22 de novembro de 2017

mudar o mundo




Pouco a pouco - pé ante pé - vou-me aproximando do sibilar do silêncio, com a convicção de que a distância não deixa de se multiplicar pelo vazio.

Lembro-me do tempo em que costumava percorrer os caminhos onde o orvalho permanecia para além do desassossego das searas. Caminhos que, agora, são rasgados pelo vaivém da solidão. Já então, porém, me afastava dos sorrisos que se aconchegavam nas esteiras do conformismo.

Hoje, mãe, quando apenas os meus sonhos se reflectem nos adolescentes flancos da memória, não ignoro - porque a isso me conduz a realidade - esta irrecuperável sensação de marginalidade perante o mundo. Perante a indiferença dos calendários.

Os dias, entretanto, sucedem-se a um ritmo obstinadamente sincopado, como se nada mais restasse do que a alternativa de um futuro nas cartografadas linhas do destino.

21 de novembro de 2017

confiar




Às vezes tenho vontade de viajar através dos meus sonhos - aqueles que eu mesmo inventava quando os dias eram favoráveis ao despertar do silêncio - e não posso deixar de me surpreender com as trajectórias e também com os caminhos que foram sendo definidos, ainda que as expectativas nunca tivessem sido muito claras. Depois, penso nos contornos da solidão que ocupou o lugar das antigas ilusões.

Houve um tempo em que julguei ter-me reconciliado com a perspectiva do vazio. Um tempo em que nem a lentidão dos dias foi capaz de perturbar a confiança e a alegria com que aguardava o regresso das andorinhas. Podia ainda falar de outras coisas, mas receio perder-me nas estrias da minha memória. No desassossego desta penumbra súbita.

A distância, mãe - não obstante a passagem dos calendários - parecia-me incrivelmente pequena, já que podia sempre tocar-te na inadiável projecção do meu braço. Nada, então, se me afigurava susceptível de destruir a esperança naquela espécie de futuro bem mais do que previsível. Dir-se-ia que uma prematura e, se calhar, irrazoável maturidade se apoderara da minha adolescência, como se a realidade fosse, afinal, o reflexo óbvio de uma experiência inexistente.

Agora, porém, não quero invocar a saudade, muito embora sinta o sopro com que ela se atravessa no meu dia-a-dia. É o infinito que me proponho considerar - não é possível ignorá-lo depois de ter aprendido a soletrar a ternura!...

20 de novembro de 2017

o discreto murmurar de um sonho




O sono não chegava. Lentamente, as horas preenchiam as paredes por onde escorria a saudade, como se o silêncio se fosse apoderando da cadência do relógio. Lá fora, por outro lado, o luar era um desafio irresistível. Uma tentação irrecusável.

A cidade parecia deserta. Só as luzes se demoravam na copa das árvores adormecidas. Tranquilas, as ruas ignoravam a rotina dos semáforos e o ilusório sossego das esquinas. O brevíssimo murmurar de um sonho e o longínquo brilho das estrelas, reflectiram-se na periferia da memória. Paredes-meias com a utopia.

...

Deixei-me conduzir ao encontro da música que se escutava no outro lado da ternura. Na transparência de um outono adormecido. Subitamente, mãe, a meio caminho entre a brisa e a solidão, o teu olhar prolongou-se no meu. Um sorriso desenhou-se-te nos lábios. Doce. Muito belo!...

19 de novembro de 2017

muito mais do que isso




Pesavam-te nos ombros as memórias dos dias que espreitavam através das rugas que te marcavam o rosto. Nos olhos tristes, onde a saudade há muito ultrapassara o rumor da alegria, havia como que um apelo mal definido. Talvez o que restava do teu jeito de enfrentar a incerteza.

Bastou um gesto, mãe, para que o esboço de um sorriso muito tímido, quase imperceptível, se desenhasse nos teus lábios, ao mesmo tempo que duas ou três palavras - não mais do que isso - afrontavam o longo silêncio de um tempo para além da vida.

Se calhar, aquela passagem pela lentidão dos dias, bastou para que as recordações se multiplicassem pelas janelas translúcidas. O sossego, por fim, afeiçoou-se ao soletrar da paciência, enquanto os sonhos se libertavam da utopia e a realidade se reflectia no tiquetaque do vazio.

18 de novembro de 2017

...e as crianças




Apenas um gesto, como se o futuro desaguasse às portas da alegria e as palavras, inesperadamente lúcidas, se equilibrassem na sucessão dos dias até à chegada do verão. Até ao canto das cigarras. Depois, descuidadas, as crianças misturam-se com a poeira do tempo e com a claridade das manhãs sem vestígios de impaciência.

Ainda sem o peso da indiferença, os relógios habituam-se ao ritmo daquela espécie de eternidade que invade os caminhos onde a esperança se reflecte nas gotas de orvalho. Onde o silêncio principia  a confundir-se com a memória.

Não dura muito, mãe, esta sensação de regozijo e de liberdade que se multiplica pelas promessas de novos horizontes. Os sonhos, todavia, prolongam-se muitas vezes para além das rugas. Para além do cansaço.

17 de novembro de 2017

antónio lobo antunes dixit




O mundo fica tão despovoado quando morrem as pessoas de quem gostamos...!

...

Há outras noites e outros recantos para além do paciente restolhar do silêncio. As palavras, apesar da lentíssima perplexidade dos relógios, vão-se multiplicando pela enviesada geografia daquela espécie de vazio que sobrevive ao interminável esgar dos sentidos.

O tempo torna-se quase numa caricatura que resiste aos tropeções do olhar nas rugas que se acotovelam na superfície dos espelhos. Continuam a existir degraus, mas já não conduzem os passos à secreta interjeição da memória. À periferia de um sorriso.

A manhã, quando se ergue sobre as pálpebras e sobre a melancolia das paredes, já não é conivente com a transparência daqueles dias que se atravessavam entre agosto e o discreto voo das andorinhas. As abelhas, essas, deixaram de partilhar o azul do céu e a própria quietude das searas.

16 de novembro de 2017

o outro erro de descartes




Pode, talvez, parecer despicienda, mas a saudade é sempre uma evidência que se opõe ao "cogito..." de Descartes. Pode até não ter qualquer relevância face ao vazio que, apressado, por ela passeia a sua indiferença.

...E no entanto existe!

Sem ela, não obstante a abstração que resulta da modéstia que lhe é própria, quebrar-se-ia a harmonia de um espaço ou o imperceptível equilíbrio que se reflecte na arquitectura do silêncio.

Quantas recordações emergem da tua ausência, mãe!... Desta solidão que me acompanha.

15 de novembro de 2017

da ingenuidade




Sou, certamente, demasiado ingénuo - digo-o sem qualquer dificuldade!... De resto, creio que não deixarei de o ser. É uma coisa que faz parte de mim. Intrínseca. Uma coisa que não pode remover-se com recurso às competências de uma simples borracha e, com isto, não pretendo contestar a sua inquestionável eficácia.

Se me olho, porém, não me reconheço como alguém que confia abertamente naqueles que, por uma circunstância mais ou menos fortuita, acabam por se enquadrar nesta problemática que é o meu dia-a-dia.

Não me é fácil - tu sabes, mãe!... - construir possíveis canais de comunicação, susceptíveis de me fazer interagir com os outros. Isso, porém, não significa que me distancie deles. Ou que me auto-marginalize.

Considero-me, em todo o caso, suficientemente capaz de não cometer o erro de conversar sobre os problemas que possam surgir. Por outro lado, não desejo produzir quaisquer julgamentos de carácter, de cada vez que sinta necessidade de me refugiar no meu próprio labirinto.

14 de novembro de 2017

improviso sobre a saudade




Nem sempre a saudade se perspectiva nos parâmetros que sustentam a memória. Há, naturalmente, um propósito mais recomendável quando, através dela, se trata de entender o que está a montante da linguagem dos relógios, ainda que, com isso, não seja de subestimar a inquietação do olhar. Dos sentidos.

Hoje, mãe, ao considerá-la, é este novo caminho que me importa. Não tanto pelo facto de ter sempre como referência a muito frágil transparência do teu sorriso que se recorta no horizonte entre as areias e o crepúsculo, mas aquilo que verdadeiramente ele traduz: o reflexo da beleza ou, para melhor dizer, a lucidez da ternura.

Porque as palavras deixaram de ser necessárias!...

Aqui, onde o mar e o infinito se conjugam numa harmonia pacífica, é em ti que o meu pensamento se debruça. A tristeza, essa - quando chega - mais não é do que a consequência deste silêncio que nos rodeia.

13 de novembro de 2017

um passeio à luz dos teus olhos




Era um  breve instante entre a saída do alcatrão e a chegada do crepúsculo. As luzes mergulhavam nas sonolentas águas do rio cujas margens continuavam a ser a inesgotável ladainha dos carreiros invadidos por figurantes anónimos e sem memória, às voltas com as suas velhas rotinas.

Mais à frente, mãe, quando a música e a noite já se tinham prolongado pelo silêncio que crescia nos olhos e nas janelas - a saudade assemelhava-se ao inesperado caudal de uma interminável melancolia a desaguar nas veias da solidão.

Os meus passos, então, percorriam a imperceptível distância entre o sossego e as palavras onde os sonhos se demoravam. Como se fossem definindo os parâmetros do sossego, transpunham a fronteira que separava o rumor do teu sorriso e a oblíqua turbulência dos lábios. Ali mesmo, na estreita faixa onde o futuro se conjugava com o infinito, os horizontes deixavam de ser o reflexo da tristeza.

Desenhadas na súbita geografia do luar, as pegadas conduziam-me ao encontro do furtivo amanhecer dos búzios.

12 de novembro de 2017

rosebud




O que verdadeiramente se reflectia em Charles Foster Kane, era uma secreta e dificilmente perceptível sensibilidade transversal às suas recordações. Os génios, contudo, podendo ser objecto de admiração, não têm que ser mentores ou sequer modelos, ainda que as memórias possam, em ambos os casos, permitir o paciente folhear do silêncio.

...

Foi lá, mãe, que a vida principiou a desenhar-se. Muito mais do que na cidade, onde as esquinas costumavam inviabilizar qualquer tentativa de percorrer os sonhos e brincar com as estrelas. Às vezes - ainda agora - quando o desassossego se apodera dos meus dias, dói-me esta solidão de pássaros e de cores à beira da madrugada.

Pouco mais retenho desse tempo em que me habituei a correr lado a lado com a alegria, sem imaginar que as palavras iriam tornar-se retratos da brisa. Das searas. Do teu sorriso que se projectou no perfil das ilusões.

As sombras, enfim, despenharam-se sobre a melancólica quietude dos arrozais, enquanto me refugio no labirinto da minha própria saudade.

11 de novembro de 2017

equívocos e desencantos




Nada sei sobre este caminho, a não ser que o percorro com o secreto desejo de me reencontrar, talvez onde o silêncio se multiplique pelas minhas interrogações. Se calhar é por isso que o desassossego insiste em acompanhar-me e em partilhar comigo todos os seus equívocos.

Poucas são as coisas que parecem possuir consistência bastante para que os sonhos se projectem num futuro sem substância. A vida, mãe, assemelha-se cada vez mais a uma sucessão de perspectivas aparentemente interligadas, mas que, de facto, se limitam a ser remendos que estimulam a ilusão. O desencanto.

Que sentido pode extrair-se da incerteza em que navegam os sorrisos que se conjugam como meras abstracções?!... Não há dúvida de que os dias se reflectem na monotonia. Na indiferença que advém da própria rotina. A subversão da alegria é, por outro lado, o mais consciente dos obstáculos com que me confronto. Aquele que se intromete entre a inocência e a memória.

10 de novembro de 2017

o coração no sítio certo




Se a minha mãe viesse ter comigo durante a leitura e pedisse - «apaga a luz, é tarde» - eu, com o dedo levantado e expressão beatífica, replicaria - «a luz, sendo eterna e ilimitada, não pode ser apagada. Fecha tu os olhos!...»

...

Penso no vazio de palavras com que me proponho preencher todos os cantos da memória. Penso nelas - na falta que me fazem e no que desejo que elas digam - e, contudo, muito dificilmente me reconheço nestes retratos em que tento projectar-me.

Não sei, mãe, se alguma vez serei capaz de me prolongar pelo amanhecer do sossego ou, para melhor dizer, pela mansidão do luar que apenas se desenha na possibilidade dessas palavras a que não sei como chegar. Apesar deste outono pelo qual caminho.

Talvez nada mais exista para além da lentidão das horas através das quais os meus olhos se reencontravam com o brilho furtivo de um futuro improvável. Talvez acabe por me perder na transparência dos meus próprios sonhos ou, se calhar, talvez ainda possa escutar o marulhar do silêncio no outro lado dos espelhos. No outro lado das janelas.

9 de novembro de 2017

transcendências




Podia ser o silêncio. Podia ser uma ilusão. Não havia porém como ignorar o quase imperceptível murmurar das águas. Aquele brevíssimo rumor à beira da madrugada.

...

Desnecessárias, as palavras limitavam-se a permanecer na projecção dos sentidos. Na margem mais longínqua do sossego, onde a lucidez dos pinhais se confundia com o caudal da alegria.

Não sei até onde me levam os estribilhos da memória, mas, em todo o caso, atrevo-me a ultrapassar as barreiras da minha própria insegurança, ao mesmo tempo que me interrogo sobre a influência das sílabas que se multiplicam pela singularidade dos meus sonhos. Da minha imaginação.

Dir-se-ia que na translúcida simplicidade dos dias, não existem argumentos capazes de estabilizar as emoções. Como se o tempo pudesse perder-se nas páginas daquele livro eternamente adiado. Como se os sorrisos, mãe - os genuínos, como o teu!... - não se reflectissem nas engrenagens encardidas.

8 de novembro de 2017

outra vez




Não sei - não tenho como saber - o que teria acontecido se, em lugar de me enroscar no meu próprio silêncio, me tivesse reconhecido no reflexo do teu olhar.

Era então demasiado jovem e, nesse tempo, o futuro não passava de uma ideia suficientemente longínqua e abstracta para que a considerasse com objectividade. Para que a imaginasse em partilha. Em cumplicidade.

O gesto que não esbocei, podia ter sido o fulcro que me permitisse evitar a solidão anunciada, mas, talvez por conta de um receio quase difuso, acabei por me refugiar numa espécie de imobilismo sem sementes. Sem raízes.

Agora, mãe, que te acompanho no prolongamento dos meus sonhos, sinto que o desafio permanece e que, não obstante a ruína dos calendários, não me perdi do brilho do teu sorriso!...

7 de novembro de 2017

improbabilidades




Raramente surge alguém que faça com que a vida se assemelhe ao amanhecer da alegria. À tranquila  projecção dos retratos. Não é forçoso que reúna particularidades que lhe realcem os méritos. Certamente porque nem sempre é lúcida a comparação com os outros. Os que compartilham o mesmo espaço.

Pode ser, mãe, alguém cujo sorriso não se limite ao escorregar do vazio sobre as arestas da indiferença. Alguém que faça do silêncio o ponto de partida para a concretização de um sonho. A quem não baste ser o prolongar da memória. Ou da solidão!...

6 de novembro de 2017

o que há-de restar




Um dia, mãe, quando apenas existirem vestígios dos sonhos que fui soletrando com as sílabas de um futuro que não veio, ainda restarão os sinais deste silêncio. Breves, mas, em todo o caso coincidentes com as palavras através das quais se desenharam os gestos e os sorrisos.

Hoje, contudo, nesta madrugada que se prolongou pela saudade e pela imensidão do olhar, quis percorrer o caminho que me trouxe até à fronteira do sossego e descansar encostado aos contornos da incerteza.

Transparente, a manhã não tardou a anunciar a eternidade em que se reencontram os nossos passos. Que me preencheu os sentidos, muito antes da memória me ter surpreendido na contemplação dos pássaros. No atravessar das águas.

5 de novembro de 2017

marginal




A subterrânea cadência dos dias - de todos os dias - vai-se tornando cada vez mais propícia à uniformização dos gestos. Das palavras!... Como se a vida fosse, afinal, uma sequência de conceitos banais, os homens assemelham-se a réplicas abstractas de modelos sem alma. Privados de qualquer estrutura.

Não concebo a ideia de me submeter a parâmetros pré-definidos, desprovidos de racionalidade e de substância. Não concebo a inevitabilidade de me transformar em mais uma peça de uma hipotética cadeia de produção, cujo único propósito parece ser o de assegurar o futuro numa quase inexistente perspectiva de verticalidade.

Um ser humano não é, necessariamente, o prolongamento absurdo de órgãos e de vértebras dispostos em harmonia duvidosa. É bem melhor manter-me à margem de comportamentos plastificados que a mais não conduzem do que a uma inevitável castração mental.

Prefiro a solidão, mãe. Prefiro o confronto com o meu próprio silêncio.

4 de novembro de 2017

do olhar e da memória




Nesse tempo em que o silêncio e a confusão se equivaliam na perspectiva de uma adolescência muito breve, era em ti que me reconhecia, mãe!... Era a ti que recorria para preencher o vazio dos caminhos de areias moribundas.

Talvez tivesse sido por isso que a solidão nunca foi capaz de me impor as suas regras. Raramente me senti sozinho, não obstante as incompatibilidades com aquela espécie de equívocos que, desde cedo, me habituei a evitar. É verdade que, muitas vezes, não conseguia libertar-me do desânimo, porque os sorrisos não se identificavam com a enviesada geometria dos lábios.

Mais tarde, quando os alcatruzes do tempo nos fizeram experimentar a indiferença dos dias, aprendi a distinguir o sossego nos próprios flancos da memória. Lembro-me, contudo, de gostar de ti muito antes de saber que as palavras também amadurecem. Muito antes de compreender o que diziam os gestos.

Pouco a pouco, até a noite se fez cúmplice dessa alegria em que me reflectia de cada vez que reencontrava o vagaroso amanhecer do teu olhar.

3 de novembro de 2017

trajectórias




Preciso de jejuar, não posso evitá-lo, por não ter encontrado no mundo alimento que me agrade. Se o tivesse encontrado, pode acreditar, ter-me-ia empanturrado como todos os outros.

...

Deve ter sido no tempo em que a solidão principiou a projectar-se no silêncio do meu olhar. Talvez porque as palavras tenham deixado de se reflectir na fluidez da memória.

Talvez porque me tenha refugiado numa realidade que jamais se reconheceu na cadência dos teus passos. Foi esse, por certo, o tempo em que, lentamente, me fui subtraindo à trajectória de uma indiferença que se ia multiplicando pelo envelhecer dos relógios - o tempo em que te reencontrei no amanhecer de um sorriso. Nas adolescentes páginas de um livro sem futuro.

Fosse como fosse, a verdade é que nunca o teu rosto se definiu na embriaguez dos meus sonhos. No quase tumulto dos meus dias. E todavia, apenas tu sobreviveste à melancolia desse agosto que se perdeu na penumbra dos calendários.

2 de novembro de 2017

do insalubre tiquetaque do futuro




Fui crescendo sem verdadeiramente me aperceber da mudança, imperceptível mas precisa, com que se folheava o dia-a-dia. Como se, por um qualquer efeito de prestidigitação, tudo se assemelhasse ao insalubre tiquetaque do tempo.

De súbito, porém, dei por mim no outro lado da fronteira onde, supostamente, não tinham lugar os sonhos que foram, por assim dizer, o argumento capaz de me fazer acreditar numa ideia de futuro. Ainda que pouco apelativo!... Até onde a memória me permite esgaravatar, as perspectivas limitavam-se a condicionar-me os passos e os caminhos.

Hoje, mãe, já sem possibilidades de modificar o guião que me trouxe até esta realidade que se entretém a castrar anseios e consciências, restam-me os diálogos com o silêncio. Mesmo sabendo que estão menos pacientes os ponteiros da solidão.

1 de novembro de 2017

utopias




Só muito raramente a alegria se reflecte nas interrogações do meu dia-a-dia. Quase sempre a rotina se intromete nos atalhos que me prolongam através da solidão.

É por isso, mãe, que guardo nos olhos a transparência do teu sorriso e as inumeráveis partículas do silêncio e da memória. É por isso que te revejo na convergência da saudade, quando as palavras se reencontram no anoitecer dos relógios.

Basta-me, então, nada mais do que um instante para que ignore as confidências de um futuro que não desejo. Para que continue a debruçar-me no restolhar da incerteza.

31 de outubro de 2017

entre nós e o vazio




Àquela hora, naquele agosto, não fora a cadência sincopada do comboio, dir-se-ia que o silêncio se prolongava pela manhã ainda estremunhada. Uma quase neblina colava-se às janelas, antes do lentíssimo espreguiçar do sol.

Era o reencontro com a memória de uma carruagem discreta. Talvez lúcida, se é que a lucidez pode adequar-se ao infindável martelar na paciente geometria dos carris. Tentava concentrar-me nas palavras do livro a que regressava sempre que as árvores se reflectiam na lengalenga dos relógios. Estavas ali, mãe, sentada na projecção do meu olhar adolescente, como se me quisesses relembrar os secretos contornos do sossego.

Reparei no teu sorriso ainda antes de interromper a leitura. Antes de me debruçar sobre o dia que apenas principiava. A ingénua tentativa de ultrapassar as hesitações que se intrometiam entre nós e o desejo de sobreviver aos caprichos da rotina, teria, se calhar, conduzido ao insucesso. Não é em vão que a indiferença se torna incompatível com a alegria.

No final da viagem, a tua mão aflorou a fronteira entre o vazio e a displicente harmonia dos meus cabelos. No regresso, certamente, voltaríamos a multiplicar os minutos pelo interminável desafio da eternidade.

30 de outubro de 2017

até que a noite




Da saudade que se prolonga pela lenta combustão dos dias, retenho as estrofes em que o silêncio se perpetua e os versos se projectam na embriaguez dos sentidos.

Nunca tive outra casa para além da brisa que percorria a curva do teu sorriso. Para além dos gestos com que negociávamos o sossego e nos deixávamos arrastar pelo turbilhão da memória. O tempo, porém, já não é - talvez nunca tenha sido!... - o reflexo das estórias que me contavas. Reconheço-o apenas no soletrar das sílabas do abandono.

Agora que não te tenho comigo, mãe, os pássaros já não se entretêm à beira das nascentes. Os pinhais perderam aquela espécie de beleza quase etérea que me desafiava a prosseguir até à inútil geometria dos espelhos.

29 de outubro de 2017

quase segredo




Os teus olhos grandes de criança que se deixa envolver pelas estórias que vai inventando, estavam ali bem perto dos meus que teimavam em refugiar-se à beira do crepúsculo. Só a tristeza neles se mantinha, como se aguardasse por um sinal - talvez um gesto!... - antes da chegada do silêncio.

Tudo à nossa volta se reflectia na indiferença - essa realidade semelhante à geografia da distância. Como conciliar as interrogações com as circunstâncias que o desassossego nos impunha e que nos forçavam a ignorar a própria ternura?!...

Ali, mãe, no lugar onde a noite permanecia para além da solidão, só o espanto era tangível. Só a esperança continuava a prolongar-se pelos ténues indícios da memória que, naquele dia, quase em segredo, se tinha antecipado ao vazio das palavras.

28 de outubro de 2017

da subtil perspectiva dos besouros




Na superlativa concepção do absoluto, tudo parece projectar-se na procura - nem sempre lúcida - dos mecanismos do silêncio. Talvez porque nele se encontram os conceitos mais díspares. Mais susceptíveis de reflexão.

O certo, mãe, é que a felicidade, para além dos equívocos que preenchem o quotidiano, acaba por ser uma espécie de recurso dos que, fustigados pelas suas incertezas, se confrontam com o mesmo dilema que corrói as estruturas do vazio. Depois, existem as metáforas com as quais se reforça o equilíbrio instável prometido pelo brilho das candeias.

Não sei se é correcta a analogia com o medo da solidão. Em todo o caso, porque os dias tendem a assemelhar-se ao sonambulismo das palavras capazes de sustentar a penumbra, importa que a vida seja bem mais do que a passagem furtiva pela periferia da eternidade.

Os besouros, pelo menos, na instintiva rotina do seu voo, cumprem as regras do imprevisto. Da complacência.

27 de outubro de 2017

todos os dias




Enquanto procurei o meu tesouro, todos os dias foram luminosos, porque eu sabia que cada hora fazia parte do sonho de o encontrar.

...

Era assim no mês de agosto!... Uma espécie de silêncio que sublinhava o sossego das searas e a perfeição de um sorriso. Um sorriso que, porém, eu ainda não sabia traduzir porque aquele era o tempo de correr atrás do vento e de me reencontrar na penumbra dos pinhais.

Não era o tempo dos sonhos que, esses, só mais tarde reconheci na projecção do olhar onde cabiam o outono e a luz do sol poente. Era o tempo em que as horas se perdiam na incerteza dos passos. Na abstracção dos caminhos.

Os sonhos foram breves, quase fugidios. Quase desnecessários. De súbito, dei por mim a ignorar a textura das palavras, tudo por causa daquele sorriso. O teu sorriso, mãe!... Um sorriso que não demorou a reacender-se à sombra da minha memória. Um sorriso que preencheu todos os dias desta viagem que, agora, se tornou inútil.

...E, dia após dia, já não consigo rever-me nos espelhos de uma saudade que, todavia, é tudo o que me resta. Não esqueço que tenho o vazio, mas vou tentando ignorá-lo. Vou tentando prolongar-me na transparência de um sorriso.

26 de outubro de 2017

novelos




À medida que o tempo se desenrola do seu próprio novelo, reconheço-me na estrutura dos sonhos que se teceram na lucidez da memória.

Não foi simples, mãe, compatibilizar as mágoas e os poemas. Os projectos, por outro lado, acabaram quase sempre por tropeçar nos degraus da indiferença, longe das metáforas com que se projectam as perspectivas. Os ideais!... Ainda que inúteis, ultrapassados que foram os obstáculos, os objectivos articularam-se de forma a permitir que me habituasse aos parâmetros do vazio.

Os passos, esses, não hesitaram. Foi neles que se reflectiram os gestos. Que se definiu a loucura. Aparente, mas, em todo o caso, vagarosa.

25 de outubro de 2017

encruzilhada




Continuo a rever-me no despertar de um agosto que, ano após ano, se reflectia na trajectória de uma adolescência feliz.

Recordo-me, mãe, daquele caminho por onde descias até os nossos olhos se encontrarem. Talvez já então soubéssemos que o tempo não haveria de demorar-se na encruzilhada dos sonhos!... Pouco a pouco, porém, fomo-nos dando conta de que o silêncio se instalara lá ao longe, na lentidão dos pinhais. Fomo-nos descobrindo na periferia da memória.

Hoje já não tenho como andar contigo pela lucidez dos atalhos cúmplices da alegria, mesmo porque a distância passou a ser um factor irrecusável. Já não existe a ternura com que me olhavas no anoitecer das estórias. Sou, em todo o caso, o mesmo rapaz do campo, mas sem as palavras que sobreviviam à passagem dos calendários.

24 de outubro de 2017

o efeito das raposas




...Mas os teus cabelos são cor de oiro. Por isso, quando me tiveres cativado, vai ser maravilhoso. Como o trigo é doirado, fará com que me lembre de ti. E hei-de amar o barulho do vento através do trigo...

...

Foi no tempo em que as janelas se abriam para os sonhos que se reflectiam na transparência do orvalho!...

Quando agosto ignorava a agitação dos relógios - sobretudo então - as madrugadas penduravam-se nas hastes da alegria que, mais tarde, aprenderia a espraiar-se pelo ronronar do sossego. Depois, quando o silêncio se projectava através da utopia e se multiplicava pelas minhas ilusões, dir-se-ia que a memória se acendia no tumulto dos calendários.

De súbito, mãe, como se o tempo fosse arrancando as pétalas de um  poema, as próprias palavras hesitaram entre a fluência das vozes e o peso da solidão. O vazio, por outro lado, prolongou-se pela embriaguez dos passos ainda adolescentes. Pela rugosa geografia de setembro.

23 de outubro de 2017

da memória e dos retratos




Deles ficaram as palavras, ainda que o silêncio não permita confiar no vaivém do desencanto. Os rostos vão-se diluindo no correr dos calendários, enquanto a memória insiste na tarefa de os recordar para além do tempo.

Há pontes que se constroem na dimensão do olhar, ao mesmo tempo que se reflectem na essência de um sorriso quase ingénuo. Quase disposto a ultrapassar os equívocos. As interrogações.

Assim delineados na antiquíssima conjugação das cores, os retratos suscitam emoções irreais na ainda adolescente trajectória das fábulas. A saudade não é mais do que uma espécie de desafio que se enfrenta nas estradas do vazio, como se o futuro se tivesse perdido na abstracção dos dias.

Então, mãe, chega a vez de deixar que a tristeza se possa equilibrar sobre as ilusões. Sobre o absurdo. Ou talvez não - talvez seja apenas uma encruzilhada!...

22 de outubro de 2017

erros meus




Debruço-me sobre o estreitíssimo parapeito do tempo, de cada vez que o silêncio me confronta com as minhas próprias ilusões. De cada vez que me apercebo das pegadas sempre adolescentes com que fui definindo o caminho.

Apesar das marcas que deixam e dos inevitáveis retrocessos, os erros já não são o dilema que ameaçava transformar o futuro numa sucessão de equívocos. Na simbologia dos sinais, regressar ao princípio costumava ser um hiato perigoso na construção da alegria. Na partilha dos afectos.

É verdade, mãe, que as palavras ainda não se habituaram a relativizar os contextos. Isso, porém, não me impede de transformar em desafios os subtis contornos da perfeição. O perigo, se bem interpreto as minhas dúvidas, é o reflexo da solidão que espreita a cada esquina. Persistente. Insustentavelmente cruel.

21 de outubro de 2017

o longínquo canto de um pássaro




Estremunhada, a manhã atravessou as franjas da penumbra e tropeçou nos degraus de uma alegria difusa e já percorrida pela juvenil inquietação dos pássaros. Nas árvores que continuam a resistir aos sucessivos invernos, dir-se-ia ter principiado a cerimónia de um futuro ambíguo e, não obstante, em permanente construção.

Como se pretendessem avaliar a espessura do silêncio, os longínquos trinados de uma cotovia - foste tu, mãe, quem me ensinou a distingui-los!... - subiram dos canteiros do jardim até à própria explicação da saudade.

Nem sempre são assim, singulares, os sinais que antecipam a transformação dos dias. É preciso estar atento à lentíssima floração dos sorrisos, para compreender a transparência dos sonhos. Nem que seja pela quase inexistente dimensão de um instante.

20 de outubro de 2017

uma coisa sem importância




Quando lhe perguntam - «que veio aqui fazer?», ele responde como se isso não valesse coisa alguma: - «vim para ver, vim só para ver!»

...

Este é um tempo em que ninguém se aproxima da fronteira da memória. Um tempo em que nem sequer o silêncio parece reflectir-se nas palavras que se aconchegam no soletrar do outono.

Talvez, na verdade, tenhas vindo para isso - exactamente para te reveres na ausência dos pardais ou, se calhar, na melancolia dos jacarandás que já não preenchem os olhos das crianças. Que já não se debruçam no envelhecer do jardim.

Os dias deixaram de ser a projecção do teu sorriso que se refugiou na indiferença das estantes. Eu cresci. Tu não tanto!... Só muito raramente percorremos os mesmos sonhos. Às vezes, contudo, ainda nos reencontramos na ausência daquele lugar que já não é o nosso.

...E repetes como se, de facto, fosse uma coisa sem importância: - «vim só para te ver!...

19 de outubro de 2017

sem raízes




Aprendo, por estes dias, a ser poeira longe do próprio deserto. Como um grito que se projecta na lucidez do silêncio, assim prossigo por este caminho de estevas já moribundas, derrubadas pela força do vento suão. Não sei de propósitos nem de consequências, mas, ao mesmo tempo, não sou capaz de compreender por que insistem os meus passos em continuar através da solidão.

Perdi-me do tempo em que os sonhos se assemelhavam às cantigas que apetecia trautear. Hoje, se me detenho em monólogos ocasionais, reconheço-me sem talento para reinventar os atalhos que o progresso substituiu por estruturas sem memória. Já nada me prende às antigas melodias do entardecer, quando a adolescência se preenchia na lentidão dos relógios.

A cidade, mãe, é, por assim dizer, um inútil promontório sobre o vazio, onde os sorrisos são como esgares de conveniência e onde se multiplicam os sinais da indiferença. Cresce a vontade de voltar à transparência dos jardins que resistem ao esquecimento, mas as horas não se revêem no reflexo da utopia.

18 de outubro de 2017

velhos e leais fantasmas




Há muito que os conheço. Quase sempre em sentido único!... Têm sido, nas frágeis circunstâncias do vazio, os amigos que me permitem conjugar a solidão com os sinais que apontam para os equívocos da memória.

Em monólogos que sobrevivem à orografia do silêncio, as palavras prolongam-se até onde se aventuram os meus passos descuidados. Erráticos. Talvez seja preferível esta escassez de sorrisos. Não que prefira exilar-me numa terra órfã de referências. Forço-me, contudo, a caminhar pelo próprio cheiro de agosto. Deliberadamente!...

A saudade, mãe, ou o que quer que seja esta ilusão a que recorro com o objectivo de me libertar do tempo e da rotina, é o fulcro que sustenta os meus sonhos sem futuro, limitados a uma hipótese que continua a dissimular-se na penumbra dos espelhos.

17 de outubro de 2017

a substância da memória




Incapaz - ao contrário de Somerset Maugham - de usar as palavras para pintar um quadro, ainda assim, arrisco ceder à tentação de alinhavar as ideias na objectividade do silêncio, enquanto os meus olhos se demoram no amanhecer da saudade.

Num exercício de surpreendente harmonia, os meus passos percorrem a distância que me separa do teu sorriso e detêm-se à beira do sossego. À beira do absoluto.

Um brevíssimo rumor de asas que se projectam na abstracção do tempo ou, se preferires, os discretos alcatruzes da alegria a recordar o crepúsculo e o reflexo da ternura. É então, mãe, que a memória se reencontra - que os meus sonhos, já cansados, se aconchegam rente ao caos da solidão.

...

Confusos, os meus sentidos precipitam-se em busca de um outono sem mácula. Como se a eternidade se reconhecesse no vazio dos calendários...!

16 de outubro de 2017

o meu outro lado




Somente tu, mãe, consegues entender o que significa cada um dos gestos com que vou tentando comunicar com os outros. Cada sorriso. Cada sinal, ainda que o mais imperceptível.

Talvez por sermos um para o outro, o reflexo do silêncio que sempre procurei atingir!... Talvez por termos sido desde o princípio, o amanhecer das dúvidas no prolongar da memória. Na lentidão dos relógios.

Hoje, marcado pela distância e pelo insuportável peso da tua ausência - longe mesmo daquela sabedoria com que o tempo parecia anunciar um futuro imprevisível - é preciso manter a lucidez que me impede de tropeçar nas pegadas do vazio.

15 de outubro de 2017

mãe














Mãe - que adormente este viver dorido,
e me vele esta noite de tal frio,
e com as mãos piedosas até o fio
do meu pobre existir meio partido...

Que me leve consigo, adormecido,
ao passar pelo sítio mais sombrio...
me banhe e lave a alma lá no rio
da clara luz do seu olhar querido...

Eu dava o meu orgulho de homem - dava
minha estéril ciência, sem receio,
e em débil criancinha me tornava,

descuidada, feliz, dócil também,
se eu pudesse dormir sobre o teu seio,
se tu fosses, querida, a minha mãe!


Antero de Quental

ser feliz




Aqui, na paciente melancolia de cada gesto, tenho o silêncio onde costumo refugiar-me quando a penumbra cai sobre os meus sonhos. Não sei de outra coisa que possa impedir-me de vestir os farrapos da solidão.

Até onde sou capaz de me recordar, a felicidade nunca foi um objectivo deliberadamente assumido. Sempre a entendi como um caminho enviesado. Superficial. Trata-se, em todo o caso, de um exercício recorrente, esse "acreditar" - à falta de melhor palavra - que o destino foi definido através de um artifício genético. Fortuito. Sem nexo.

Os momentos continuam a multiplicar-se pela estrutura do vazio. Não existe uma sequência em que a lógica possa considerar-se como uma espécie de fio condutor. Por vezes, no intervalo de um instante, o infinito parece adequar-se ao reflexo da rotina, permitindo que a memória retenha o indizível. O muito ténue vislumbrar da perfeição.

E todavia, mãe, como se a demência fosse a mais óbvia das circunstâncias, raramente se projectam em mim os sinais da alegria.

14 de outubro de 2017

no prolongar da distância




A manhã veio de mansinho, embrulhada numa claridade muito ténue. Quase translúcida. Quase consciente. O meu pensamento percorreu a distância que me separava da lentidão do teu sorriso. Era ali que deverias estar, mãe!... No prolongamento da noite. Na definição do silêncio.

Depois, entre os trinados de uma ave certamente perdida e a improvável espessura da neblina, procurei os sinais da tua presença. Apenas o vazio me respondeu. As minhas dúvidas não deixaram de crescer. O cheiro - o teu cheiro - misturava-se com o branco das paredes.

Foi muito mais do que um sonho. Talvez o esboço de uma imaginação à beira do impossível. Só a saudade me fez continuar. Só a memória dos relógios me ajudou a encontrar as palavras. Só os búzios. Só a solidão.

13 de outubro de 2017

cuidar da sua esperança




Somos todos experiência do inacabado, indagação no incompleto, dureza e opacidade da pedra. E a esperança não nega ou contradiz isso. A esperança é uma gestação espiritual que ocorre precisamente nessas circunstâncias. É a esperança que entreabre - que faz ver para lá das duras condições - possibilidades ainda escondidas.

A nossa existência, do princípio ao fim, é o resultado de uma aprendizagem da esperança e só ela é capaz de dialogar com o futuro e de o aproximar.

...

Podias ter sido apenas o reflexo daquele encontro adolescente nas páginas de um livro a que, todavia, nunca deixei de regressar. Não obstante o equívoco dos calendários.

Podias, ainda agora, não ser mais do que isso. A verdade, porém, é que nunca te limitaste ao melancólico folhear de uma indiferença quase austera. Ao incerto prolongar da saudade pelos flancos da memória.

És - sempre foste!... - a esperança num futuro que não cabe nas coordenadas do tempo. Um sorriso inatingível. Uma espécie de silêncio que só os búzios entendem. Para além deste vazio que me cerca, continuas a ser a distância que me separa do amanhecer de um sonho. Dos rituais do outono. Do sopro da perfeição.

12 de outubro de 2017

momentos




Não se trata - à maneira dos alquimistas - de procurar a felicidade num qualquer balão de ensaio na penumbra de um laboratório vagamente clandestino. A vida, necessariamente, é muito mais do que a sequência de momentos susceptíveis de transmitir harmonia às respostas de que carece a inquietação dos sentidos.

...E, todavia, são sempre muito escassos esses instantes em que o silêncio e a sabedoria se revezam a fim de superar as incompatibilidades que os distinguem. Sobretudo porque me falta o engenho capaz de permitir antever os sinais que podem conduzir do supérfluo ao patamar das revelações. A indiferença, por si própria, limita-se a favorecer a ignorância.

Hoje, mãe, quando a solidão me entorna na memória uma difusa nostalgia, prossigo o meu caminho através do teu sorriso e da lucidez do teu olhar. É, bem entendido, uma tarefa árdua, mas, ainda assim, continuo a acreditar na transparência destas palavras que te escrevo.

11 de outubro de 2017

rio tejo




As minhas palavras não voltarão a ser as mesmas. Nunca mais poderei coleccionar os momentos em que - atrevo-me a dizê-lo!... - éramos exclusivamente um do outro.

Talvez nunca me tenha apercebido das arestas daquela ilusão que, se calhar, não passava de um hiato que me permitia escapar a uma realidade já de si rudimentar. Em todo o caso, mãe, haverá sempre esta hipótese de continuarmos a partilhar o silêncio e, por vezes, os reflexos de uma alegria vagarosa.

Não sei como ultrapassar os limites que me são impostos pelo vazio de uma folha de papel. Circunstancial. Obviamente redutora. O único e, agora, o derradeiro vestígio que me separa da solidão.

10 de outubro de 2017

saudades desse lugar




Lembro-me bem!...

Costumava sentar-me no amanhecer daquela esquina onde a adolescência se entretinha a tecer os sonhos. Sempre só, num diálogo imaginário com os secretos vestígios da solidão.

Não era mais do que um instante - o reflexo, talvez, da saudade que o olhar já denunciava. Depois, seguia o meu caminho para além da simplicidade de um sorriso, lado a lado com o sossego que ali tinha encontrado.

Incapaz de uma palavra que certamente teria alterado o curso dos dias, deixei que o silêncio se fechasse no outro lado do tempo, longe do crepúsculo e dos afectos. Hoje, mãe, quando apenas na memória reencontro a perfeição do teu rosto, o meu pensamento regressa ao lugar que só contigo partilhei.

E não sou capaz de entender a razão por que o vazio chegou tão cedo.

9 de outubro de 2017

como as cerejas




Foi um tempo - noutro tempo - em que os sonhos não se reflectiam na geografia da solidão. Era ainda possível que um sorriso se prolongasse pelas palavras que se diziam no vagaroso soletrar das horas. No aprender dos costumes.

As viagens, agora que as recordo através de uma realidade quase translúcida, foram, sobretudo, a surpresa pelos pormenores capazes de permitir o equilíbrio entre a avidez da adolescência e a interjeição da memória.

Nunca me deixei seduzir pelos predicados de uma expectativa demasiado ansiosa. Preferi, antes, a alegria que sugere o desconhecido e se revê no brilho do silêncio. Do que se diria inacessível.

É certo que os meus passos e, já agora, a minha genuína aversão a projectos demasiado elaborados, nunca demonstraram particular entusiasmo pelas coisas do abstracto. Mais depressa haveria de reconhecer-me no contemplar do sol a espreguiçar-se lá em cima. Sobre as nuvens.

E afinal, mãe, não se produziram grandes modificações neste processo de contínua evolução. Nada mais do que o envelhecer do olhar nos parapeitos da saudade.

8 de outubro de 2017

breve ilusão



Pergunto-me se a esperança não será apenas o mais  breve dos equívocos a que recorremos quando se trata de atravessar as dificuldades que, pouco a pouco, nos aproximam da indiferença.

É com ilusória sabedoria que nos propomos enfrentar a memória de um tempo que deveria projectar-nos para além da própria impaciência. É um dizer que nos arrasta para o vazio, quando não nos resta muito mais do que um inevitável anoitecer.

Na verdade, mãe, os muros vão-se erguendo sobre a alegria, porque apenas a solidão se desenha nos horizontes. As pontes foram sendo destruídas. Já não é possível esboçar um sorriso. Já não é possível compreender a trajectória do silêncio.

7 de outubro de 2017

reflexos do silêncio




Na transparência que se multiplica pelos atalhos do silêncio, existe uma espécie de sossego que só raramente se experimenta e que se assemelha à trajectória de um amanhecer na geometria da ternura.

É muito difícil descrever o inexplicável. Nem sempre as palavras se disponibilizam para que possam modelar-se ao jeito da alegria e do crepúsculo. Ainda que os sonhos se desenhem à beira da lucidez.

Foi o sorriso que me atraiu. Aquele homem de cabelos longamente brancos, era quase um reflexo do absoluto. Da eternidade. Estava ali - era real - mas dir-se-ia pairar numa outra dimensão, como se, de facto, se tivesse reencontrado na sua própria essência.

Limitei-me a guardar a minha surpresa. Naquele rosto, mãe, apesar do aparente vazio do olhar, projectava-se o inacessível. O discreto prolongar da perfeição.

6 de outubro de 2017

o elogio do desencontro




O vazio, por incómodo que seja, pode revelar-se um dom. Idealizamos demasiado o contacto com a alteridade, enredamo-nos em expectativas, projectamos tanto que a relação se torna um precipitado jogo de sombras.

O desencontro corrige muitos desses equívocos internos. Deixa-nos de mãos vazias, é verdade, mas dessa maneira devolve-nos a nós e recoloca-nos perante o outro mais conscientes da irredutível distância que nunca é vencida, mesmo na intimidade.

E por isso, à medida que os anos passam, aprendemos a agradecer não apenas o que os encontros nos trouxeram - que foi quase tudo - mas também o que nos chegou através dos desencontros.

...

Refugio-me muitas vezes à sombra da vagarosa nudez das palavras, como se a minha memória já não soubesse reencontrar-se na interrogação do teu corpo. No silêncio dos teus passos.

Dir-se-ia que o próprio tempo se perdeu no envelhecer da distância e na melancolia dos caminhos que deixaram de se reflectir na projecção dos meus olhos. Na ausência do teu sorriso. Não tenho como regressar a esse lugar que se prolongava pelos dias daquele calendário que só a saudade reconhece. Talvez nos tenhamos perdido na incerteza de uma adolescência quase equívoca.

Seja como for, jamais se repetiram esses momentos de lúcida indecisão. De interminável e nunca óbvia ternura.

5 de outubro de 2017

bicho-do-mato




Dia após dia, como se o silêncio não fosse suficientemente rigoroso, as palavras vão alargando a distância que me separa do que dizem ser normal.

Não são despiciendas as incompatibilidades com a indiferença. Se calhar, mãe, os equívocos acabam por ser inevitáveis quando há muito deixei de me projectar no rosto da harmonia. Não conheço, em todo o caso, outra forma de manter a lucidez, que não passe pela ruptura com aquela espécie de penumbra que caiu sobre os sonhos que se reflectiam no soletrar de um sorriso.

Seja como for, ainda que a solidão se tenha tornado inseparável das minhas interrogações, não pretendo alhear-me do fascínio pelos sinais que vão tecendo a saudade.

É verdade que não sou imune aos trejeitos da tristeza e não ignoro que ela ainda por aí a distorcer os meus gestos, Tento, porém, não me deixar absorver pelas certezas que se multiplicam pelos ponteiros do absurdo. Não quero que o crepúsculo me torne refém da própria memória.

4 de outubro de 2017

brevíssima memória




Não era ainda uma cidade - só mais tarde lhe preencheram o ego. Só mais tarde se abriram as torneiras da alegria. Ano após ano, de cada vez que a saudade se desdobrava através dos calendários, era ali, todavia, que me reencontrava com a liberdade. Com os espaços sem tamanho.

É-me difícil recorrer às palavras para traduzir esta coisa que se assemelha à definição do silêncio. Dir-se-ia que as memórias se perderam na fronteira que me separa da realidade. Hoje não tenho com quem partilhar a melancolia dos pinhais. A timidez do orvalho.

O cheiro dos eucaliptos. O próprio reflexo de um mundo por inventar...!

Foram dias irrepetíveis. Se me debruço sobre as imagens que guardei, não sei como hei-de afastar-me desta nostalgia em crescimento contínuo. Estéril, por certo, já que nada me restitui a utopia.

Recordo-me da transparência das vozes. Da solidão do espinheiro à beira do caminho. Da fonte onde as lendas se tornavam tangíveis. Não sei, mãe, se tudo isso - esse esplendor - não é, afinal, o último pulsar da minha imaginação.

3 de outubro de 2017

carpe diem




O silêncio é uma forma de revelar o sorriso que se inclina sobre a memória, quando a saudade se prolonga para além da lucidez. Não sei de onde vem esse silêncio que surge no amanhecer de um outono a multiplicar-se pelas horas. Pelos dias.

Agora, mãe, quando a solidão se reflecte nos próprios sinais de uma adolescência que continua a misturar-se com os meus sonhos, talvez tenha chegado o tempo de ignorar os conflitos com que o vazio me acena. E me tenta!...

As palavras tornaram-se inúteis. Já não consigo coordená-las com os parâmetros da utopia, mas, apesar de tudo, não me esqueci dos caminhos a que regresso de cada vez que as dúvidas penetram no vaivém da confusão.

A vontade, essa, permanece refém das antigas ilusões. Talvez um dia a reencontre na lentidão dos meus gestos.

2 de outubro de 2017

um actor e o seu palco




Limito-me a ser um actor no palco da incerteza. Sem guião e quase sempre confrontado com a perspectiva do improviso. Sem outros recursos para além da forma mais ou menos lúcida com que vou contracenando com a imprevisibilidade das horas.

Nunca desejei ser o protagonista. Sempre me revi perante a necessidade de construir o futuro - seja isso o que for!... - a partir do próprio vácuo sobre o qual me equilibro, sem referências susceptíveis de me permitir alguma estabilidade no oceano de perplexidades em que navego.

É verdade, mãe, que nunca me exigiram a excelência - essa tem sido a excepção que justifica todas as regras que procuro subverter. A perfeição, não obstante, foi adquirindo contornos cada vez mais precisos quando me proponho construir o inatingível.

Se tento orientar-me a partir das reminiscências de um passado pouco consistente, deparo-me com peças avulsas de um hipotético esquema cuja sequência - já de si fortuita - é órfã de segmentos que a possam tornar racional. Tão pouco sei como conjugar as hipérboles que se conjugam sobre a minha confusão.

O silêncio - que mais a não ser o silêncio?!... - preenche este hiato em que me transformei. Um discreto personagem em busca de si mesmo.

1 de outubro de 2017

o peso das palavras




Não quero dizer adeus - é a palavra que não quero dizer. Se te quero para construir alguma coisa, não quero dizer adeus.

...

Tudo o que sei, tudo o que fui aprendendo na solidão das palavras e dos relógios, é pouco - muito pouco!... - para compreender a incerteza dos caminhos. Quase poderia dizer-te, mãe, que é na subtil extremidade da memória que me reencontro com a imperfeição dos retratos. Com a lucidez do silêncio.

Já deixei de me procurar na rotina dos calendários. A verdade, contudo, é que o tempo, na vagarosa perspectiva de um outono que não cessa de se multiplicar pelo absurdo, há muito se confundiu com a inexistência de um sorriso. Com os sonhos que se atravessam na ilusão dos meus passos.

E, já vês, não há por que dizer-te adeus!... Não há por que hesitar, quando se trata de inventar uma espécie de futuro que amanhece em cada um dos monólogos com os quais, dia após dia, me vou aproximando de ti. Sozinho, mas, no entanto, sempre atento ao sossego que se aconchega no teu olhar.

anagramas do silêncio - VI




É todo um mundo confuso, de penetração difícil, tanto mais difícil quanto mais pretendo pô-lo claro, transparente. Não sei se houve primeiro lágrimas ou o som do harmónio. Em todo o caso, lembro-me de duas casas - uma na Eira, outra no Adro. Sei que as lágrimas e as estrelas eram na casa da Eira e a música do harmónio na casa do Adro.

Minha mãe disse-me que eu nasci na casa do Adro, e só um pouco mais tarde, quando a família a abandonou de todo, nos mudámos para a casa da Eira. Ambas eram casas pequenas, térreas, com duas divisões, mais que suficientes para mãe e filho viverem. Ainda há poucos anos vi essas casitas onde eu e a mãe começámos a ser um do outro, e pareceram-me incrivelmente pequenas, mais pequenas mesmo que certas salas de brinquedos que os meninos ricos têm na cidade.

Em frente da porta de entrada havia uma arca enorme. Sei que nessas arcas arrumam os pobres tudo o que têm: a roupa do corpo, a roupa da cama, o milho para moer, o pão e a faca embrulhados num pano de linho grosseiro. Lembro-me do cheiro que sai da arca ao abrir - é um cheiro forte, são, de frutos naturais que a terra dá.

Ora um dia, quando me aproximei da arca - sabe-se lá se para dar a entender a minha mãe que queria pão - estava lá em cima uma coisa que eu nunca tinha visto. Em bicos de pés, deitei-lhe a mão e puxei. Então o que aconteceu foi maravilhoso: de dentro saiu um som bonito, mais bonito ainda do que a voz de minha mãe que, certamente, eu já ouvira cantar. E talvez não, talvez eu não tivesse ouvido ainda minha mãe cantar. Minha mãe era nesse tempo uma mulher triste.

(...)

E ninguém me abriu a porta para apanhar as estrelas. Nem mesmo tu, mãe, que a essas horas andavas a ganhar o pão para a boca daquele que hoje te oferece estes versos.



Eugénio de Andrade

30 de setembro de 2017

quantas vezes?




Quantas vezes procurei por ti no silêncio dos caminhos mais improváveis? Quantas vezes, mãe, os meus olhos se demoraram na projecção da saudade e no prolongar da memória?!...

Sei - isso sei - que os meus passos raramente sucumbiram à vontade de percorrer em círculos concêntricos, a distância que sempre se interpôs entre o outono e a confluência dos sentidos. Os gestos, esses, talvez receosos de se verem reduzidos à indefinição dos sonhos, limitaram-se a esboçar os contornos de uma alegria difusa. Sem chama.

...E, não obstante a sucessão dos calendários, continuo a tentar descobrir as coordenadas do teu sorriso que permaneceu nos traços daquela adolescência que insiste em resistir à insensatez das vozes e ao vazio das palavras.

29 de setembro de 2017

migalhas




Ser velho é desistir muitas vezes, tombando de uma angústia que as palavras já não exprimem. É as lágrimas correrem dos olhos, não por pieguice, mas porque nenhuma esperança as sustém. É, ao mesmo tempo, ter a inexplicável teimosia de recomeçar quando já não parece possível.

Ser velho é, no extremo da fragilidade, mostrar que se tem sete vidas. Ser velho é aceitar o presente, sentindo a imprevisibilidade rondar muito perto e sabiamente rir-se disso. Ser velho é fazer mais com menos - saber que só se pode contar com a força de uma das mãos ou com o apoio de um dos lados e, mesmo assim, insistir e continuar.

Ser velho é compreender o valor das migalhas que foram sempre o nosso grande alimento sem que nos déssemos conta. Ser velho é lutar para estabelecer uma conversa com um quinto do vocabulário, ainda assim entrecortado por hesitações e esquecimentos, mas com os olhos a falarem cinquenta vezes mais para quem os souber ouvir.

Ser velho é não poder contar com ninguém a certas horas - horas longas que parecem não ter fim - procurando manter vivo dentro dessa total incerteza, o inapagável fio do amor.

...

Mais do que os calendários - que esses conseguem manter-se discretos - os relógios hão-de continuar a multiplicar-se pela distância que nos separa um do outro. Que nos afasta das palavras que percorremos e dos degraus que não descemos.

Um dia, quando apenas o silêncio se reflectir na cadência dos meus monólogos, talvez só na memória me seja possível reencontrar-te. Nessa altura, porém, já não saberei quando foi que me reconheci no soletrar do teu sorriso. Na secreta projecção dos retratos que não guardei.

Não seremos mais do que a breve recordação de uma alegria que, sem o sabermos, sepultámos sob os escombros da indiferença. Do vazio. Já não teremos a adolescência dos caminhos que foram nossos. Se calhar nem a própria tristeza terá para nós qualquer utilidade.

Ou, então, pode ser que ainda sejas o traço de união entre os meus sonhos e o que restar da minha lucidez.

28 de setembro de 2017

retrato a preto e chuva




Um estranho silêncio caía sobre a cidade. Espesso. Obsessivo. Como se estivesse próxima a fronteira do vazio!... Na rua ainda molhada pelas primeiras chuvas de um outono pouco óbvio, os carros alinhavam-se numa espinha perpendicular à melancólica cadência da manhã.

Não costuma ser habitual um despertar tão despovoado de afectos ou, se calhar, nunca me tinha apercebido de que as madrugadas principiam a confundir-se com o abandono. Seja como for, não há dúvida de que são incompatíveis com um sorriso, essas metáforas tão distantes da essência das palavras.

Então, como quem se reflecte nos contornos da neblina, atravessei a abstracção do imprevisto, para me deter na projecção de uma realidade hostil. Ali, mãe, onde o passado se prolongava pela  brevíssima memória da eternidade.

27 de setembro de 2017

simplesmente solidão




Há palavras cruéis, capazes de ferir com indisfarçável lucidez. Que se alargam pela perspectiva de um futuro cada vez menos fiável. A solidão - porque é dela que quero ocupar-me - assemelha-se ao sarcasmo das hienas a romper a perfeição do silêncio.

Nem sempre a vontade surge como a solução mais capaz de se opor à obstinação do vazio. A alegria, por outro lado, não consegue superar as mágoas e a perplexidade. A dor deixa de se limitar a uma dimensão meramente física, para esgaravatar a essência da própria alma.

Agora, mãe, quando o declínio já se debruça sobre os meus ombros, interrogo-me a propósito da melancolia que preenche os meus dias. E constato que as minhas mãos já não sabem como esboçar um simples gesto. Que não sei se a revolta ainda existe no projectar da memória.

26 de setembro de 2017

os sinais do imprevisto




Talvez o futuro - aquele que, então, se podia perspectivar - tivesse sido diferente. Nunca saberei se teria sido possível ignorar os degraus que o desconhecido me desafiava a subir. Era muito jovem e, quase sem dar por isso, atravessei a fronteira do vazio, depois de me ter aventurado pelos atalhos do silêncio.

...

Recordo-me, mãe, do jeito doce com que percorrias a distância que nos separava. Estávamos tão próximos que raramente me apercebia da simplicidade dos gestos que poderiam levar-nos para além da confusão.

Houve um tempo, todavia muito breve, em que a alegria se tornou quase tangível. Nunca tentei, apesar disso, compreender os sinais do imprevisto. Depois hesitava, certamente porque ainda não sabia que existem palavras capazes de derrubar os muros das suas próprias contradições.

Agora, quando caminho pelos inesgotáveis trilhos da incerteza, apercebo-me de que me perdi nos labirintos da minha saudade. Mas isto sou eu que não desisto de te procurar no trôpego calcorrear da perfeição.

25 de setembro de 2017

boy




Cresceu!... O olhar já não se detém nos verdes anos, quando a alegria desaguava na promessa da eternidade. Tudo nele se transformou - há agora uma espécie de ternura que lhe define os contornos do rosto e a timidez do sorriso.

Ao olhá-lo, é como se o tempo tivesse aproveitado para repousar na margem do seu corpo e ali se mantivesse em diálogo com o silêncio. Em harmonia com o reflexo da madrugada. O que nele se evidencia, é a serenidade que lhe percorre os sentidos. A cadência da memória. Os sinais da solidão.

É inútil resistir ao desafio. As próprias palavras são inúteis. Dobraram-se os calendários que se acumularam sobre as rugas. Sobre a saudade. O futuro, mãe, é tão-só o toque do desencanto na hesitação dos passos. No chapinhar do vazio.

24 de setembro de 2017

retrato com contentor




Coberto pelos farrapos da sua própria sombra, o homem atravessou a imperceptível estrema que separa a demência da solidão. Inexpressivo, marcado por uma indiferença à beira da resignação, o rosto reflectia uma infatigável ausência de perspectivas. Há quanto tempo lhe não sobe aos lábios o breve traço de um sorriso descuidado?!...

Os sonhos, mãe - se é que existe lugar para eles nos parâmetros do vazio - devem ser a multiplicação do absurdo pela incerteza. A mais que perfeita incompatibilidade entre os contornos de uma adolescência perdulária e a melancolia perante um futuro tresmalhado.

Inútil retrato esse!... Autêntico, ainda assim, sem os habituais subterfúgios capazes de lhe amenizar as arestas do infortúnio. Um grito de revolta que não impede a insalubre humidade do silêncio, mas que destroça a essência do inexplicável.

23 de setembro de 2017

do berço e dos relógios




Se encarar um ser humano como o meu "tu", se o introduzir na relação fundamental "eu-tu", ele deixa de ser uma coisa entre coisas.

Não me perco a analisar e a pôr à prova o homem a quem digo "tu". Entro em relação com ele, na sacrossanta palavra fundamental... Aqui se encontra o berço da vida verdadeira.

...

Moro agora no outro lado de uma distância a que há muito não pertenço. Uma distância onde já não se projecta o adolescente rumor do teu olhar. É bem provável que este tempo não se reveja nos passos com que percorremos a incerteza dos caminhos.

Havia então, no quase definitivo reflexo das nossas palavras, uma espécie de silêncio ou, se quiseres, uma inocência que não voltei a reconhecer no inútil calcorrear dos relógios. Dir-se-ia, se calhar, que foi por isso que a amizade se manteve, não obstante o vazio que caiu sobre os meus cadernos. Sobre o que de juvenil restou de mim nas memórias que guardei de ti.

Sei - e não tenho necessidade de o compreender - que sempre foste o prolongar do meu próprio sorriso. O impossível tactear de um futuro que nunca foi nosso.

22 de setembro de 2017

memórias do ashrama




Não existe, quando dedilho as palavras, qualquer suporte a um possível projectar do silêncio sobre o absurdo. Nem sempre, porém, foi assim!...

Houve um tempo em que, se calhar, teria sido preferível não deixar que a adolescência se demorasse a polir o misticismo, com o objectivo de descansar à sombra da perfeição prometida. As lendas, por outro lado, já eram demasiado incompatíveis com os afectos, mas, então, a ingenuidade não me permitia compreender a importância dos muros no desbravar dos caminhos.

Era necessário, mãe - ia dizer imprescindível - afagar a cumplicidade que mantínhamos com o sossego,  para que pudéssemos saborear aquilo a que ainda não chamávamos alegria. Para que, um pouco mais tarde, a tranquilidade se instalasse mesmo a montante da paciência.

Foi uma aprendizagem que se multiplicou pelas dúvidas e também pelo desencanto. Uma aprendizagem que deve prosseguir para que se não quebre o fio condutor entre a juventude e as cores do sol poente.

21 de setembro de 2017

uma página em branco




Há lugares a que gosto de regressar sem ideias preconcebidas, como se fossem uma página em branco à espera de um texto cujas palavras ainda ignoro.

Depois, à medida que os recantos se tornam familiares, não obstante a ausência e alguns lapsos de memória, surpreendo-me com os pormenores que - vá lá saber-se porquê!... - me tinham passado despercebidos. Tenho, então, a oportunidade de reescrever o silêncio através de uma perspectiva que advém da circunstância de me reconhecer diferente daquele que, antes, se deixara contagiar pelo imprevisto.

O parque, naturalmente, perdeu uma parcela do fascínio que o aproximava do indizível, mas não pude deixar de me rever no desenho de cada canteiro. Na percepção de uma discreta tranquilidade.

Ali, mãe, quando os sonhos ainda eram possíveis e o futuro não existia, sentia-se uma espécie de hostilidade para com o gotejar do quotidiano. Agora foi como se, em bicos de pés, estendesse a mão para o desconhecido e descobrisse a alegria no brevíssimo instante em que me reencontrei nas pegadas da nossa saudade.

20 de setembro de 2017

do farol ao areal




Desse tempo em que o futuro se limitava a ser uma sucessão de imprevistos, conservo a memória das coisas que me fizeram crescer. Se assim não fosse, tudo não passaria de um vastíssimo compêndio de ilusões que me teria entretido a coleccionar.

Por outro lado, mãe, creio que o meu crescimento nunca há-de ser um dado adquirido. Tangível. De resto, sinto-me tentado a acreditar que permaneço um simples personagem dos argumentos que fui construindo a partir dos sonhos que inventava. A realidade sempre se me afigurou uma terra estranha - inútil tentativa de configurar as questões a que não sei como responder.

O silêncio e a ternura costumavam ser o anverso da moeda que reflectia o perfil dessa outra coisa a que, à falta de melhor definição, me atrevo a chamar vida. A outra face, a que muito raramente prestei atenção, não passava de uma representação do vazio.

...

O farol surgiu de súbito - tal qual o recordava!... Mais à frente, na projecção do areal, lembrei-me do jovem que se entretinha a percorrer as lendas e a aprender com os druidas. Que se evadia das contingências que preenchiam os horizontes.

Confesso que tive saudades!...

19 de setembro de 2017

sensibilidade




Estabeleci com o silêncio uma cumplicidade nem sempre harmoniosa. É frequente uma certa crispação - nem sempre sou capaz de evitar alguns conflitos que reflectem uma sensibilidade com demasiadas arestas. Salientes. Aguçadas.

Não tenho, contudo, outra forma de aperfeiçoar esta vizinhança que vou mantendo com a solidão. Com o vazio que se foi multiplicando pela cadência dos meus passos. Por vezes apercebo-me de que os meus sonhos perderam alguma da consistência que lhes permitia sobreviver aos caprichos de uma realidade cada vez mais enviesada, mas, ainda assim, teimo em prosseguir lado a lado com a utopia.

Antes, mãe, quando a adolescência se reencontrava com a geométrica perfeição de agosto - quando as palavras eram sussurradas na lentidão do olhar - eu sabia que os relógios não se deteriam nas estremas do sorriso que me aguardava nos carreiros da saudade. Agora, porém, dir-se-ia que o tempo se misturou com os equívocos que lhe deram forma.

Ao tactear os recantos da memória, lembro-me da secreta transparência desses dias ou, melhor, desses momentos em que te tinha comigo. Tantas coisas que deixaram de acontecer...! Talvez, em todo o caso, ainda seja possível recuperar a explicação dos gestos, apesar das sombras que pairam sobre a cidade.

18 de setembro de 2017

por hipótese




Podia talvez dizer-te, não fora a distância e este jeito de projectar a solidão nas encruzilhadas da memória, que há agora uma outra forma de experimentar o silêncio, enquanto vou escrevendo estes retratos sobre os sonhos tecidos à sombra de uma árvore centenária.

Depois existe a música!... O que quer que se possa extrair da difícil serenidade destes dias, mais do que desvendar a essência de um anoitecer quase de outono, permite-me conjugar os sons com o ócio de um passeio à flor do tempo. Com a própria curva do teu sorriso, onde se reflecte o cheiro da maresia e a transparência de uma alegria singular.

Não sei, mãe, aonde me levam as palavras. Elas foram sempre um pretexto para transpor as fronteiras do absurdo, não obstante a confluência entre a luz e a escuridão. Não pretendo, em todo o caso, adormecer sob a inquietação dos meus sentidos, agora que as madrugadas principiam a prolongar-se para além da saudade.

17 de setembro de 2017

o tempo das ilusões




Deixo-me ficar quase sempre na periferia das palavras onde o silêncio se pronuncia com o rigor do crepúsculo e se prolonga pelos desafios da memória. Existem algumas incompatibilidades entre o sossego e a solidão, mas, ainda assim, sou capaz de interpretar os sinais que se projectam  na ilusão dos espelhos.

É verdade que já decorei os caminhos que me afastam da realidade. Os pássaros, todavia, não deixaram de se multiplicar pelo exercício da paciência. Os meus sonhos, por outro lado, há muito que não se revêem nos parâmetros da lucidez.

Dia após dia, apercebo-me do quase sonâmbulo rumor da saudade. Confesso, mãe, que desconheço as razões por que os meus passos persistem em manter esta trajectória aparentemente sem perspectivas, mas, não obstante, vou prosseguindo enquanto me reconhecer na perfeição do teu sorriso.

16 de setembro de 2017

numa esquina a saudade




Dos velhos caminhos resta apenas a ilusão capaz de se prolongar pelos sonhos e pelo silêncio. Mais à frente, naquela esquina onde a memória se mantém, dir-se-ia que nos dias em que a neblina se mistura com o cheiro dos eucaliptos, a saudade se aconchega nas teias que o orvalho protege do balançar do vazio.

Como metáforas longínquas, os vultos assemelham-se às lendas andrajosas, quando a solidão se projectava no ritmo da madrugada. Agora, contudo, a realidade é bem diferente - já não se confunde com a lentidão dos dias. Com o cansaço das palavras.

Hermético, obsessivo, o passado apoderou-se do bucolismo das fontes e caiu sobre os espelhos da indiferença. Os passos, esses, continuam a reflectir-se numa juventude que resiste à sede dos calendários. Talvez falte um sorriso. Não mais do que um sorriso.

O teu sorriso, mãe!... Perfeito. Único. Transbordante.

15 de setembro de 2017

longe do ruído dos homens




...Mas não somos apenas nós que a imaginamos, a ilha também nos imagina, também nos sonha como se fôssemos uma consequência do lugar, forjados nas suas entranhas, imersos nos seus abismos, levantados das mesmas encostas onde, há centenas e centenas de anos, longe do ruído dos homens, cresce a floresta laurissilva, como uma pálpebra que o vento entreabre.

A ilha também nos sonha nas linhas subidas das levadas que redesenham um atlas de mundos sigilosos, nas grutas sucessivas onde os limos gotejam uma neblina gelada no disco negro dos poços tapados pela vegetação e pelo silêncio. A ilha é o globo luminoso de uma lâmpada, uma incandescência, o ponto de uma estrela a fazer a chamada de todos os nomes.

...

Chego à janela para olhar mais uma vez - talvez a última vez - aquele futuro a que não chegámos a pertencer. Não sou capaz de me reconhecer no lento envelhecer das palavras que, afinal, preencheram a promessa do teu olhar poisado no silêncio do meu sorriso.

Como teria sido se, na brevíssima adolescência de um instante, tivéssemos proferido essas palavras que, todavia, se misturaram com a penumbra das esquinas?!... Com o imperceptível rumor de uma amizade que, então, não sabíamos que poderia reflectir-se na transparência dos nossos sonhos.

Ali onde, sem o sabermos, nos despedimos um do outro, talvez nos tenhamos limitado a ser a consequência do lugar e do tempo em que o mundo se escondia na sua própria incerteza. No sussurro das interrogações sem sentido. Porque - sei-o agora!... - apenas tu e eu nos prolongámos pelo tiquetaque da alegria.