranquilidade.

Ali, mãe, quando os sonhos ainda eram possíveis e o futuro não existia, sentia-se uma espécie de hostilidade para com o gotejar do quotidiano. Agora foi como se, em bicos de pés, estendesse a mão para o desconhecido e descobrisse a alegria no brevíssimo instante em que me reencontrei nas pegadas da nossa saudade.



20 de setembro de 2017

do farol ao areal




Desse tempo em que o futuro se limitava a ser uma sucessão de imprevistos, conservo a memória das coisas que me fizeram crescer. Se assim não fosse, tudo não passaria de um vastíssimo compêndio de ilusões que me teria entretido a coleccionar.

Por outro lado, mãe, creio que o meu crescimento nunca há-de ser um dado adquirido. Tangível. De resto, sinto-me tentado a acreditar que permaneço um simples personagem dos argumentos que fui construindo a partir dos sonhos que inventava. A realidade sempre se me afigurou uma terra estranha - inútil tentativa de configurar as questões a que não sei como responder.

O silêncio e a ternura costumavam ser o anverso da moeda que reflectia o perfil dessa outra coisa a que, à falta de melhor definição, me atrevo a chamar vida. A outra face, a que muito raramente prestei atenção, não passava de uma representação do vazio.

...

O farol surgiu de súbito - tal qual o recordava!... Mais à frente, na projecção do areal, lembrei-me do jovem que se entretinha a percorrer as lendas e a aprender com os druidas. Que se evadia das contingências que preenchiam os horizontes.

Confesso que tive saudades!...



19 de setembro de 2017

sensibilidade




Estabeleci com o silêncio uma cumplicidade nem sempre harmoniosa. É frequente uma certa crispação - nem sempre sou capaz de evitar alguns conflitos que reflectem uma sensibilidade com demasiadas arestas. Salientes. Aguçadas.

Não tenho, contudo, outra forma de aperfeiçoar esta vizinhança que vou mantendo com a solidão. Com o vazio que se foi multiplicando pela cadência dos meus passos. Por vezes apercebo-me de que os meus sonhos perderam alguma da consistência que lhes permitia sobreviver aos caprichos de uma realidade cada vez mais enviesada, mas, ainda assim, teimo em prosseguir lado a lado com a utopia.

Antes, mãe, quando a adolescência se reencontrava com a geométrica perfeição de agosto - quando as palavras eram sussurradas na lentidão do olhar - eu sabia que os relógios não se deteriam nas estremas do sorriso que me aguardava nos carreiros da saudade. Agora, porém, dir-se-ia que o tempo se misturou com os equívocos que lhe deram forma.

Ao tactear os recantos da memória, lembro-me da secreta transparência desses dias ou, melhor, desses momentos em que te tinha comigo. Tantas coisas que deixaram de acontecer...! Talvez, em todo o caso, ainda seja possível recuperar a explicação dos gestos, apesar das sombras que pairam sobre a cidade.



18 de setembro de 2017

por hipótese




Podia talvez dizer-te, não fora a distância e este jeito de projectar a solidão nas encruzilhadas da memória, que há agora uma outra forma de experimentar o silêncio, enquanto vou escrevendo estes retratos sobre os sonhos tecidos à sombra de uma árvore centenária.

Depois existe a música!... O que quer que se possa extrair da difícil serenidade destes dias, mais do que desvendar a essência de um anoitecer quase de outono, permite-me conjugar os sons com o ócio de um passeio à flor do tempo. Com a própria curva do teu sorriso, onde se reflecte o cheiro da maresia e a transparência de uma alegria singular.

Não sei, mãe, aonde me levam as palavras. Elas foram sempre um pretexto para transpor as fronteiras do absurdo, não obstante a confluência entre a luz e a escuridão. Não pretendo, em todo o caso, adormecer sob a inquietação dos meus sentidos, agora que as madrugadas principiam a prolongar-se para além da saudade.



17 de setembro de 2017

o tempo das ilusões




Deixo-me ficar quase sempre na periferia das palavras onde o silêncio se pronuncia com o rigor do crepúsculo e se prolonga pelos desafios da memória. Existem algumas incompatibilidades entre o sossego e a solidão, mas, ainda assim, sou capaz de interpretar os sinais que se projectam  na ilusão dos espelhos.

É verdade que já decorei os caminhos que me afastam da realidade. Os pássaros, todavia, não deixaram de se multiplicar pelo exercício da paciência. Os meus sonhos, por outro lado, há muito que não se revêem nos parâmetros da lucidez.

Dia após dia, apercebo-me do quase sonâmbulo rumor da saudade. Confesso, mãe, que desconheço as razões por que os meus passos persistem em manter esta trajectória aparentemente sem perspectivas, mas, não obstante, vou prosseguindo enquanto me reconhecer na perfeição do teu sorriso.



16 de setembro de 2017

numa esquina a saudade




Dos velhos caminhos resta apenas a ilusão capaz de se prolongar pelos sonhos e pelo silêncio. Mais à frente, naquela esquina onde a memória se mantém, dir-se-ia que nos dias em que a neblina se mistura com o cheiro dos eucaliptos, a saudade se aconchega nas teias que o orvalho protege do balançar do vazio.

Como metáforas longínquas, os vultos assemelham-se às lendas andrajosas, quando a solidão se projectava no ritmo da madrugada. Agora, contudo, a realidade é bem diferente - já não se confunde com a lentidão dos dias. Com o cansaço das palavras.

Hermético, obsessivo, o passado apoderou-se do bucolismo das fontes e caiu sobre os espelhos da indiferença. Os passos, esses, continuam a reflectir-se numa juventude que resiste à sede dos calendários. Talvez falte um sorriso. Não mais do que um sorriso.

O teu sorriso, mãe!... Perfeito. Único. Transbordante.



15 de setembro de 2017

longe do ruído dos homens




...Mas não somos apenas nós que a imaginamos, a ilha também nos imagina, também nos sonha como se fôssemos uma consequência do lugar, forjados nas suas entranhas, imersos nos seus abismos, levantados das mesmas encostas onde, há centenas e centenas de anos, longe do ruído dos homens, cresce a floresta laurissilva, como uma pálpebra que o vento entreabre.

A ilha também nos sonha nas linhas subidas das levadas que redesenham um atlas de mundos sigilosos, nas grutas sucessivas onde os limos gotejam uma neblina gelada no disco negro dos poços tapados pela vegetação e pelo silêncio. A ilha é o globo luminoso de uma lâmpada, uma incandescência, o ponto de uma estrela a fazer a chamada de todos os nomes.

...

Chego à janela para olhar mais uma vez - talvez a última vez - aquele futuro a que não chegámos a pertencer. Não sou capaz de me reconhecer no lento envelhecer das palavras que, afinal, preencheram a promessa do teu olhar poisado no silêncio do meu sorriso.

Como teria sido se, na brevíssima adolescência de um instante, tivéssemos proferido essas palavras que, todavia, se misturaram com a penumbra das esquinas?!... Com o imperceptível rumor de uma amizade que, então, não sabíamos que poderia reflectir-se na transparência dos nossos sonhos.

Ali onde, sem o sabermos, nos despedimos um do outro, talvez nos tenhamos limitado a ser a consequência do lugar e do tempo em que o mundo se escondia na sua própria incerteza. No sussurro das interrogações sem sentido. Porque - sei-o agora!... - apenas tu e eu nos prolongámos pelo tiquetaque da alegria.



14 de setembro de 2017

o ofício das palavras




Nem sempre as palavras se deixam manipular como o barro trabalhado pelas hábeis mãos de um oleiro. Não são dúcteis nem submissas. Argutas, isso sim, optam por surpreender quem nelas se projecta.

Resistem quase sempre à tentativa de lhes condicionar o acesso à lucidez das imagens que, muitas vezes, se tornam reféns do equívoco esboço de um sorriso. Não obstante, é necessário trabalhá-las com rigor, sem recuar perante a resistência das arestas. Importa privilegiar a humildade em vez da arrogância.

Ocasionalmente, mãe, não deixo de me sentir lisonjeado com os sinais que me sugerem uma preferência fugaz. Depressa, porém, me vejo forçado a permanecer atento aos seus caprichos, porque elas - as palavras - são imunes às manobras que resultam de uma satisfação prematura. Infundada.



13 de setembro de 2017

hierarquias




No início talvez não seja mais do que experimentar a coerência dos alicerces. O desejo quase adolescente - não forçosamente inconsciente - de desafiar a verticalidade das hierarquias. A vontade de principiar a iludir o futuro.

Lentamente, os gestos habituam-se a confundir a personalidade com a tentativa de subverter as convicções que se sustentam no limiar da indiferença. Nada parece reflectir-se no exercício da paciência. O próprio silêncio vê-se privado da harmonia das palavras e da memória.

Aqui, mãe, onde as próprias árvores parecem prolongar-se pela enviesada lucidez da rotina, somente a utopia se confronta com as propostas do absurdo. Do inconcebível.



12 de setembro de 2017

arco - íris




Para além da interjeição das cores, a vagarosa perspectiva do silêncio projecta-se na superfície das águas. Um gesto que se reflecte no amanhecer das areias e na ausência das palavras.

Pode ter sido a saudade. O inesquecível cheiro do crepúsculo, àquela hora em que os pássaros hesitam entre a impaciência e a alegria. Tudo, de resto, a fazer lembrar a lucidez dos sorrisos, quando a primavera explodia nas pétalas da ternura.

A música, mãe ou, para melhor dizer, um brevíssimo e irrepetível sussurro a percorrer o sossego, prolonga-se pela lentidão do olhar, enquanto a memória se descobre na vertigem dos relógios.



11 de setembro de 2017

quase demência




Incontroláveis - dir-se-iam irredutíveis na viagem pelos caminhos da solidão - os gestos reflectem-se no acumular da demência. Do vazio.

Os diálogos tornaram-se inúteis. Sem nexo e quase sempre destroçados pela violência das palavras em confronto com a sua suposta racionalidade. O silêncio já não pode saborear-se no aconchegar de um sorriso. Já não se lhe reconhecem os contornos. A subtileza.

Talvez tenha chegado o tempo de me libertar da minha própria inércia. Não sei, mãe, o que me espera no atravessar do futuro, mas recuso prosseguir pela orgia das vozes. Recuso alinhar-me pelas pegadas do rebanho.



10 de setembro de 2017

assim a intolerância




Há ainda demasiadas esquinas na enviesada arquitectura do vazio. Talvez a angústia seja o desafio mais presente na dimensão do absurdo. Ela e o medo de partilhar o silêncio das palavras.

Dir-se-iam ainda os adolescentes vestígios dos gestos e da memória. Da turbulência das horas. O que ficou, todavia, pode resumir-se à incapacidade de preencher os hiatos entre a sabedoria e a decepção. Entre a proposição dos livros e o incaracterístico recheio da realidade.

Dito de outro modo, mãe, nunca as interrogações foram capazes de se equilibrar na trajectória dos sonhos. No fio da intolerância. Nunca os sorrisos se demoraram na contemplação das abelhas. Nunca o verão se projectou nas fronteiras de setembro.



9 de setembro de 2017

axle munshine




Um eterno navegante através das horas e da memória que se prolonga pela geometria dos sonhos. Pelo silêncio que vai crescendo no arrefecer das vozes.

Os carreiros são quase sempre uma improvável equação em que as incógnitas se projectam para além da melancolia. As palavras, por outro lado, raramente se reflectem nos desafios que não cessam de se multiplicar pelos labirintos da solidão.

Dificilmente a realidade poderá tornar-se compatível com o envelhecer dos passos que se aproximam da utopia. Talvez os atalhos acabem por revelar-se menos equívocos, não obstante as armadilhas do tempo. Da impaciência!... Os horizontes, mãe, esses, continuarão a ser uma constante que se ergue nos flancos da incerteza.



8 de setembro de 2017

à espera




Se ficamos à espera das condições ideais, há dimensões do nosso ser que jamais tocaremos, porque a pressão externa é implacável e foge continuamente ao nosso controlo.

...

Pergunto-me por que foi que apenas nos debruçámos naquela espécie de parapeito onde as palavras não tinham como aprender a flutuar sobre a memória. Sobre o silêncio.

Pergunto-me e parece que não me dou conta de que o tempo acabou por nos ultrapassar, mesmo antes de nos prolongarmos na lucidez dos gestos ainda adolescentes. Como se o futuro pudesse ter sido o reflexo do teu olhar. Do meu sorriso.

Hoje já não somos o irromper da alegria que nos acompanhou nos breves momentos em que os relógios costumavam deter-se à beira do teu corpo. É como se nos tivéssemos perdido nos intervalos do caminho.



7 de setembro de 2017

um tímido sinal




Um gesto!... Talvez mais do que as palavras, um gesto - ainda que clandestino - pode ser o inadiável reflexo da solidão. O tímido sinal de alguém que se confronta com a indiferença. Com a negligência.

Subjectivo embora, um gesto pode significar uma óbvia incompatibilidade com aquela espécie de silêncio vulnerável às memórias mais esconsas. Mais próximas do rumor do vazio.

Um gesto que por vezes, em si mesmo, é a reconciliação com um certo jeito de repartir a alegria pela trajectória dos sonhos. Pelo amanhecer dos sentidos. O súbito pressentir do que existe na incerteza dos horizontes pelos quais se multiplicam as dúvidas. Ou o desenho de um sorriso.

Um gesto, mãe!... Como quem descobre que tem asas. Como quem se apercebe de que pode voar.



6 de setembro de 2017

promessa




Prometo-te, mãe, que antes de chegarem as primeiras chuvas, hei-de subir contigo ao lugar mais alto da alegria, onde os pássaros se misturam com as estrelas e onde, pacientemente, se desfolham o silêncio e a memória.

Lá, onde o sossego se liberta do peso da solidão, os meus dedos caminharão pelos contornos do teu rosto, enquanto os nossos olhos hão-de partilhar a textura do crepúsculo e a subtil transparência de uma noite ainda adolescente.

Quando, enfim, apaziguada pelo dedilhar das palavras, a saudade se erguer sobre a madrugada, os nossos sentidos recordarão os segredos da eternidade, junto à lareira de um agosto por descobrir.



5 de setembro de 2017

bilhete - postal




Olho-te, mãe, tanto quanto a tua ausência me permite, e dou-me conta da ternura que continua a escorrer pelas palavras que trocamos. Como se as estrias do silêncio fossem capazes de nos conduzir à confluência dos gestos. Dos sorrisos.

A inquietação das horas que não partilhamos ou, se preferires, o peso das metáforas com que me projecto na distância que nos separa, não é incompatível com a genuína tradução da alegria. É, antes de tudo, o reflexo de um irrecusável anoitecer.

Se, a medo, toco a indefinição do teu rosto, pergunto-me para que me servem os sonhos adolescentes e este jeito de configurar a esperança a partir da origem. Apercebo-me, então, da falta que me faz aquele abraço que sobreviveu ao amarrotar dos calendários. Falta-me, sobretudo, o reencontro com o exercício da paciência.



4 de setembro de 2017

perspectivas




Sozinho, frente à corrosiva trajectória do vazio, interrogo-me sobre a hipótese de construir o silêncio a partir da essência de um sorriso ou do simples irromper da madrugada.

Desconheço qual o sentido da minha presença no prolongar das palavras que nenhuma luz acariciou. Sei apenas, mãe, da minha incapacidade em evitar os gestos que conduzem ao desalento. Nada parece assemelhar-se a esta angústia que teima em multiplicar-se pela própria tristeza.

Se procuro abstrair-me das memórias de um tempo que me aprisionou na projecção do futuro, nem mesmo assim me habituo às circunstâncias que ameaçam fazer de mim um potencial caminhante do absurdo.



3 de setembro de 2017

o exercício do absurdo




Aqui, mãe, onde os passos se habituaram à abstracção dos caminhos, tenho as fontes e o cheiro das noites que me recordam o adolescente rumor da alegria. Posso esquecer o absurdo deste quotidiano incompatível com a substância de um sorriso.

Na sua própria impaciência, as palavras não hesitam em agredir-se mutuamente, ao mesmo tempo que os gestos se intrometem entre as pétalas do silêncio. Inútil é a vontade de saborear o sossego e a harmonia dos sonhos que já não se partilham.

Imprevisíveis, todos os pretextos parecem adequar-se a uma violência que destrói os laços que ainda vão sendo capazes de resistir aos dedos da indiferença.

Posso, em todo o caso, refugiar-me nos inacessíveis recantos da memória. Longe da demência que transformou as horas nas ruínas em que o futuro se projecta. Ainda assim, não obstante a solidão que se abate sobre as searas, as papoilas continuam a desafiar os ventos. A enfrentar o vazio.



2 de setembro de 2017

terapias




Deve haver na provável textura do silêncio, uma qualquer sintonia com as palavras que se conjugam na projecção dos relógios.

Por vezes, no reflexo talvez condicionado pelo cheiro da madrugada, entretenho-me a soletrar as sílabas que aquele outono aprisionou. Porque - é essa a essência da vida - os meus passos jamais voltaram a percorrer os mesmos caminhos. Nem sempre, contudo, o faço a montante de uma lucidez abstracta.

Nem sempre a solidão e a realidade se confrontam!...

Ainda continuo a interrogar-me acerca do voo das gaivotas e do intangível sussurrar do vento, mas as respostas são sempre imprevisíveis, o que, afinal, acaba por se traduzir na minha incapacidade de desenrolar os novelos da memória.

Aqui, mãe, onde as sombras se multiplicam pela telegráfica lentidão da noite, não sei se a alegria alguma vez poderá reconhecer-se no olhar com que me observas do outro lado do vazio.



1 de setembro de 2017

do rio que flui a cada instante




...Mas, por outro lado, o rio que flui e se faz outro a cada instante, não deixa de ser o mesmo rio. E, do mesmo modo, nós próprios. Habitamos continuamente essa fronteira que se pode descrever assim: já não somos os mesmos e seremos sempre o que um dia fomos, o que agora somos, o que depois seremos.

Não somos e somos. Por isso a passagem do tempo desafia-nos mais à confiança e ao entusiasmo da descoberta, do que ao medo e ao ressentimento por ele não ter ficado parado algures.

...

Era em outubro!... Nesse tempo, contudo, ainda não sabia como passar pelo silêncio das palavras que, pacientes, se demoravam no amanhecer das cores. Era, se calhar, muito cedo para me aperceber de que podíamos ser mais do que o reflexo de um olhar à beira da adolescência.

A verdade - se quiser considerar o rigor dos relógios e dos calendários - é que, quase sem me ter apercebido, nunca deixaste de estar presente no esboçar de cada passo com que me fui aproximando da minha própria memória. Apesar da tua ausência. Apesar da distância que se intrometeu entre nós.

Hoje, quando me recordo do teu sorriso e, por vezes, da maneira como soubeste atravessar o que te parecia ser a minha indiferença, dou-me conta de que, não obstante a solidão que não tenho como evitar, tu continuas a ser o traço de união que me projecta na transparência de um desejo sempre lúcido.



31 de agosto de 2017

quando os pássaros




Lembro-me dos quase monossílabos com que, por vezes, entretínhamos os nossos diálogos. A verdade, mãe, é que mesmo hoje não me escuso a valorizá-los, ainda que se limitassem a brevíssimas interjeições com as quais íamos sacudindo aquela espécie de desassossego que nos envolvia.

Era o tempo em que os adolescentes sinais da alegria me preenchiam o sorriso e o olhar. Tu chegavas e partilhavas comigo os sonhos com que, depois, contornávamos a própria solidão.

Agora, quando os pássaros me trazem à memória os voos que nunca tentei, posso dizer-te que me sinto órfão do silêncio que ocultámos até de nós mesmos. Como se os momentos que subtraíamos a cada dia, se tivessem transformado no secreto anoitecer da saudade.



30 de agosto de 2017

visita a ricardo reis




Para ser grande, sê inteiro...

...

Disponíveis e inesgotáveis, as palavras facultam-me os mecanismos que me permitem evadir deste quarto de paredes há muito decoradas, e arriscar a viagem pelos retratos da imaginação.

Não se trata, contudo, de adicionar sílabas tresmalhadas. Quando escrevo, tento ser eu mesmo na exacta dimensão que o tempo me permitiu alcançar, apesar das permanentes interrogações com que me confronto. Apesar dos hiatos que sempre me surpreendem.

Uma vez por outra, numa qualquer encruzilhada imprevista, apercebo-me de que não estou só. O breve esboçar de um sorriso - ainda que inócuo - basta para captar a minha atenção. Sem ansiedade, mas sempre em equilíbrio precário sobre o fio da confusão. A distância torna-se inútil, suplantada que é pela trajectória do pensamento.

É então, mãe, que me apercebo do brevíssimo rumor do silêncio. Quando as palavras deixam de ser o eco da minha solidão e se multiplicam por aquelas que florescem nos canteiros da tua ausência.



29 de agosto de 2017

sweet surrender




Não me recordo de ter conhecido alguém que se tivesse subtraído aos mecanismos da indiferença, quando a voz de Tim Buckley, em piruetas quase histriónicas, ultrapassa os improváveis limites da lucidez. Ou da memória.

Não é necessariamente pela porosa inquietação das palavras. Não sei mesmo se será pelo definitivo amanhecer do silêncio na projecção dos relógios. O que me parece evidente é esta perturbante incapacidade de traduzir o inexplicável.

...

Aqui, mãe, no envelhecer das paredes muito brancas, não tenho com quem partilhar a feliz lentidão do teu sorriso que continua a confundir-se com a frágil interjeição do sossego. Com a antiquíssima geometria do tempo.

Aqui, entre os sonhos e o canto da cotovia, apenas a música me acompanha na viagem através dos lugares por onde escorre a saudade. A solidão!...



28 de agosto de 2017

da conjunção dos relógios




Foram muito raros os momentos em que a música se transformou em objecto de partilha. Brevíssimos instantes que se reflectiam na corola do silêncio.

Quase sempre em harmonia no limiar do sossego, as palavras e os sons nunca deixaram de ser uma tarefa solitária. Um jeito único de conjugar o crepúsculo com o soletrar de um sorriso.

Hoje, mãe, com as aves já aconchegadas nos beirais e o anoitecer a alargar-se pela lucidez da saudade, os relógios, como se tivessem regressado de um imenso torpor, voltaram a projectar-se no adolescente despertar de uma alegria tão perfeita como a cor do teu olhar.



27 de agosto de 2017

antagonismos




Quando ainda imaginava que os ideais se perseguiam no desatar das palavras que eu mesmo gravava na morfologia do vento, não creio que houvesse imaturidade na busca quase impossível de uma amizade para além das estórias.

Muito escassos, os indícios deixavam antever uma tarefa em que a persistência parecia ser a ferramenta mais eficaz, tendo em conta as interrogações suscitadas pelo acumular das dúvidas. A verdade é que, na adolescência, não é fácil conjugar a determinação e a paciência. Dir-se-iam patamares inconciliáveis na construção de um futuro obviamente pantanoso.

Ainda assim, durante algum tempo - muito curto para a dimensão da tarefa - fui apenas um viajante a partilhar o silêncio, naturalmente indeciso entre o esboço de um sorriso e o atravessar dos limites do desassossego.

...

Agora, mãe,  simples reflexo da solidão prometida, transformei-me num passageiro do efémero que, não obstante, recusa  a inevitabilidade dos erros. Talvez tenha à minha espera a derradeira oportunidade de restituir ao presente as memórias capazes de multiplicar a alegria pela eternidade daquele abraço que nos uniu. O nosso último abraço!...



26 de agosto de 2017

resíduos




Tanto tempo que passou, mãe!... Os anos, em todo o caso, tornaram-se artesãos da distância e, muitas vezes, da indiferença.

...

Habituei-me à sua presença, quase sempre num dos recantos menos óbvios da velha escola. Aquele recanto na fronteira entre o muro e o silêncio. Ali, longe dos atalhos da rotina, à margem da própria cumplicidade, dir-se-ia o reflexo de uma maturidade que lhe acentuava os traços.

As escassas palavras que trocávamos, assemelhavam-se, ainda assim, à surpreendente visão de uma serenidade que se confundia com a incerteza dos passos e dos caminhos. Uma vez por outra, quando os nossos sorrisos se encontravam, parecia-me adivinhar nele uma vontade clandestina de desafiar os limites do corpo e deixar que os sonhos se libertassem das teias que os envolviam.

Separámo-nos!... Quando reapareceu, quase indeciso, quase receoso, não tive dificuldade em reconhecê-lo. No olhar a mesma adolescente melancolia que os relógios não macularam. Os gestos, em frágil harmonia com o entardecer, projectaram-se nos pacientes resíduos da memória.

No outro lado do espelho, onde a saudade se multiplica pelo vazio, o mesmo rosto de sempre, apesar da solidão. E passámos pelas horas, como quem se revê no vagaroso ofício da juventude.



25 de agosto de 2017

entre o silêncio e o vazio





A oração não é aquele momento em que consigo libertar-me e fugir. É, sim, o instante em que o espírito se une à minha fraqueza e me dá forças para abraçar o próprio inferno, isto é, aceitar aquilo que me esmaga - aquilo que é maior do que eu e não consigo explicar. Aceitar aquilo que se abate sobre mim sem que eu possa alterar.

A maior parte da nossa oração é vazio e silêncio, não nos iludamos!...

...

Queria falar contigo!... Dizer-te, talvez, que continuo aqui no mesmo lugar onde as nossas palavras se confundiram com o projecto de um futuro que nunca visitámos. No mesmo lugar onde se instalou esta distância que nos separou para além da própria memória.

Queria, se calhar, que percorrêssemos as inevitáveis coordenadas deste silêncio que desceu sobre as letras do teu nome, quase como se os meus olhos jamais se tivessem demorado à sombra do teu sorriso - como se nunca tivéssemos partilhado aquela espécie de alegria que, todavia, acabou por sobreviver à indiferença dos relógios.

Queria ser capaz de te explicar como foi que todos os meus caminhos acabaram por me conduzir à fronteira do teu corpo. Exactamente como no dia em que os degraus nos impediram de mergulhar na intangível nudez de um segredo que não foi possível guardarmos.



24 de agosto de 2017

nas teias do imprevisto




Setembro já não demora no virar dos calendários. Com ele vem o outono e a transparência dos dias. Um passo mais no desordenado galope de um futuro já esquecido. Quase nada, na sequência do vazio, permite perspectivar o rumo dessa nova realidade, O tempo, de resto, na inútil trajectória do absurdo, não parece ser capaz de materializar os gestos e os sorrisos.

Já antes, num inesgotável hiato entre os sonhos e a memória, se esboçaram os primeiros sinais deste aproximar de uma estória que passou a ser-me indiferente. O silêncio, contudo, mais uma vez procurou refúgio no anoitecer das palavras, como se os caminhos fossem intransitáveis. Como se a saudade não coubesse na projecção do olhar.

Agora, mãe, a contas com a prometida erupção da tristeza, vou-me aproximando do crepúsculo quando as horas teimam em soletrar o sossego. Talvez seja esse o único desafio: partilhar os retratos da tua ausência para, depois, me reencontrar para além da melancolia.



23 de agosto de 2017

mutação




Há agora na espessura da solidão, os primeiros sinais de cedência face à obstinação das sílabas que se prolongam pela surpreendente nudez do silêncio.

Os dias vão sendo preenchidos pela percepção da saudade. Pela contínua explosão dos sinais que permitem antever os contornos do sossego. As horas, por vezes, tornam-se menos densas e, mais fluidos, os gestos reflectem-se no amanhecer de um sorriso.

Enquanto escrevo, mãe, apercebo-me do antiquíssimo cheiro do feno e da quase lúcida harmonia entre a música e as parcelas da memória. Não é certamente por coincidência que, mal o crepúsculo se aproxima da geometria dos relógios, os teus dedos vêm afagar a iminente desordem dos meus cabelos.

...Que os nossos olhos se projectam no ocaso das palavras.



22 de agosto de 2017

para memória futura




Era o vazio. Um espaço indeterminado entre as sombras e o silêncio. Não me recordo muito bem do que aconteceu nesse dia, mas sei que, de súbito, as nossas palavras deixaram de ser o reflexo das metáforas para se projectarem no amanhecer da alegria.

Lentamente, aproveitando a vagarosa geografia dos relógios, fomos atravessando os argumentos que se aconchegavam no dedilhar do tempo. É bem capaz de ter sido então, mãe, que iniciei a aprendizagem do sorriso que não demorava a subir-te ao olhar!...

...

Descubro-me agora no envelhecer dos gestos que costumavam adormecer à beira do sossego. É através deles que os sonhos se denunciam e se destroem, mas, de uma forma ou de outra, os meus passos adquiriram uma espécie de segurança que lhes advém do exercício da paciência.



21 de agosto de 2017

decididamente




Por vezes - não muitas - percorria-te o rosto uma certa angústia perante os equívocos de um futuro sem grandes perspectivas. As dúvidas principiavam a condicionar-te a vontade e a limitar-te a capacidade de sonhar.

Depois, mãe, foi-se tornando cada vez mais lenta a tua disponibilidade no reconhecer da alegria.

Por mim, se me escondo no lado menos apetecível do silêncio, não faço mais do que avaliar as possíveis opções de cada novo caminho. De todos os caminhos que vou rejeitando. As trajectórias quase sempre indefinidas dos passos que se arriscam através do desconhecido.

A saudade - ainda que com outro nome - mais do que traduzir as interrogações do olhar, é o reflexo consciente, ainda que inseguro, da minha memória. Apenas dela.



20 de agosto de 2017

ensaio sobre o desencanto




Os sonhos reflectem-se na geografia das memórias que, mais tarde, hão-de traduzir-se na explicação da alegria. Em todo o caso, nem sempre a realidade se transforma a partir das perspectivas mais lúcidas.

Só muito raramente as palavras foram o produto do meu desencanto. Quase sempre me surpreendi pela forma como se articulavam sobre o vazio e sobre a indiferença que, necessariamente, me levam a percorrer os caminhos que conduzem à solidão. Não que os monólogos alguma vez se tivessem incompatibilizado com a hipótese de um futuro por esboçar, mas, sobretudo, porque sempre me senti um estranho na obtusa trajectória do olhar.

Desde sempre, mãe, te encontrei em todos os lugares que me propus partilhar com as ilusões e com a inesperada acidez do silêncio - aqueles instantes em que nos reconhecemos no prolongar dos sorrisos. Eram, ainda assim, muito ténues os sinais e as circunstâncias, como se oscilassem entre a incerteza e o deslumbramento.

Hoje, porém, de uma forma que continua a opor-se à própria racionalidade, os calendários vão-se sucedendo em harmonia com as tardes de agosto, contornando os obstáculos e multiplicando os gestos pelo cheiro da saudade.



19 de agosto de 2017

(varekai) em qualquer lugar




Revejo-me na quase clandestina dimensão da sala e no vagaroso aconchego da noite. Apenas a luz do silêncio percorria os retratos da memória.

Mais do que o reflexo da alegria, os sorrisos faziam parte da súbita tranquilidade que principiou a esboçar-se sobre o vazio e a escalar os muros da solidão. Deliberadamente escassas, as palavras limitavam-se a sublinhar o deslumbramento que poisava no olhar. Que se alargava pela geografia dos sonhos.

Como se fora uma criança a soletrar as sílabas do sossego, ali fiquei alheio ao ofício dos relógios - escassos momentos, mãe, que se multiplicaram pelo adolescente rumor da saudade. Transbordante, é certo, mas, talvez por isso, quase à tona de setembro. Da perfeição!...



18 de agosto de 2017

âncora




...Mas o mesmo se pode dizer do encontro (ou do desencontro) com os outros.

Só encontramos verdadeiramente aqueles junto dos quais fundeamos a nossa âncora, empregando o tempo necessário à escuta, à atenção e à surpresa. O não parar é uma forma de fuga ao encontro mais profundo connosco mesmos e com os outros.

...

Talvez um simples sinal - um qualquer!... Talvez aquele jeito muito próprio que o silêncio tem de escorregar pela melopeia dos espelhos. Talvez o outono a sublinhar o amanhecer das palavras ou, para melhor dizer, a antiquíssima lucidez das abelhas.

Por vezes basta um sorriso. A transparência de um olhar a irromper da memória. O adolescente reencontro com os vagarosos mecanismos de um retrato ou, se calhar, com o gesto apenas pressentido na projecção dos degraus. Na hesitação dos passos.

Uma certa forma de prolongar o futuro pela geometria dos corpos já distantes do tempo em que os sonhos se arrumavam no outro lado da noite. Na sonolência dos relógios que, então, ainda não eram o envelhecer do desejo. Talvez não seja mais do que um passeio rente aos atalhos da alegria.



17 de agosto de 2017

contacto




Apercebi-me, ao acordar, da noite prestes a reflectir-se na dimensão do silêncio. Uma noite de privilégios - raríssima na concepção do absoluto. Nos meus olhos, mãe, permanecia o sorriso que se prolongou pela trajectória do sonho do qual acabara de regressar.

Àquela hora, as palavras eram uma sucessão de memórias, como se a luz se alargasse pelo meu pensamento. Pela constatação da minha incapacidade em garantir-lhes fluidez. Objectividade!...

Fosse eu poeta e, por certo, não me confrontaria com a culpe e o desencanto. Ser-me-ia bem mais simples a conjugação dos versos. A articulação do talento e da alegria. Esta, no entanto, é uma manhã diferente - uma manhã em que a solidão deixou de rilhar a eternidade.



16 de agosto de 2017

sobre o futuro




As mãos desertas como se a madrugada continuasse a ser a projecção da memória. Como se o silêncio não reflectisse a ausência de perspectivas. De recordações.

Não se trata apenas de confirmar a previsível extinção das espécies. Na realidade, mãe, o futuro antevê-se muito mais angustiante - um vazio que vai crescendo no apodrecer dos caminhos. Os mitos e as lendas acabarão vítimas de uma inteligência oblíqua que se prolonga pela ignorância.

O tempo deixará de medir-se na exacta dimensão do olhar e, então, todas as raízes serão inúteis. Nenhuma palavra restará para definir a ternura. O coração, esse, passará a ser o inevitável retrato da indiferença.



15 de agosto de 2017

das paredes da memória




Somos um para o outro, no prolongar da saudade, a substância da alegria e a textura do silêncio. Os dias não se limitam à enviesada coreografia das horas. As palavras, por vezes, misturam-se com o sussurrar das searas, porque foi no olhar que a ternura se instalou.

Aquele caminho que não chegámos a percorrer, desenhou-se nas paredes da memória, como se fosse o retrato de um futuro por construir. O teu sorriso, mãe, reflectiu-se nos sonhos e nos espelhos, ao mesmo tempo que preenchemos a distância que nos separava do tiquetaque do sossego.

Falta-nos compartilhar o envelhecer das estrelas. Falta-nos compreender a consistência da eternidade.



14 de agosto de 2017

paz de espírito




Pouco se sabe dessas metáforas com que a solidão gosta de nos surpreender. Elas são tão discretas que, na maior parte das vezes, apenas o imprevisto as reconhece.

...

Vi-te chegar, mãe, quando o crepúsculo principiava a escorrer pelas paredes e a desenhar no silêncio os sinais da melancolia.

O teu sorriso deteve-se ali mesmo onde o sossego costuma aproximar-se da peregrina lucidez da memória. Tem sido assim desde que os meus sentidos tropeçaram no amanhecer da saudade - uma espécie de cumplicidade a multiplicar-se pelo infinito.

A noite é agora um pretexto para que uma carícia me suba ao olhar e, secretamente, se alargue pela serenidade das tuas palavras. Pela transparência dos meus sonhos. A beleza, por outro lado, deixou de ser uma abstracção. Posso tocá-la sempre que os meus lábios vão poisar no reflexo do teu rosto.



13 de agosto de 2017

um certo sorriso





Nestes dias em que vagueio pelo silêncio e pelo desconhecido, quando a saudade vai correndo as persianas sobre o meu próprio desencanto, são os pássaros que convocam as palavras onde os sonhos se reflectem.

Daquele tempo em que - ainda adolescente - aprendi a reconhecer-me na transparência de cada sorriso, recupero os segredos que me povoam a memória, enquanto nos meus olhos mergulha a lucidez de um quotidiano que se espraia pela orla do vazio.

Este que agora se completa, tem sido um tempo de surpreendente aprendizagem. Quase nada sugeria a aliança entre o espanto e a inflexão da alegria. A ternura, mãe, não basta para que a beleza - se alguma ainda restar!... - se materialize na transição para o crepúsculo, mas quando a noite cai sobre os relógios, é a brisa que reencontro no perfil da madrugada.



12 de agosto de 2017

frente - a - frente




Escrevo porque preciso de me entender. Creio que, desde muito novo, se gravou no meu subconsciente a noção de que não reunia os parâmetros que são comuns à humanidade. A principiar pela sociabilidade. Pela falta dela!...

Não tinha, então, esta perspectiva que se tornou evidente à medida que os círculos se acumulavam nos relógios. Era muito marcada a minha diferença, mas não me sentia marginalizado ou diminuído perante os outros. Ainda jovem, talvez em resultado do que, vulgarmente, se caracteriza como inocência, possuía uma surpreendente capacidade de tornear os obstáculos, por muito complexos que se me apresentassem.

Principiei a ler muito cedo - se calhar demasiado cedo - e, como bem sabes, mãe, fui construindo o meu mundo sobre alicerces de uma exigência superlativa. Pouco a pouco, fui-me dando conta de uma realidade em que não cabiam os ideais de que me alimentava ao folhear das páginas dos livros a que tinha acesso. A perfeição começava a germinar e a solidão depressa se anunciou.

Não tardou muito até, de uma forma espontânea, sentir necessidade de procurar as minhas próprias palavras, a fim de não me reduzir ao universo em que me refugiara. Por muito estimáveis que fossem os ensinamentos que recolhera. E foram-no!...

Um lápis e umas quantas folhas de papel, como já dei a entender, eram o meu único suporte face ao que sucedia no meu estranho dia-a-dia. A escrita acabou por se tornar numa projecção de mim mesmo, uma vez que, já então, me parecia desprovida de nexo a hipótese de comunicar com os outros. Seja como for, não tenho mensagens a transmitir e as minhas opiniões não reflectem, bem entendido, aquele espírito de universalidade intemporal tão comum aos grandes autores.

A tecnologia e o seu desenvolvimento foram, ao início, uma quase brincadeira. Um blogue, mais tarde, não me pareceu suficientemente apelativo, até ter descoberto um potencial mais vasto, capaz de conjugar a música com as palavras e, de certo modo, com a explicação do silêncio.

Será isto suficiente para que o entusiasmo se mantenha? Não sei!...



11 de agosto de 2017

das rotas e dos espelhos




Naquela metáfora que Kierkegaard criou e que nos serve de espelho, o navio foi tomado de assalto pelo cozinheiro de bordo e as palavras que se ouvem já não dizem nada sobre a rota, mas anunciam apenas o cardápio disponível.

...

Multiplicam-se os relógios pela poeira dos sonhos esquecidos na incerteza das algibeiras. Na ilusão dos espelhos.

Há, na inútil convergência das palavras, uma quase interdita juventude que, aos tropeções, se perde nos labirintos da memória. Há um resto daquele silêncio que já não se reflecte nas coordenadas do tempo. No anoitecer do olhar.

Os caminhos deixaram de conduzir à alegria dos gestos e ao reencontro da saudade que cabia na própria cadência dos passos. São apenas o melancólico estremunhar das promessas por cumprir. O inequívoco retrato da solidão.



10 de agosto de 2017

vírus




Escreve-se por necessidade, como afirmou Eugénio de Andrade numa velha entrevista a que tive acesso. Trata-se de uma abordagem demasiado abrangente, mas, no essencial, reconheço-me nela.

Escrever, na vertente que me interessa analisar, é um acto solitário, quaisquer que sejam os objectivos e as motivações. Não escrevo para ser compreendido, como creio que facilmente se depreende da forma como articulo as palavras ao longo de cada texto. Quase me apetece dizer que esta espécie de abstracção que vou tecendo, acaba por ser o verdadeiro fulcro do meu pensamento e, por via disso, tenho consciência de que a minha escrita é bem pouco linear. Por outro lado, os meus monólogos - é inevitável considerá-los assim!... - constituem a única alternativa às conversas que raramente mantenho. Por absoluta ausência de interlocutor.

Este blogue, cuja existência se reduz às margens da minha própria realidade, outra coisa não pretende para além de ser o reflexo das divagações em que me projecto. Poder-se-á argumentar que um lápis e umas quantas folhas de papel, bastariam para cumprir a tarefa, mas, essa, é uma tese que talvez venha a decompor noutra ocasião.

Seja como for, mãe, gostaria de me manter neste quase casulo que, todavia, não há-de conduzir à minha metamorfose.



9 de agosto de 2017

nesse lugar




Por vezes, enquanto escrevo, dou por mim a percorrer a linhagem das palavras que raramente proferi. Não que as tenha deliberadamente ignorado, ou me tenha tornado refém do meu próprio sossego, mas talvez porque o silêncio sempre me pareceu mais fiável.

Agora, na transposição para uma realidade fragmentada por múltiplos equívocos, quando a negligência vai preenchendo todos os cantos de uma certa uniformidade, prefiro manter-me afastado da tentação das janelas, optando por permanecer na quase rarefacção dos meus dias.

Não quero com isto dizer que me exilei na vagarosa geografia do vazio. De facto, mãe, ainda sou capaz de me entusiasmar com aqueles gestos - raríssimos, em todo o caso!... - que me desafiam a desatar a solidão, mas é preferível tentar interpretar o voo dos pássaros ou a lenta metamorfose de um sorriso.



8 de agosto de 2017

das lentas e translúcidas vogais




Os meus sonhos nunca foram uma evidência. Dou por eles escondidos no silêncio dos lábios refugiados na periferia da solidão, enquanto as palavras vão trepando pelos lentíssimos degraus da saudade.

Inúteis expectativas que o tempo arrumou na geografia da memória. Nunca lhes reconheci qualquer compatibilidade com os desígnios de quem se habitua com o óbvio. De quem se revela incapaz de subverter as regras. Os costumes.

Já não me demoro em busca dos vestígios da alegria. Agora, mãe, que aprendi a reflectir-me nos espelhos da tristeza, revejo-me na ausência do sorriso que se perdeu nos labirintos de uma adolescência quase translúcida.

Nada mais me prende aqui, a não ser as vogais de um equívoco deslumbramento.



7 de agosto de 2017

simplicidade




Enquanto o silêncio se enroscava a um canto da madrugada, os meus sentidos iam-se habituando aos sinais que a neblina projectava na vagarosa inclinação das horas. Poucas seriam as coisas capazes de superar a simplicidade de um sorriso surpreendentemente confiante face à indiferença. Face ao rumor da solidão.

Ali, mãe, naquele lugar à sombra da memória, era ainda o verão que se multiplicava pelas palavras que resistiam à paciente afirmação da noite.

Por que não permitir que as mãos se estendam em busca de uma alegria adolescente, quando a brisa se entretinha numa harmonia perpendicular ao cheiro da terra? Por que resistir à lucidez de um gesto que permite caminhar na direcção da eternidade?!...



6 de agosto de 2017

e perdura!...




O que resta do reflexo do silêncio, talvez sejam as vagarosas imagens de uma certa utopia ou, para melhor dizer, as adolescentes metáforas que se agitam sobre os sonhos quando a realidade se perde no caudal da fantasia.

São muito estreitos os caminhos onde a vida se projecta para além da memória. E perdura!...

Hoje, mãe, desenham-se nos relógios os raríssimos e, por isso, singulares retratos de uma eternidade que se escreve no vento e se liberta das margens da indiferença. Atravessando provavelmente a enviesada dimensão do vazio.



5 de agosto de 2017

dito desta maneira




Por vezes - mais do que me aconselha a razão - dou comigo a fazer contas ao vazio que se adivinha no tempo que vai chagar. A própria música com a qual me habituei a ignorar os parâmetros da rotina, mesmo essa, confunde-se agora com os sinais da melancolia.

Ainda que o crepúsculo seja propício à partilha dos afectos, o silêncio tem o peso da solidão que me condiciona os sonhos e me afasta da alegria. As palavras parecem-me inúteis e, não raramente, sinto-me incapaz de um simples gesto ou de compreender os contornos de um sorriso.

Talvez não deva preocupar-me excessivamente com a geografia da memória. Com os argumentos da indiferença!... O que sei, mãe, é que a angústia já se projecta sobre a minha vontade e as sombras não me permitem acompanhar a cadência dos meus passos.

Que fazer, então, com esta tristeza que vai preenchendo os meus dias?



4 de agosto de 2017

dos umbrais e do silêncio




Desce por vezes sobre o lago uma nuvem húmida, esbranquiçada, mas ele é quase sempre descoberto como um pensamento obstinadamente límpido. De todos os lugares da Terra onde se pode escutar o silêncio, nenhum é como aquele.

Quando nos metemos num barco até ao centro do lago e, de repente, os motores se desligam, sentimo-nos a flutuar dentro de uma ausência que é a mais incrível das presenças. Compreendemos então que nunca antes havíamos escutado o silêncio, nem visto como ele tem a forma de uma fenda ou de um umbral.

...

É assim que a noite desce sobre os retratos. Sobre o quase imperceptível fluir dos lagos!... É assim que o silêncio se reflecte, transparente, no vagaroso halo da solidão.

Porque nada mais consegue sobreviver à espessura do vazio que se espraia pelo tiquetaque de um futuro que se confunde com as estremas no prolongar desse tempo à beira da memória. À beira do esquecimento.

As palavras, então, multiplicam-se pelo sussurrar de um sorriso inseparável da geometria do olhar. Apenas elas podem projectar-se na ausência dos caminhos. Na lentidão das candeias.



3 de agosto de 2017

da saudade ou da ternura




Pode ter sido o reflexo da ternura, ou o receio que se multiplicava pelos teus gestos. Talvez aquele sorriso com que continuas a preencher todos os recantos da minha memória. O que quer que tenha sido, rasgou o desencanto das palavras. A própria indiferença das vozes.

Depois, mãe, quando os teus olhos inquietos se detiveram nos muros do silêncio, as interrogações já tinham deixado de fazer sentido.

Foi como se o tempo se tivesse recordado da alegria. Como se houvesse uma só certeza na definição dos afectos. Não me recordo de alguma vez me ter dado conta desse jeito com que afugentavas a minha solidão. Era cedo para reconhecer o discreto cheiro da saudade.



2 de agosto de 2017

laços de sangue




Ainda hei-de aprender a impedir que a surpresa se demore no meu olhar quando me confronto com o imprevisto ou, melhor, com a turbulência dos dias. Com os pacientes trejeitos da indiferença.

Muito haveria a dizer sobre a saudade. Muito haveria a dizer sobre o vazio. Interrogar-me, talvez, sobre os parâmetros da utopia. Se o fizesse, contudo, seria como se tivesse deixado de compreender a singular transparência do teu sorriso.

Há sempre, mãe, ainda que no lugar mais improvável da memória, uma chave capaz de conjugar a alegria com a gloriosa substância do silêncio. Tu sempre o soubeste!...



1 de agosto de 2017

xfm (na morte de sofia morais)




A música foi o traço de união entre os sonhos e a projecção do futuro. Por vezes, na inquieta abstracção do dia-a-dia, quando o silêncio costumava converter-se na substância de todos os desafios que se adivinhavam, era aquele o refúgio onde me libertava da confusão. Do vazio.

O contacto com a realidade de uma imensa minoria, permitia que o pensamento se fosse alheando da convergência dos ruídos e das teorias instaladas. Curiosamente, porque o contraste era enorme, não foi um tempo de grandes cumplicidades, nem, de resto, os passos se conjugaram na intersecção dos sorrisos. Dir-se-ia ser bastante a viagem através da imaginação. Através da solidão.

O fim, em si mesmo, não foi uma surpresa. Foi - isso sim!... - a constatação dos anticorpos provocados pela diferença, qualquer que seja a sua expressão. Pela perplexidade. Pela intolerância face ao desconhecido. Pelo medo da subversão da memória.



31 de julho de 2017

estranha vigília




Voltei a percorrer os velhos caminhos que, antes, não se ajustavam às rotinas da cidade. Então, os pinhais e o silêncio preenchiam cada parcela dos meus sentidos, como se nada mais existisse à luz dos horizontes.

Revi o velho casarão onde a tia Maria se projectava em cada canto. Se adivinhava em cada sombra!... Está vazio agora, com as paredes em equilíbrio instável sobre a memória. E a eira, enorme, já infestada por uma espécie de desencanto que destruiu a alegria das antigas desfolhadas.

Todas as coisas se despojaram do fascínio que transbordava dos gestos e dos sorrisos. Ou talvez seja eu, já a contas com os sinais de uma melancolia em progressão contínua. Seja como for, mãe, não vou deixar que os meus sonhos se percam na indefinição das horas. Na penumbra da indiferença.



30 de julho de 2017

angústia




Sobre os caminhos de uma adolescência que a memória conservou, não foi apenas o vazio que deixou a sua marca. As próprias sombras estão diferentes - nada as separa do abandono.

Quando recordo o tempo em que os meus passos se reencontravam no prolongar dos sonhos ainda jovens, refugio-me quase sempre nas palavras que vieram a determinar o perfil do silêncio que aprendi a soletrar. Por que foi que me perdi, mãe? Por que foi que se quebrou a lucidez da alegria que julgava indestrutível?!...

Sei que os meus dias nunca tiveram a transparência do orvalho. Talvez seja por isso que se alargou a angústia que vai resistindo aos equívocos da distância. A saudade, por outro lado, não interrompe o seu processo de desconstrução.



29 de julho de 2017

a presença das formigas




Caía a tarde daquele dia em que o sol principiava a revoltar-se contra a cinza e a chuva de um inverno rigoroso. Quase severo!... Recordo a fila interminável que as escadas iam despejando numa rotina mecânica ou, melhor, deliberada.

Por curiosidade - não por desdém - entretive-me a perscrutar os rostos dos que se entregavam à perversão de um bocejo. Ingenuamente, mãe, talvez com a esperança de antever o esboço de um sorriso ou, em alternativa, um anónimo desafio face ao conformismo. Face à vagarosa sustentação do vazio.

Depois prossegui o meu caminho. O comboio não demoraria a partir para longe daquele carreiro sem alma. O oposto, por assim dizer, do laborioso e determinado dia-a-dia das formigas.



28 de julho de 2017

viagens




...Mas as verdadeiras viagens são aquelas que nos entusiasmam e iniciam no regresso a nós próprios, sem o que a viagem é só dispersão e, em vez de conhecimento, um amontoar ruidoso e desconexo de experiências em vez de sabedoria.

...

Havia o muro - aquele muro perpendicular à vagarosa simetria das amoras. Dir-se-ia que o silêncio amanhecia no aconchego da esconsa lucidez de uma janela para aquém do tempo. Para aquém do muro e da memória.

Havia a transparência dos sorrisos que se reflectiam no reencontro com a alegria dos calendários. Agosto era, então, a discreta passagem para esse lugar tão perto da rugosidade dos sonhos. Um lugar que deixou de se prolongar na distância e no olhar.

Havia os amigos e havia a inadiável perspectiva do regresso. Uma certa forma de percorrer todas as perguntas. Todas as estórias que já não se repetem porque, para além do muro, restam apenas os alcatruzes abandonados na projecção do vazio.



27 de julho de 2017

com as gaivotas




Já por lá andavam as gaivotas. Manhã cedo - manhã após manhã - as pegadas conduziam-me até àquela enseada onde o silêncio não ousava permanecer.

Pouco a pouco, elas habituavam-se à minha presença e, por momentos, deixavam que eu me afeiçoasse à claridade de cada dia que principiava. Depois, à medida que o sol se espreguiçava e se prolongava pelo dorso das águas, partiam em direcção aos barcos que regressavam, trazendo no convés prateado os vestígios da noite e do suor.

Foi assim durante algum tempo, mãe, como se estivesses junto a mim no brevíssimo instante entre a partida das gaivotas e a chegada da gente que se apossava do espaço e das memórias. É assim que vou continuando, tentando manter-me atento ao estrebuchar das circunstâncias, não vá acontecer que os meus olhos se atravessem na imensidão dos teus.



26 de julho de 2017

no rodapé da saudade




Posso, finalmente, aguardar a chegada do crepúsculo para contemplar o rosto do silêncio. O tempo, mais do que limitar-se a coleccionar as horas e os sonhos, foi desenhando os traços da melancolia que me acompanha na aprendizagem da saudade.

É verdade que, nesta caminhada, foram sempre as sombras da solidão que se impuseram à determinação dos meus passos. As próprias palavras entretiveram-se em monólogos surdos e sem substância. Incapazes de definir a trajectória da alegria, porque não se demoram no anoitecer dos búzios.

Às vezes, mãe, quando a mágoa e o desalento se reflectem nos meus olhos, procuro desafiar a estrutura dos monossílabos e da indiferença. Tudo porque tu continuas a marcar a cadência das manhãs e é nelas - apenas nelas!... - que reencontro a transparência do teu sorriso.



25 de julho de 2017

cantilena




Procuro o silêncio das madrugadas de agosto, quando o vazio não passava de uma abstracção anódina. Um tempo em que o futuro me parecia tão longínquo como a própria explicação da melancolia.

Os monólogos, contudo - aqueles que me limitava a protagonizar - foram-se prolongando através da minha própria insegurança. Da minha própria solidão!... Os meus gestos tentavam conjugar-se com a aventura dos meus lábios, mas apenas foram capazes de se perder nos labirintos da distância.

Cansado, mãe, vou alinhavando as sílabas que principiam a escassear. Resta-me o exercício da complacência porque, agora, as horas mais não são do que a trajectória do abandono.



24 de julho de 2017

poema com lágrimas




É o vazio que se atravessa nos caminhos da solidão, embrulhado na turbulência das palavras que jamais se pronunciaram. Na incompatibilidade dos sonhos com a interminável violência dos espelhos.

Fazem-me falta o sossego do teu olhar e a transparência do teu sorriso. Sem eles sinto-me frágil - demasiado frágil perante as lágrimas que se reflectem na explosão do silêncio!...

Por quanto tempo poderei resistir a esta mágoa que não tenho como iludir? Sem ti, mãe, perco-me no desassossego do meu próprio labirinto, exactamente quando a noite e a loucura se projectam sobre a eternidade.



23 de julho de 2017

jogos de sedução




Recordo os teus gestos, mãe!... Lentos, a sublinhar a transparência do sorriso que enchia o meu olhar. Recordo-os na secreta geometria dos retratos.

No aconchego do tempo que partilhámos - mesmo naquele que ainda  não era a memória do silêncio - as nossas palavras entretinham-se em jogos tão pueris que resistiam ao pressentir da penumbra.

Foram tão escassos os dias em que estivemos tão perto da alegria que, quase sempre, dou por mim a tentar recuperar a inocência e a deixar que os meus dedos se passeiem pela saudade que se confunde com o branco das paredes. Com a madrugada para além das persianas.



22 de julho de 2017

segredos




Não fora o silêncio que se espraia pela memória dos dias despovoados e os passos dir-se-iam senhores dos relógios e da distância. O tempo, contudo, já se apoderou daquela ternura que, fatigada, se refugiou na geometria dos sonhos.

Hoje, mãe, prisioneiro do abraço que não te pude dar, ainda creio na transparência das madrugadas, porque, na verdade, tu continuas a adormecer na solidão dos meus olhos.

Talvez seja por isso que me mantenho à margem da lucidez das palavras a que, outrora, me afeiçoei. Aqueles dias em que a alegria me parecia ao alcance de um só gesto, deixaram de preencher a minha inquietação, para se misturarem com a inevitável penumbra da indiferença.



21 de julho de 2017

no prolongar dos beirais




Eu sou quem existe para/ pensar em ti quando fico sozinho/ ou de noite acordo,/ eu sou quem deve esperar, seguro de voltar a/ encontrar-te,/ eu sou quem deve cuidar de te não perder para/ sempre.

...

Não é ainda a memória das searas de agosto, quando os sonhos se encavalitavam nos muros do silêncio. Não é a saudade das estórias que guardei nas gavetas de um sorriso ou, melhor, na solidão que atravessa os meus próprios passos.

Talvez seja o cansaço destes dias que adormecem à beira de uma adolescência que apenas sobrevive na periferia dos retratos. Na insensatez do vazio que se projecta na lentidão dos meus gestos.

É, se calhar, o meu jeito de enfrentar a inquietação dos espelhos ou, então, de me demorar junto à migração das andorinhas cujos ninhos já não se distinguem no prolongar dos beirais. É a peregrina vocação dos monólogos com os quais me liberto do apodrecer do futuro.



20 de julho de 2017

os donos da verdade




Multiplicam-se como se a urgência lhes alimentasse o desejo. Utilizam as palavras como instrumentos de uma certeza construída sobre o vazio dos gestos que não sabem distinguir a lucidez em que se refugia o silêncio.

Quem não se confrontou já com a negligência com que esgrimem a impaciência das metáforas? Com a incaracterística vocação dos lábios onde se misturam a cegueira e a surdez?!...

Muito se poderia dizer, mãe, sobre a intolerância, mas a indiferença já por aí anda a suplantar a vontade de partilhar os esparsos vestígios da melancolia. Entre a indecisão e o desencanto, crescem agora as sementes do abandono.



19 de julho de 2017

o triunfo e a derrota




Sobre o silêncio se diz que é eloquente. Não é fácil, porém, entender os sinais que o identificam com a substância que se derrama sobre a insensatez das palavras. Quase nunca os seus desígnios são transparentes.

No desordenado galope dos dias, dir-se-ia que a saudade se esgota na definição dos passos e dos caminhos que não são o reflexo de uma escolha à beira da lucidez.

O triunfo e a derrota, mais não são do que argumentos a que falta coerência. São condicionalismos que amarram o inconsciente às suas próprias hesitações. São muito antigos, mãe, esses conceitos com que se ferem os sonhos e se destroem as memórias. Os mesmos com que se rasga o futuro.



18 de julho de 2017

apenas um dizer




Sento-me na periferia da solidão, onde as madrugadas se confundem com a inclemência do inverno e o silêncio mal se distingue das estrias do desencanto. Até a música me parece menos óbvia - mais dispersa pelos atalhos da indiferença.

Muito haveria a dizer, mãe, da penumbra que se abateu sobre os imprevisíveis traços do futuro, mas as palavras deixaram de ter a fluidez que as protegia do cheiro da tristeza. Já quase não sei tecer-lhes os contornos.

Os dias são agora muito breves e, ao mesmo tempo, desoladoramente próximos da substância do vazio. Nem um sorriso emerge do exíguo caudal da alegria. As horas, por outro lado, vão-se esgotando na insensata vertigem dos calendários.