26 de julho de 2017

no rodapé da saudade




Posso, finalmente, aguardar a chegada do crepúsculo para contemplar o rosto do silêncio. O tempo, mais do que limitar-se a coleccionar as horas e os sonhos, foi desenhando os traços da melancolia que me acompanha na aprendizagem da saudade.

É verdade que, nesta caminhada, foram sempre as sombras da solidão que se impuseram à determinação dos meus passos. As próprias palavras entretiveram-se em monólogos surdos e sem substância. Incapazes de definir a trajectória da alegria, porque não se demoram no anoitecer dos búzios.

Às vezes, mãe, quando a mágoa e o desalento se reflectem nos meus olhos, procuro desafiar a estrutura dos monossílabos e da indiferença. Tudo porque tu continuas a marcar a cadência das manhãs e é nelas - apenas nelas!... - que reencontro a transparência do teu sorriso.



25 de julho de 2017

cantilena




Procuro o silêncio das madrugadas de agosto, quando o vazio não passava de uma abstracção anódina. Um tempo em que o futuro me parecia tão longínquo como a própria explicação da melancolia.

Os monólogos, contudo - aqueles que me limitava a protagonizar - foram-se prolongando através da minha própria insegurança. Da minha própria solidão!... Os meus gestos tentavam conjugar-se com a aventura dos meus lábios, mas apenas foram capazes de se perder nos labirintos da distância.

Cansado, mãe, vou alinhavando as sílabas que principiam a escassear. Resta-me o exercício da complacência porque, agora, as horas mais não são do que a trajectória do abandono.



24 de julho de 2017

poema com lágrimas




É o vazio que se atravessa nos caminhos da solidão, embrulhado na turbulência das palavras que jamais se pronunciaram. Na incompatibilidade dos sonhos com a interminável violência dos espelhos.

Fazem-me falta o sossego do teu olhar e a transparência do teu sorriso. Sem eles sinto-me frágil - demasiado frágil perante as lágrimas que se reflectem na explosão do silêncio!...

Por quanto tempo poderei resistir a esta mágoa que não tenho como iludir? Sem ti, mãe, perco-me no desassossego do meu próprio labirinto, exactamente quando a noite e a loucura se projectam sobre a eternidade.



23 de julho de 2017

jogos de sedução




Recordo os teus gestos, mãe!... Lentos, a sublinhar a transparência do sorriso que enchia o meu olhar. Recordo-os na secreta geometria dos retratos.

No aconchego do tempo que partilhámos - mesmo naquele que ainda  não era a memória do silêncio - as nossas palavras entretinham-se em jogos tão pueris que resistiam ao pressentir da penumbra.

Foram tão escassos os dias em que estivemos tão perto da alegria que, quase sempre, dou por mim a tentar recuperar a inocência e a deixar que os meus dedos se passeiem pela saudade que se confunde com o branco das paredes. Com a madrugada para além das persianas.



22 de julho de 2017

segredos




Não fora o silêncio que se espraia pela memória dos dias despovoados e os passos dir-se-iam senhores dos relógios e da distância. O tempo, contudo, já se apoderou daquela ternura que, fatigada, se refugiou na geometria dos sonhos.

Hoje, mãe, prisioneiro do abraço que não te pude dar, ainda creio na transparência das madrugadas, porque, na verdade, tu continuas a adormecer na solidão dos meus olhos.

Talvez seja por isso que me mantenho à margem da lucidez das palavras a que, outrora, me afeiçoei. Aqueles dias em que a alegria me parecia ao alcance de um só gesto, deixaram de preencher a minha inquietação, para se misturarem com a inevitável penumbra da indiferença.



21 de julho de 2017

no prolongar dos beirais




Eu sou quem existe para/ pensar em ti quando fico sozinho/ ou de noite acordo,/ eu sou quem deve esperar, seguro de voltar a/ encontrar-te,/ eu sou quem deve cuidar de te não perder para/ sempre.

...

Não é ainda a memória das searas de agosto, quando os sonhos se encavalitavam nos muros do silêncio. Não é a saudade das estórias que guardei nas gavetas de um sorriso ou, melhor, na solidão que atravessa os meus próprios passos.

Talvez seja o cansaço destes dias que adormecem à beira de uma adolescência que apenas sobrevive na periferia dos retratos. Na insensatez do vazio que se projecta na lentidão dos meus gestos.

É, se calhar, o meu jeito de enfrentar a inquietação dos espelhos ou, então, de me demorar junto à migração das andorinhas cujos ninhos já não se distinguem no prolongar dos beirais. É a peregrina vocação dos monólogos com os quais me liberto do apodrecer do futuro.



20 de julho de 2017

os donos da verdade




Multiplicam-se como se a urgência lhes alimentasse o desejo. Utilizam as palavras como instrumentos de uma certeza construída sobre o vazio dos gestos que não sabem distinguir a lucidez em que se refugia o silêncio.

Quem não se confrontou já com a negligência com que esgrimem a impaciência das metáforas? Com a incaracterística vocação dos lábios onde se misturam a cegueira e a surdez?!...

Muito se poderia dizer, mãe, sobre a intolerância, mas a indiferença já por aí anda a suplantar a vontade de partilhar os esparsos vestígios da melancolia. Entre a indecisão e o desencanto, crescem agora as sementes do abandono.



19 de julho de 2017

o triunfo e a derrota




Sobre o silêncio se diz que é eloquente. Não é fácil, porém, entender os sinais que o identificam com a substância que se derrama sobre a insensatez das palavras. Quase nunca os seus desígnios são transparentes.

No desordenado galope dos dias, dir-se-ia que a saudade se esgota na definição dos passos e dos caminhos que não são o reflexo de uma escolha à beira da lucidez.

O triunfo e a derrota, mais não são do que argumentos a que falta coerência. São condicionalismos que amarram o inconsciente às suas próprias hesitações. São muito antigos, mãe, esses conceitos com que se ferem os sonhos e se destroem as memórias. Os mesmos com que se rasga o futuro.



18 de julho de 2017

apenas um dizer




Sento-me na periferia da solidão, onde as madrugadas se confundem com a inclemência do inverno e o silêncio mal se distingue das estrias do desencanto. Até a música me parece menos óbvia - mais dispersa pelos atalhos da indiferença.

Muito haveria a dizer, mãe, da penumbra que se abateu sobre os imprevisíveis traços do futuro, mas as palavras deixaram de ter a fluidez que as protegia do cheiro da tristeza. Já quase não sei tecer-lhes os contornos.

Os dias são agora muito breves e, ao mesmo tempo, desoladoramente próximos da substância do vazio. Nem um sorriso emerge do exíguo caudal da alegria. As horas, por outro lado, vão-se esgotando na insensata vertigem dos calendários.



17 de julho de 2017

do vazio e da distância




No segredo dos meus dias, desenham-se as linhas descuidadas de uma solidão que principia a definir o futuro. Inquietas, as palavras deixaram de ter o privilégio de descrever o sossego, para se perderem nas estrias da incompreensão.

Talvez seja exagerada esta angústia que se assemelha à indiferença com que o olhar se abstrai da alegria. Com que os gestos se refugiam na lentidão do vazio.

O cansaço, mãe, há muito que invadiu os lugares onde se demorava o teu sorriso. Hoje, sem perspectivas capazes de me fazer enfrentar o desafio da memória, apercebo-me de que o próprio silêncio se multiplica pelas margens mais distantes do delírio. Já não o encontro na súbita transparência da saudade.



16 de julho de 2017

da memória das varandas




Quando os sonhos se intrometem na definição do silêncio, é que os meus olhos se refugiam na exígua parcela onde as palavras se aproximam da solidão.

Pouco a pouco, mãe, vou-me apercebendo de que todas as coisas se tornam estranhas, como se nada mais existisse para além da minha própria memória. Como se cada passo que dou fosse a projecção do vazio que, subitamente, principiou a atravessar-se no meu caminho.

Já não reconheço os lugares onde, antes, costumava demorar-me. Os sinais deixaram de existir e a poeira abateu-se sobre as varandas.



15 de julho de 2017

quase um lamento




Podia ser a tristeza a insinuar-se pela escassa claridade da manhã que principiava. Procurei os vestígios do silêncio ou, melhor, os sinais daquele sorriso que preenche as esquinas da memória. O teu sorriso, mãe!...

Ainda nuas, as árvores continuavam a resistir à chuva que não cessava de cair sobre a periferia dos sonhos. Os pássaros não encontravam nelas o aconchego das noites em que o verão se inclina sobre as casas. Os ramos, esses, permaneciam indefesos face à negligência dos olhos apressados.

Quando abri a janela, só a penumbra se alargou pela lentidão das palavras. A música era apenas o retrato da saudade. Quase um lamento.



14 de julho de 2017

as lentes desfocadas




Sabemos pouco da relação completa entre aquilo que vemos do mundo e o próprio mundo. O nosso olhar é míope. As nossas lentes desfocadas. E no entanto, sentimos que "estranhos fios ligam o tempo a alguns outros grandes mistérios em aberto: a natureza da mente; o destino dos buracos negros; o funcionamento da vida...". Sentimos que algo de essencial continua a reportar à natureza do tempo - essa natureza de que ignoramos quase tudo.

...

Já quase não nos reconhecemos no projectar do silêncio. Deixámos de ser o reflexo da memória no amanhecer de um sorriso, talvez porque permitimos que os sonhos se tornassem numa certa forma de novelo onde os relógios se confundem com a indiferença.

Trôpegos, os passos limitam-se a percorrer os círculos concêntricos que se alargam pela hipótese de um futuro à beira da melancolia. Tropeçam nas palavras inquietas que se esgotam na cadência dos monólogos.

A vida passou a ser uma fuga à transparência do orvalho e aos desafios que eram, por assim dizer, uma espécie de traço de união entre o tempo e a própria essência do vazio. A vida deixou de ser um ponto de interrogação capaz de iludir o obsessivo folhear da solidão.



13 de julho de 2017

da origem do sossego




Por vezes sento-me às portas do crepúsculo e fico ali onde os sonhos se habituaram a partilhar a alegria com as searas de agosto, quando o silêncio preenchia a inquietação das palavras.

Desde sempre, mãe - desde que os meus olhos passaram a descansar à sombra da melancolia - quis ter-te comigo lá onde o verão e as cigarras se assemelhavam à essência da memória. Eras tu que, ano após ano, preenchias aquelas tardes que se multiplicavam pelo cheiro dos eucaliptos.

Hoje, se me recordo desses dias longínquos, é ainda o teu sorriso que procuro. É a saudade que me persegue - a saudade que desenha os meus gestos no sossego do teu olhar.



12 de julho de 2017

bradley lowery




Uma página que se dobrou sobre a imprecisão do tempo. Sobre a inconsistência dos calendários. Uma espécie de silêncio que caiu sobre o tropeçar da memória.

Se ao menos as lágrimas pudessem sobreviver ao secreto voo das aves que não têm como decorar o que restou de um futuro imperceptível...! Um futuro que se perdeu no outro lado das gaiolas!...

Incrédulos, os retratos ainda reflectem aquele sorriso que adormeceu no olhar e nos derradeiros flancos da tristeza. Os sonhos, esses, incapazes de se prolongarem na distância e na alegria, limitam-se a percorrer as sombras coalhadas pela espessura do vazio.



11 de julho de 2017

thalles ou a inquietação no olhar




Inquieto, como um náufrago que se debate na indecisão das palavras, o olhar não se detém na promessa dos seus próprios segredos. Na trajectória de um silêncio estremunhado.

Dir-se-ia o reflexo quase translúcido de uma solidão que se prolonga pelos parâmetros da memória. Há uma espécie de carícia invisível que lhe desce pelo rosto - que lhe percorre o adolescente amanhecer do corpo. Há um brevíssimo sorriso que se desenha na tardia definição de cada gesto.

Cai-lhe nos ombros a discreta juventude dos sonhos que continua a coleccionar, ao mesmo tempo que vai enfrentando as sombras de um qualquer futuro ou, melhor, de um inadiável desafio na projecção dos relógios.

É, por assim dizer, o seu jeito de atravessar a turbulência dos dias. A melancólica melodia do crepúsculo.



10 de julho de 2017

lucubrações




Lembro-me do silêncio com que se preenchiam as metáforas daquela tristeza perpendicular à essência dos meus sentidos. Os olhos, porém, não se reflectem no desencanto das palavras.

...

A música com que me entretinha a percorrer o tempo e os sonhos, foi sempre o contraponto da minha própria solidão. Como a brisa que se prolonga pelo rosto da madrugada!... Foi sempre, por assim dizer, a saudade que nunca deixou de se espraiar pelos meus dias.

Pergunto-me, mãe, por que foi que a beleza se me afigurava ao alcance de um único gesto se, agora, sei que apenas tenho respondido ao apelo do vazio...!



9 de julho de 2017

na outra margem de setembro




Foram escassas as palavras com que aprendemos a decifrar a complexidade do silêncio. Pouco mais tínhamos naquele tempo, para além da sabedoria dos espelhos e da confluência dos pássaros.

Partilhámos, ainda assim, o espaço que sobejava entre o amanhecer das estórias e a realidade dos calendários. Partilhámos o verde dos arrozais e a chama de uma candeia através dos caminhos que nos conduziam a setembro. Que serpenteavam na projecção do luar.

Foi nessa altura, mãe, que o teu sorriso se gravou na transparência do meu olhar. Lentamente, para que a memória se habituasse à perpendicular descoberta do sossego. Os passos - os nossos passos!... - como se a neblina se espraiasse pelo rosto da madrugada, iam percorrendo a difícil trajectória da saudade.

Lembro-me desses dias, mas o inverno já desceu sobre o futuro. A tua ausência transformou a solidão na dolorosa perspectiva do vazio.



8 de julho de 2017

nostalgia




Era um lugar onde o silêncio se prolongava pela dimensão da saudade. Havia as árvores, as searas e a lentidão da resina. Havia os campos, mas o verde que os vestia perdeu-se nos labirintos da incerteza.

Também te tinha comigo, mãe, e, então, os sonhos pareciam-me mais fáceis de percorrer, mas eu não sabia o que fazer para que as horas se demorassem na trajectória do teu sorriso. Recordo-me de que os meus olhos costumavam acompanhar-te desde o amanhecer até à melancólica - e mesmo assim transbordante - projecção das candeias.

Só mais tarde, contudo, me apercebi do cheiro da madressilva e do singular rumor da ternura. Depois, o tempo e a distância tornaram-se incompatíveis. Apenas o desencanto permanece!...



7 de julho de 2017

cordão umbilical




Os pais precisam aceitar que cada filho é uma vida distinta e autónoma, ao mesmo tempo gerada por eles e inacessível, à maneira de um segredo que protegem mas cujo conteúdo está destinado a escapar-lhes.

...

Há em toda a parte - na melancólica lucidez dos relógios e na brevíssima racionalidade dos calendários - uma quase inconsciência que se projecta na rugosidade dos caminhos. Uma promessa que se esgota na multiplicação das esquinas.

Talvez seja o reflexo da memória que se alarga pelo envelhecer da saudade ou, se calhar, o adolescente rumor do silêncio que, pouco a pouco, se vai confundindo com a mansidão dos sorrisos. Com o receio de um futuro em que os sonhos já não serão a herança das palavras que se habituaram a preservar.

Há, na própria bissectriz do olhar, uma inevitável ausência de esperança. Um permanente cansaço que se adivinha na translúcida vocação dos passos e na esdrúxula trajectória do vazio. No inútil silabar dos monólogos.



6 de julho de 2017

monólogo precário




É o momento de falar sobre os amigos!... Agora que vou partilhando o tempo com a breve melopeia do sossego, apercebo-me dos gestos que se foram esboroando de cada vez que a incerteza se tecia nos meus olhos.

O silêncio foi sempre a mais urgente das minhas necessidades. Recordo-o apenas pelos esboços a que não faltavam certas incompatibilidades, como se a penumbra se articulasse nas arestas de cada nova manhã. A amizade, por outro lado, quando lhe defini os contornos, transformou-se na minha própria utopia, porque as palavras nunca foram suficientes para que um sinal pudesse emergir da lentidão do vazio.

Às vezes não passava de um apelo furtivo - um trejeito ou, melhor, o gume de uma ilusão. Jamais os passos se aventuraram para além da paciência e hoje, mãe, quando me debruço sobre a saudade, só reconheço os sinais do teu sorriso. Único. Perfeito!...



5 de julho de 2017

reflexos do tempo




Deve haver uma forma de impedir que o tempo se instale na impaciência dos relógios. Não é possível que o silêncio se deixe surpreender pela indiferença e pela solidão.

Os passos, não obstante o olhar se estender até aos mais longínquos apeadeiros da memória, já não se revêem nas adolescentes sílabas do sossego. A beleza, por outro lado, já não se demora nas pupilas como se fora uma permanente explosão de luz.

A saudade, mãe, é agora uma sombra que se alarga sobre a madrugada. Sobre o cheiro da maresia. Os rostos já não se reconhecem nas viagens pelos labirintos da distância. Os sorrisos, esses, refugiaram-se na equívoca lentidão do vazio.



4 de julho de 2017

quase peter pan




Não fora o olhar já marcado pelos contornos da melancolia, e jamais a distância haveria de comparar-se com a súbita inclinação das areias, quando o silêncio e a memória se percorrem com passos tristes. Quase trôpegos.

Os gestos tornaram-se estranhos. Impacientes. Como se as palavras se tivessem escondido no segredo das suas próprias metáforas. Os sorrisos, esses, deixaram de esvoaçar sobre as ruínas do desencanto.

O cansaço galopa sobre os sonhos. A ternura é apenas a recordação de um futuro inacabado e incompatível com o comércio da alegria. Só a solidão se aproxima do adolescente cheiro da saudade, antes da trajectória do vazio. Antes, mãe, do labirinto da tua ausência.



3 de julho de 2017

da geometria e da distância




Sempre que os meus olhos, talvez perdidos na eternidade da minha própria solidão, percorriam o silêncio transparente do teu sorriso, tentava que as horas se multiplicassem pela lentidão dos espelhos, até que os meus sonhos se reflectissem numa aguarela.

...E as sombras nunca deixavam de cair sobre os campos onde se apagavam as minhas palavras.

Hoje, mãe, ainda que as madrugadas já não me conduzam aos flancos da alegria, deixo-me tentar pela lucidez com que costumavas enfrentar o rigor das ilusões. Hoje, basta-me partilhar contigo esta distância, para que os relógios se demorem na vagarosa geometria da saudade.



2 de julho de 2017

ruptura




Lembro-me das palavras com que costumava percorrer os caminhos de uma adolescência vivida entre os sonhos e a solidão. Eram, habitualmente, o reflexo do silêncio em que me refugiava quando o sol adormecia no regaço das searas.

Hoje, mãe, quando a tarde chuvosa chega ao fim e as sombras se acumulam na brancura das paredes, fazem-me falta os campos de uma obstinada lentidão, onde os sorrisos se misturavam com o paciente cheiro dos eucaliptos. E a fonte no cimo da estrada poeirenta - a inseparável companheira do crepúsculo!...

É esse o lugar a que pertenço, mesmo que, agora, a realidade seja uma coisa inatingível.



1 de julho de 2017

romaria




Os olhos percorrem os farrapos que cobrem a tristeza e a amargura. Confrontam-se com a lentidão dos sonhos já cansados, mas ainda embriagados pelo rumor da primavera.

O sossego, mãe, abandonou aquele lugar onde o silêncio e o sorriso se reflectem no mesmo perfil. Doída, a memória projecta-se no rodapé do vazio, enquanto a saudade me ajuda a recordar os carreiros solitários que o tempo foi apagando.

Pacientes e convictos, os passos aproximam-se da periferia onde as palavras se demoram no esboço da sua própria nudez.



30 de junho de 2017

carta aberta a...




...Tiveste uma reacção que me tocou: escreveste-me imediatamente, marcámos um café e creio que, desde então, aceitando as divergências que mantemos, nos consideramos amigos.

...

Era quase à entrada do silêncio que os meus passos hesitavam entre os monólogos e a complexidade das memórias que, já então, me acompanhavam.

Creio que nunca tive oportunidade de me descobrir para além da antiquíssima trajectória de um sorriso. Não sei mesmo se terá sido na perspectiva de uma amizade quase adolescente que os sonhos acabaram por se transformar na ausência das palavras.

Talvez tenha sido muito perto de um futuro que, contudo, jamais se reflectiu na lentidão dos caminhos. A verdade é que os calendários foram sempre muito estranhos - foram sempre a inútil convergência dos retratos com a inadiável melancolia dos espelhos.



29 de junho de 2017

prece




Nada sei desse silêncio, a não ser que a demorada inquietação das sombras se prolonga para além da solidão.

...

Naquele tempo, mãe, quando as interrogações se multiplicavam pela memória de outros dias - quando a alegria se aproximava da transparência dos sonhos - o sorriso que se desenhava nos lábios assemelhava-se às raízes que suportam a determinação das árvores.

Como quem se apercebe do marulhar do desespero, os relógios corrigiram a trajectória do próprio vazio. O inverno chegou logo a seguir!...



28 de junho de 2017

mo chuisle




Chegam dos lados da incerteza, os sinais das madrugadas que dos sonhos se perderam. O sorriso, esse, alarga-se pelas margens da memória. Pelos caminhos do desencanto.

Hoje, mãe, as palavras sufocam na adolescência de uma saudade que se torna transparente, enquanto o olhar se aconchega na poeira do vazio. O que resta já não tem as cores da primavera. Apenas a bruma continua a acompanhar a cadência dos relógios.

Que penosos que são estes passos com que tento não sucumbir à beira dos degraus da solidão...!



27 de junho de 2017

do silêncio e do vazio




É no silêncio que procuro a explicação para as palavras tresmalhadas que martelam o absurdo. Nada mais posso fazer - nada pode restituir-me a ternura que se fechou sobre os teus olhos subitamente cerrados.

A realidade continua a pesar-me no peito e, não obstante, teimo em resistir-lhe. Não tenho onde me refugiar, porque o vazio preencheu os próprios sulcos da razão.

Um vazio, mãe, que se reflecte na precária lucidez dos meus gestos. Um vazio triste que contrasta com a transparência do teu sorriso e com a vagarosa cadência da saudade que se instalou no meu olhar.



26 de junho de 2017

brevíssima crónica de agosto




Debruço-me sobre o silêncio, agora que o tempo já principiou a apoderar-se das memórias que buscam o aconchego da lareira.

Pouco a pouco, os sentidos vão perdendo o brilho que partilhavam com as adolescentes madrugadas de agosto. Vão perdendo a capacidade de se deslumbrarem face ao cheiro da terra e à alegria que esperava a cada esquina.

É verdade, mãe, que ainda resta o fascínio pela nudez dos sonhos recortados no crepúsculo, mas, esse, acabará por perder-se perante a indiferença. Ou perante a solidão.



25 de junho de 2017

o lado selvagem




São muito espessas as horas que se extinguem na confusão dos caminhos e no hesitar da memória. Quase sempre porque o silêncio e o vazio se conjugam exactamente da mesma maneira.

Às vezes, mãe, quando a madrugada se espraia pela inquietação dos meus sonhos, apetece-me reinventar o futuro através das sílabas que tecem a penumbra e a saudade. Os passos, porém, não acompanham a espiral do pensamento. Não é ainda o tempo de ignorar os flancos da melancolia.

A solidão é outra coisa!... A solidão, essa, apodera-se do reflexo dos nenúfares.



24 de junho de 2017

ser artesão de si mesmo




Nem sempre o futuro se assemelha à geometria dos sonhos. À lucidez dos desejos. Muitas vezes por culpa própria!... Onde existia generosidade sobreveio o calculismo e as palavras, essas, foram sendo substituídas por vocábulos inconsistentes, ambíguos e, não raro, em contradição com as antigas convicções.

Talvez o idealismo se tenha convertido numa utopia vaga. Sem substância. Incompatível com os desafios e as exigências que sucedem a uma adolescência que se extingue quase sem remissão. Como se a aprendizagem não fosse mais do que um hiato imprevisto. Como se, numa sorte de prestidigitação, pudessem apagar-se as referências que sustentam o carácter.

Não creio, mãe, na inevitabilidade das regras supostamente relacionadas com o que poderia caracterizar a maturidade. Como se pudesse colocar-se um enorme pisa-papéis sobre a objectiva individualidade. Como se o ser humano não fosse sinónimo de desassossego. De conquista!...

A experiência e a curiosidade não se situam em campos opostos. Tão pouco deve contrariar-se a vontade de experimentar outros caminhos que não sigam as pegadas de um passado longínquo. O homem deve assumir-se como o artesão de si mesmo e, se for caso disso, transformar-se num iconoclasta.



23 de junho de 2017

não pode ser só isto!...




...Seguro daquilo que lhe falta, o místico percebe que cada lugar por onde passa é ainda provisório e que a demanda continua. Não pode ser só isto!...

(...)

Como recorda Certeau, o místico "não habita em parte alguma, ele é habitado". E amarra-se, assim, não ao futuro, mas ao invisível. Quer dizer: ao ainda não (visível).

...

Caminho devagar. Não sou mais do que a lentidão do meu olhar poisado na inconsistência dos espelhos. Há uma permanente interrogação que não cessa de atravessar os meus dias. A própria nudez de um silêncio extenuado que se projecta no tumulto daquele outono.

Há - creio que nunca deixou de haver!... - um longo equívoco que se alarga pelos rostos sonâmbulos, como se a memória não fosse mais do que o prolongar da própria solidão. Como se a adolescência dos sorrisos se confundisse com a incoerência dos relógios.

Não sei como relacionar-me com a ilusão de um futuro que não consigo imaginar. Há muito que as minhas palavras deixaram de ser o reflexo desta realidade obtusa. Deste tempo cujos contornos vão tropeçando no precoce envelhecer dos diálogos. Na interminável convulsão de um passado apodrecido.



22 de junho de 2017

pelos recantos da memória




São rudes, por vezes, as memórias. Pouco dóceis e nem sempre disponíveis quando a saudade as procura na encruzilhada do tempo. É preciso vasculhar nos recantos menos óbvios do baú, para recuperar alguns fragmentos dispersos, não necessariamente sequenciais e quase nunca susceptíveis de reconstruir um passado pouco nítido.

Terão sido momentos determinantes ou, então, meras curiosidades sem outro interesse que não o de distinguir entre o acaso e o inconsciente. Seja como for, mãe, as folhas em branco do hipotético álbum, não são mais do que um convite à imaginação para especular sobre as probabilidades, sem verdadeiramente lhes definir os limites. Talvez fiquem a faltar alguns pilares e, sem eles, não é possível garantir-lhes a solidez.

Dir-se-á que são pormenores irrelevantes e, objectivamente, não há como refutar essa ideia. Não somos tão complexos na especificidade das nossas limitações?!... Pouco hábeis no confronto com os nossos próprios fantasmas?!... Para quê, então, essa urgência em nos tornarmos transparentes quando seria bem mais simples deixarmo-nos levar pela corrente sem cuidar do que ficou a montante?

É provável que a resposta se situe ao nível do cognitivo, no limiar de uma racionalidade mais elevada. Ainda que se trate de uma caminhada sem futuro.



21 de junho de 2017

timshel




Uma palavra!... Dir-se-ia apenas isso - uma palavra entre tantas outras. Uma palavra talvez privada da sua essência. Uma palavra desconhecida. Ou não!...

Uma palavra estranha. Desde logo um desafio. Provavelmente o mais objectivamente identificado com o livre-arbítrio que, por vezes, nos liberta das algemas que a inércia e o conformismo nos impõem. Uma forma de atingirmos a nossa própria consciência e, simultaneamente, a certeza de que as nossas limitações não nos impedem de dar um passo em frente sem receio do abismo.

Aqui estou reduzido à minha incapacidade de exprimir tudo o que ultrapassa o improvável. Não fora a míngua de talento, mãe, e poderia estabelecer um vínculo com as memórias que não esqueci, não obstante a tristeza. Não obstante a solidão.

Nada então seria impossível. A única dúvida haveria de limitar-se ao verbo a conjugar - à diferença entre o crer e o querer. A opção, em todo o caso, não constitui um dilema.



20 de junho de 2017

gin' ougo




Percorro o vazio que ficou daquela memória que, todavia, continua a preencher a esdrúxula inclinação das palavras órfãs do silêncio e da melancolia das paredes. Olho-me através da adolescente melopeia dos meus passos incapazes de reconhecerem a rugosidade dos caminhos, e sinto-me refém desta espécie de exílio que se reflecte na ausência das janelas.

As estrelas deixaram de ser capazes de se projectar no vagaroso espreguiçar das madrugadas. Dir-se-ia que os sorrisos se transformaram no próprio ronronar do desassossego. Na inútil explicação dos calendários.

Já não sou o prolongamento das horas na secreta geometria dos retratos. O tempo é agora o inquieto dedilhar do pensamento ou, se calhar, a agressiva arquitectura de uma solidão que me acompanha para além dos livros. Para além da dissonância dos monólogos.



19 de junho de 2017

um tiro no escuro




Nos diálogos que pontuam os caminhos de Axle Munshine, Christian Godard destaca a amizade como sendo um bem demasiado precioso para confiar a um ser humano.

Na vulgar estrutura das palavras, o que costuma definir-se como amizade, não é compatível com o grau de exigência que deveria ser-lhe intrínseco. Dir-se-ia que ser amigo é quase uma superficialidade e, essa, não se coaduna com o superlativo. Com a procura do absoluto.

Só muito raramente um amigo pega de estaca na alma e nos sentidos. O processo de fusão é lento, vagaroso, para que seja possível saborear cada momento e permitir que a semente possa desenvolver-se em harmonia.

É preciso que a indiferença se confronte com o seu oposto; que o silêncio tenha espaço para crescer livremente; que a alegria não se limite ao fogo-fátuo de um gracejo inconsequente. Um amigo é bem capaz de ser um projecto para toda a vida e, se calhar, os degraus prolongam-se inesgotáveis. Sem certezas, mas considerando cada gesto e observando os pormenores. Ainda que pareçam irrelevantes.

É por isso, mãe, que nesta busca incessante, nesta cruzada pouco óbvia, nem sempre o antagonista se situa no exterior. Nem sempre são os outros que armadilham as convicções.

Não se trata de um tiro no escuro, mas, não o sendo, a verdade é que se assemelha à essência de um acto de fé. Importa manter a ingenuidade da juventude, a capacidade de sonhar que caracteriza a adolescência e a determinação que ajuda a contornar as dúvidas que chegam com a rotação dos dias.



18 de junho de 2017

farsas




A voz de June Tabor parecia saudar o crepúsculo que descia sobre a cidade, como se o caos urbano e a impertinência dos semáforos clamassem por uma tranquilidade cada vez menos previsível.

Por trás de uma vidraça quase corroída pelo abandono, esquecido entre a poeira e a solidão, um derradeiro malmequer atrevia-se a desafiar a marcha do tempo. Sedentas e alquebradas, as pétalas tentavam inutilmente captar a atenção de um sol pouco credível. Ali, mãe, tudo parecia multiplicar-se pela decadência e pelo vazio.

O homem que o dobrar da esquina permitiu observar de relance, não era muito diferente dos demais que, àquela hora, se aprestavam para prosseguir o ciclo do desencanto que continua a sublinhar-lhes o dia-a-dia. Inerte, aparentemente alheio ao vaivém de quem pretendia usurpar-lhe os escassos centímetros disponíveis, era simultaneamente o personagem e o intérprete da mesma farsa em que participava o malmequer moribundo.



17 de junho de 2017

monotonia




Ali, em sossego, entre os canaviais que se multiplicam pelo leito do rio, a canoa quase se confundia com a bruma do entardecer. Foi então que a memória descobriu o pretexto por que aguardava para retroceder ao tempo em que os sonhos se demoravam no pensamento - o tempo em que as estórias se esboçavam no imaginário que resiste à passagem dos relógios. À subversão dos próprios sorrisos.

Parada, talvez entretida em secreto diálogo com as águas, dir-se-ia o prolongamento do homem cujos contornos a distância não permitia distinguir. Era, em todo o caso, a insurreição de uma paisagem desencantada com a monotonia das horas.

Quantas vezes, mãe, na descuidada azáfama com que se percorrem os caminhos, se deixam escapar estes pedaços de uma afectividade cada vez mais rara?!... Breves momentos que nos reconciliam com a ingenuidade de uma adolescência irremediavelmente ultrapassada pelos conceitos e pelos hábitos de uma nova realidade onde o silêncio não tem lugar.



16 de junho de 2017

a excepção e a regra




Quanta gente não recobra forças, só porque sente que alguém se preocupou pelo seu descanso e bem-estar!... Com pedacinhos de delicadeza assim, é mais fácil levar a vida até ao fim.

...

É essa a memória que me resta de tudo quanto no dia-a-dia preencheu aquela alegria quase lúcida - aquela alegria que se multiplicava pela cadência dos meus passos. Pela geométrica lentidão de um tempo que o próprio passado já não reconhece.

...E, vendo bem, é como se o silêncio fosse agora a abstracta desordem que me separa do envelhecer das estórias com que aprendi a projectar-me no sorriso de minha mãe. É como se me limitasse a ser o triste reflexo de um vazio sobre o qual desabou a indiferença.

Não tenho já como regressar a essa memória inseparável de um verão que se completava no secreto debruar dos calendários. Não tenho como recuperar as palavras rente à sombra dos pinhais. Deixei de me rever na rotina dos relógios e na melancólica ilusão dos espelhos.



15 de junho de 2017

genética




Há gestos que, por inesperados, se libertam dos limites da surpresa para se traduzirem no reflexo do que os sentidos intuem e que não se resume a uma explicação tantas vezes inócua.

...

Naquele dia, quando o silêncio principiava a sublinhar o crepúsculo que descia sobre a cidade, bastou um simples botão de rosa para que as palavras se transformassem no murmúrio com que se define a beleza.

O tempo, então, deixou de ter significado. Talvez, mãe, porque o beijo que te dei tenha sido diferente de todos os outros. Talvez por haver momentos únicos que se projectam na genética do pensamento. Da utopia.



14 de junho de 2017

causa e efeito




O silêncio torna-se perceptível - quase tangível - sobretudo quando é a solidão que me preenche as horas. À medida que foram sendo construídos os muros da indiferença, o tempo acentuou os sinais deste desencanto que, todavia, não se reflectiu no futuro que estava por descobrir.

...E ele chegou depressa!

Não ignoro os aspectos que contribuíram para que me fosse mantendo à margem de um equilíbrio dito racional. Se calhar é por causa deles que consigo olhar-me com alguma parcimónia, revendo-me nas etapas que fui ultrapassando, como se a um gesto se seguisse outro, talvez predeterminado, numa sequência de equações quase metafísicas.

Dir-se-ia, mãe, que as esquinas se tornaram inúteis. Os dias já não acontecem a um ritmo definido pela rotina. Os olhos habituaram-se àquele sorriso que se prolonga na madrugada, e os sentidos, oscilando entre o êxtase e o deslumbramento, adquiriram uma tranquilidade que se sobrepõe à impaciência de quem desconhece os obstáculos e os caminhos.



13 de junho de 2017

inquietação




O silêncio fez-se enorme, semelhante ao bucolismo que a memória ainda era capaz de reproduzir. Como o sussurro do rio na proa de um barco a projectar-se na lentidão do luar.

Aquele, mãe, deveria ser um outono diferente, longe dos equívocos que se perdem na confusão dos passos. Perto do olhar que não se revia nas promessas sem substância.

...E no entanto, quando mais nada se interpunha entre os sonhos e a solidão - quando a realidade se aprestava para preencher o caudal da incerteza - as interrogações foram-se multiplicando por um futuro distante da cumplicidade desenhada no pensamento. Na alma.

Inaudíveis, as palavras não deixaram que o sossego e a razão se antecipassem à trajectória da saudade que os relógios teciam. Que os espelhos prolongavam pelo infinito.

 ...

O tempo - qual ancião que aprendeu a interpretar os ventos e os sinais - ajudou a relativizar as mágoas, mas não a dissipar o desencanto.

Ao percorrer os caminhos onde a adolescência se fez refém dos seus próprios desafios, era o som de uma guitarra que fazia transbordar os sentidos e se reflectia na inquietação dos dias à beira do absoluto. Foi ali que as dúvidas e o deslumbramento coincidiram. Foi ali que um sorriso muito tímido desfez as rugas gravadas no rosto de um setembro longínquo.



12 de junho de 2017

fronteira




Era habitual confrontar-me com a ausência das palavras para que, depois, o diálogo me permitisse a reflexão através da minha própria subjectividade.

Agora, os interlocutores pouco têm de comum com aqueles que fui encontrando nos alcatruzes do desassossego. Na realidade foram sempre muito escassos e, por outro lado, os que mais se aproximavam não tardavam a ficar para trás. Não por demérito, mas, se calhar, porque nunca me conformei com os louros de um contentamento prematuro. Superficial.

Os patamares não significam o fim da subida, apenas permitem descansar para, então, enfrentar um novo desafio. Aceitá-lo, mãe, define a fronteira entre o sonho e os equívocos.



11 de junho de 2017

pelos atalhos da alegria




Subiste lentamente as escadas do silêncio. Cada passo e cada gesto dir-se-iam espirais de ternura tecidas nos meus olhos deslumbrados. Como se as águas de um rio, no caminho para a foz, parassem por um momento na contemplação das margens ou, discretas, embalassem a proa de um barco quase lúcido. Quase feliz.

Escorriam pelos teus cabelos os fios das madrugadas longínquas, quando os sonhos e a saudade se perpetuavam no orvalho que sobrevivia às cores do amanhecer. Cinzelado pelos dedos da memória, o teu sorriso assemelhava-se ao canto de um rouxinol a espraiar-se pelos atalhos da alegria.

De súbito um grito de palavras estranguladas, como se a realidade se projectasse na imensidão da distância. Na vertigem do desassossego e na música da tua voz. Um sinal apenas, ou talvez fosse o cheiro da maresia a percorrer as raízes da tristeza.

Quando entraste, mãe, a chuva desabou sobre a cidade, mas foram as minhas lágrimas que anunciaram a chegada do outono.



10 de junho de 2017

insustentável




As árvores definem a fronteira que me separa dos limites da memória. Abro a janela e vejo-as no mesmo lugar onde o teu sorriso se aproximou da madrugada e se projectou nas pétalas da rosa que te dei.

Mas é com a mágoa que me confronto!... A mágoa de saber que, entre nós e o sossego, se erguem os insustentáveis cortinas da distância, a impedir que os nossos olhos se reencontrem na geometria do silêncio.

A minha mão tenta atravessar a espessura da bruma e do desencanto para, enfim, se demorar na paciente curva do teu rosto. No despertar da saudade e no contorno das promessas que desenhei na transparência do orvalho. E pergunto-me, mãe, por que dói tanto esta proximidade do vazio...!



9 de junho de 2017

como um jogo insolúvel





Resmungamos com a vida. Falta-lhe alguma coisa, nunca nada é perfeito, nada está acabado ou resolvido. É como se estivéssemos a jogar um jogo insolúvel.

...

Volto sempre à memória de setembro. À translúcida geometria do silêncio que nunca mais foi o mesmo. Dir-se-ia que me perdi de mim mesmo ou, se calhar, transformei-me num equívoco. Numa sucessão de perguntas que se apagam à beira da incerteza.

Outrora, quando os calendários ainda se partilhavam com a cadência do comboio, era o habitual ronronar de uma alegria que se espraiava pela interjeição do olhar. Era o reencontro com os amigos que, depois, ficaram reféns numa esquina do tempo. No inacessível tiquetaque do vazio.

Talvez não seja este o caminho que os meus passos sempre procuraram. Talvez fosse preferível tentar recuperar os carreiros adolescentes de que ninguém parece recordar-se. Mesmo que as palavras se esgotem na lentidão dos monólogos. Mesmo que as sombras já não se projectem no anoitecer de um sorriso.



8 de junho de 2017

exígua parcela




O crepúsculo descia sobre a cidade. O relógio aproximava-se do instante em que aquele dia seria apenas passado. Nada sabia, entretanto, sobre a transparência que filtrava as tuas palavras repletas de mágoa. De saudade.

Foi então, mãe, que a noite se instalou no outro lado das paredes recortadas no cheiro da solidão. Foi então que os meus gestos se perderam na exígua parcela de uma alegria quase perversa. Curiosamente, sem que o tivesse previsto, tornei-me cúmplice de uma espécie de sossego que se reflectiu nas estrelas.

Lentamente, o teu sorriso espraiou-se pelas interrogações do meu olhar, até que o sono se sobrepôs à vertigem da surpresa. A eternidade, essa, aconchegou-se nos ponteiros do silêncio!...



7 de junho de 2017

um certo e previsível rumor




Vieste dos lados do sol trazendo a memória das madrugadas distantes, quando os sonhos e os sorrisos se vestiam com as cores do silêncio. Quando os segredos se pareciam com o dizer de um poema e com o cheiro que, em agosto, preenchia os horizontes.

Vieste dos lados do sol, mãe!... Quase anónima e, mesmo assim, transbordante.

Chegaste com a tranquila ondulação da brisa. Na serenidade de cada gesto. No previsível rumor da saudade!... A cada interrogação, mais se alargava a alegria das palavras que não te disse porque, havia muito, as misturara com as gotas de orvalho que amanheciam no teu olhar.



6 de junho de 2017

proximidade




Vou percorrendo o caminho entre o outono e a tristeza. Uma distância que se multiplica pelas palavras que me chegam desse lado da saudade onde os sonhos permanecem.

São notícias que me recordam a nossa memória comum. Que me recordam aquele dia em que nos revimos um no outro, quando o silêncio se fez nos lábios e se projectou nos atalhos sob um céu sem limites. E volto a adormecer na lentidão do vazio.

Depois, mãe, quando a madrugada se confunde com a paciência dos relógios, os meus sentidos prolongam-se pela eternidade. Pela solidão.



5 de junho de 2017

da súbita percepção




Não sei o que foi que aconteceu. Talvez a materialização de um daqueles sonhos tardios, quando a noite se aproxima da geometria do sossego.

O que quer que tenha sido, mãe, tornou-nos íntimos do silêncio, na perspectiva de um sorriso que não tardaria a chegar.

E todavia - soube-o quando o sol principiou a insinuar-se pelas janelas!... - não era mais do que o cheiro da maresia ou, melhor, a súbita percepção do que há de transbordante nas estrias da saudade.



4 de junho de 2017

sobre os caminhos




Tal como a utopia na arquitectura dos sonhos, assim a persistência deve ser indissociável da vontade, quando os caminhos são difíceis e longínquos os horizontes.

Nem sempre a obstinação e a memória se conjugam, mas talvez o coração seja impermeável aos gestos em que se reflecte o vazio. É preferível deixar que o tempo cumpra a sua tarefa e que a alegria possa subir ao olhar onde se projecta a saudade. Deixar que o desencanto envelheça para que a madrugada se prolongue pelos relógios.

Deixar, mãe, que o silêncio se instale nas janelas. Que a solidão se afaste quando chegar a manhã e o teu sorriso se desenhar na fragrância do orvalho.



3 de junho de 2017

introspecção




Debruçada sobre o matinal sossego das águas que reflectem a melancolia do lugar, a memória retrocedeu até aos flancos do silêncio que marca a fronteira entre os sonhos e as inquietações de uma adolescência quase sempre refém das dúvidas. Do vazio.

Um lugar onde, todavia, o futuro não se limita à percepção dos minutos que escorregam pela engrenagem do tempo, nem se esgota na despreocupação dos dias que prolongam a lentidão do estio. Um lugar onde o caminho se faz através dos desafios com que se ignoram os conceitos preestabelecidos.

Agora, mãe, não obstante as recordações, é preciso que os passos se reconciliem com uma autonomia que lhes permita o equilíbrio sobre o envelhecer das palavras. Talvez por isso seja tão necessária esta introspecção que reduz o desencanto à dimensão da saudade.

Porque, apesar de tudo, a solidão continua à distância de um só gesto. Do menos provável.



2 de junho de 2017

uma questão de olhar





Cada um de nós tem tudo de que precisa para experimentar a alegria. Não é um problema de conhecimento, é uma questão de olhar. Olharmos para o que somos e para o que nos rodeia com um coração simples, capaz de perceber o dom que nos habita.

...

É na multiplicação de cada gesto pela nupcial geometria do silêncio, que os meus passos se vão aproximando da inocente carícia das palavras. Que os caminhos se descobrem no anoitecer da memória.

Talvez os olhos tenham deixado de se demorar sobre a vagarosa simetria das abelhas. Talvez este já não seja o tempo de procurar a alegria na fragmentação das coisas mais simples. Talvez já nada reste para além dos sorrisos que se perderam na distância. No adolescente rumor dos corpos.

Aqui, onde as esquinas se resumem à imperceptível - e, não obstante, óbvia - trajectória de uma complacente melancolia, vou-me confrontando com a hesitação das páginas em branco e com a lucidez de um lápis que insiste em percorrer o derradeiro chapinhar de agosto.



1 de junho de 2017

sob a luz de um lampião




Hoje, mãe, no reencontro com as palavras onde os segredos se reúnem, dei por mim lado a lado com a memória que não cessa de me surpreender. Lembrei-me de que costumavas acenar-me daquela janela sobranceira ao silêncio dos lampiões. À chegada do crepúsculo.

As recordações reflectiram-se na lucidez de um sorriso, ignorando a sucessão dos gestos pantanosos. Desafiando a distância, ao mesmo tempo que a noite se alargava pela cidade, tudo em mim se multiplicou pela geografia da saudade.

Os pássaros vieram com a lentidão da brisa. Os sonhos, depois, transformaram-se na ternura que brincava nos teus olhos.

31 de maio de 2017

perspectivas




Debruço-me sobre as ameias do silêncio, onde o inverno há muito se instalou, e recordo o perfil dos sonhos jovens, ainda ocultos pela bruma das madrugadas em que o tempo não era o reflexo do vazio.

...Como se o futuro se tivesse privado dos seus próprios desafios, ou se as aves se perdessem na memória dos horizontes.

Em todo o caso, mãe, preciso recuperar a vontade que costumava anteceder a busca do desconhecido na perspectiva do infinito. Preciso que o teu sorriso permaneça, não obstante as interrogações. Não obstante as armadilhas.



30 de maio de 2017

fascinação




Foi apenas um sussurro. A inexplicável textura de um grito sufocado pelo contemplar do sossego. Pela outrora imperceptível claridade.

Um sonho!... Uma carícia no rosto do crepúsculo, como se houvesse um promontório a tolher-nos a passagem ou, então, mãe, como se a madrugada não tivesse interrompido a alegria que caía sobre as horas.

Como se o tempo nos esperasse à beira da eternidade.



29 de maio de 2017

padrões




Quantas vezes as dúvidas não se intrometem entre os sonhos e o desconforto perante uma realidade amorfa?!... Uma realidade que se reflecte nos rostos. Nos gestos.

Por que há-de a saudade ser sinónimo de absurda inquietação, quando os padrões ditos normais são, eles mesmos, o fulcro da intolerância e da imposição de regras que apenas conduzem a interrogações incapazes de discernir entre a distância e a memória?

A saudade, mãe - porque é dela que se trata - não tem que se ocultar nas esquinas do vazio. Nas recordações que se esgotam na indiferença das paredes nuas. A saudade não se conforma com a ausência de um sorriso a pairar sobre a tristeza.

A saudade não se combate com estereótipos acantonados nas trincheiras da irracionalidade.



28 de maio de 2017

entre os sonhos e a matéria




Nem sempre a alegria se reflecte nas palavras que se dizem quando o sossego sucede à cadência da ternura. Às vezes, mãe, é no silêncio que os sentidos se projectam. Saciados - por que não dizê-lo?!... - pela eternidade de um instante.

É porém no transbordar de um sorriso que se completa o ciclo da madrugada. Que a confusão se dissipa e se entende a vocação da saudade. É aí, quando os gestos se equilibram sobre o fio da navalha, que se adquire a sensação de que as coisas são possíveis. De que os sonhos não voltarão a ser a ausência da matéria.

...Ainda que, ao princípio, as circunstâncias não pareçam capazes de sobreviver às interrogações de um quotidiano quase híbrido. Quase tresmalhado.



27 de maio de 2017

o crepitar de um sorriso




A noite ia trepando pela indiferença dos relógios. Cortante, o frio convidava a permanecer entre as paredes do meu quarto onde a música se reflectia na penumbra do vazio. No rodapé do sossego.

...

O silêncio era apenas um sinal, mas a calma aparente não bastava para filtrar os vestígios da tristeza. Indecisos, os gestos denunciavam o cansaço que desaguou no coração da memória.

Dir-se-ia inevitável a perspectiva do abandono. Ainda assim, ousei aventurar-me pelas estremas da distância, sem verdadeiramente me aperceber dos limites do absurdo. Ou talvez a esperança fosse o meu derradeiro recurso.

O que quer que fosse, mãe - o que quer que me tivesse levado por aquele caminho - deve ter-me confidenciado que ali, à minha espera, estaria o crepitar de um sorriso. O teu sorriso!...



26 de maio de 2017

desmedidamente presente




...A mãe está sentada e o filho morto repousa no seu colo. Os biógrafos de Michelangelo são unânimes em sublinhar a importância da figura materna na sua obra: ele perdeu a mãe aos seis anos e, em muitos momentos, a sua arte será uma espécie de diálogo - em evocação discreta ou em puro grito - com essa figura ausente e, por isso mesmo, desmedidamente presente.

...

Como se o silêncio continuasse a multiplicar-se pela geometria dos espelhos, vou por aí através das palavras adolescentes que nunca deixaram de me acompanhar. Uma certa forma de me proteger do vazio e, se calhar, da minha própria indiferença.

Não sei se ainda consigo reconhecer-me nesta realidade em que procuro refugiar-me. Dir-se-á, por certo, que os caminhos deixaram de ser o reflexo das canções que ouvia minha mãe cantar, no tempo em que a alegria se demorava no secreto tiquetaque dos relógios. A verdade, contudo, é que as recordo para além da distância. Para além dessa ausência que não é mais do que uma ilusão.

As janelas, agora, abrem-se sobre a sombria perspectiva dos retratos, sem que a memória ouse projectar-se nos meus olhos indefesos. Há muito que deixei de dialogar com um passado que mais ninguém viveu. Talvez não tenha mais do que esse futuro a que, creio, nunca haverei de pertencer.



25 de maio de 2017

a jusante da incerteza




Por onde principiar, mãe? Como alinhavar o silêncio na desordem das palavras e permitir-lhe que se espraie pela lentidão dos búzios? Como evitar o eco da solidão nos parapeitos corroídos?

Do dia - deste dia - sobrou a distância que se multiplicou pelas esquinas do absurdo, quando os meus gestos se perderam no vazio, ao mesmo tempo que as dúvidas me preenchiam o olhar e se acumulavam no rodapé de um futuro inexistente.

Sobrou a perspectiva das horas extraviadas. Sobrou a confusão dos sentidos sobre as coordenadas da memória e sobre o cheiro da saudade. Sobrou a imensidão dos degraus. Sobrou a transparência do teu sorriso!...



24 de maio de 2017

as regras do jogo




Não é fácil conciliar as palavras, quando a saudade parece ser um obstáculo intransponível. Talvez o mais determinante!...

Desamparadas, inocentes, leves, como se lhes referiu Eugénio de Andrade, as palavras não hesitam em instalar-se-me no pensamento. Não seria racional detê-las, de tal forma elas se me impõem. Resta disputar o jogo de acordo com as regras pré-definidas. Em todo o caso, devo reconhecer-lhes capacidades não negligenciáveis, susceptíveis de me conduzirem ao cerne da solidão.

Não raro se afiguram lúcidas e, por vezes, o próprio sossego revela-se um escudo ineficaz. Que fazer, então, quando o vazio se projecta na distância? Que fazer quando a memória me arrasta pelos caminhos que deixaram de conduzir ao anoitecer das estórias entre a lareira e a lentidão do alpendre?

Que fazer, mãe, quando apenas os retratos me trazem o teu sorriso?!...



23 de maio de 2017

da poeira dos caminhos




É um silêncio transparente, esse em que as palavras se reflectem na nostalgia dos horizontes que não conheço. O lugar em que me reencontro com os sonhos que tomam conta das horas e que definem a minha própria ausência.

A distância - hoje como sempre - continua a alimentar esta ilusão que prolonga a incerteza e o medo de ser apenas a substância de um amanhecer sem a curva do teu sorriso. Sem a erupção da memória, quando os meus olhos se detinham na vastidão dos teus.

Resta-me a saudade dos dias que não vivi. O crepitar da lareira e a persistência da chuva a escorrer pelas janelas. A música, mãe, continua a ser a mesma, mas privados do som dos teus passos, os meus passos vão-se habituando à poeira dos caminhos.



22 de maio de 2017

elegia




As palavras aprenderam a prosseguir o caminho através do desencanto. As mãos rasgaram o silêncio que desabou sobre os olhos. A saudade, essa, sobrepôs-se à resistência das horas.

Não sei se a música se terá projectado na distância e no vazio ou se, por outro lado, se terá limitado a ser parte do murmurar da memória.

A noite fez-se enorme, mãe!... Maior até do que a solidão que recortava o luar e descia pelas paredes, ao mesmo tempo que os degraus da tristeza se prolongavam pelas estremas do absurdo.

Nada mais restou no desenho dos espelhos. Como se a proximidade do absoluto tivesse preenchido a própria lentidão do crepúsculo. Como se o teu sorriso atravessasse o singular amanhecer dos meus sonhos.



21 de maio de 2017

entre os álamos




Vinha dos lados do rio o rumor do silêncio e da memória. Insinuante, o vagaroso cheiro da madrugada antecipou-se ao sossego dos sentidos.

O olhar confundiu-se na espiral que as sombras projectaram na essência do próprio sonho - aquele sonho que se multiplicou pela distância e pelos labirintos do vazio. Como se fosse um poema a escorrer da solidão.

Foi ali, mãe, entre os álamos, à beira do crepúsculo, num chão sem pegadas, que descobri o significado das palavras protegidas pelas pétalas da tristeza. A noite afastava-se lentamente, mas as estrelas, essas, surpreenderam-se com a trajectória da saudade.



20 de maio de 2017

sobre a primavera




A primavera não é apenas uma estação exterior - nem sempre se resume a um assunto climático ou botânico - mas tem uma acepção inevitavelmente humana.

...

O que sei do silêncio é tão-só o que me trouxeram as palavras adolescentes que escrevi no limiar da minha própria utopia. Isso, porém, foi no tempo em que os meus sonhos eram diferentes de qualquer outra coisa, como se não existisse mais nada para lá da porta que, do alpendre, se abria para a insurreição do olhar.

Foram aqueles dias - irremediavelmente escassos - em que percorri a quase humanidade de uma alegria que, no entanto, pouco se demorava nos rostos e nos espelhos, mas que sempre nos acompanhava na viagem de regresso.

Minha mãe e eu vivíamos, então, muito perto da memória dos dias que prolongavam o sossego e se multiplicavam pela lentidão de um futuro inexistente. Vivíamos na promessa de um sorriso que ainda não era o reflexo do outono no perfil dos calendários. Só mais tarde - bem mais tarde!... - me dei conta de que a primavera se perdera no caminho.



19 de maio de 2017

tentáculos




Ainda que o silêncio se demore na periferia do orvalho e a madrugada principie a alargar-se pela timidez das palavras, este é o tempo de me refugiar na memória e prosseguir a viagem pela lentidão do vazio.

São demasiado ténues os vestígios de uma alegria apenas pressentida e raramente esboçada na inocência dos lábios. Aqui, mãe, aonde me trouxeram os sonhos coniventes com a saudade, imagino-me a calcorrear a imensidão do teu olhar. A secreta explosão do teu sorriso.

Os dias, porém, repetem a sucessão da sua própria metamorfose. O cansaço já não permite que os gestos se multipliquem pela esperança e pela ternura. As rugas já me invadiram o rosto, mas é na alma que as sinto, como tentáculos a dilacerar o futuro. O desalento é a mais óbvia das consequências.

Como se o sossego se tivesse perdido por entre as esquinas da solidão, também os meus olhos se vão habituando às teias do desencanto. Já nada me prende ao meu próprio reflexo. Nem a melodia do anoitecer quando o outono se derrama sobre as árvores.



18 de maio de 2017

circunstancialmente




Nada sei deste deserto, a não ser pelas interrogações que me conduzem à periferia onde se projecta a tua ausência, mãe. Insisto, contudo, em prolongar o vazio que se apossa do meu olhar e da simplicidade das coisas que te ofereço.

Sempre perpendiculares à consequência dos sonhos, talvez os dias se tenham habituado a permanecer em silêncio, mesmo quando a luz regressa da sua própria sombra. Aqui, onde a ignorância se alarga pelos detalhes do caminho, mantenho-me atento às evidências que me ferem a memória e destroem a vontade.

Talvez eu possa envelhecer entre a transparência do orvalho e a melancolia do violino que percorre as minhas palavras quando tropeçam no rumor da saudade. Talvez tenha chegado o tempo de esquecer os receios adolescentes e, por fim, deixar que a solidão se instale na poeira dos meus passos.



17 de maio de 2017

confissão




Por onde principiar a confissão desta angústia que me escouceia o peito, ao mesmo tempo que as sombras do crepúsculo se adensam na teia do horizonte? Que fazer com esta ternura que se apodera da intangibilidade do meu silêncio incapaz de subverter o ciclo da solidão?

Não sei como impedir que os dias corroam os derradeiros vestígios de uma vontade já sem argumentos para se libertar da sua própria memória. Como evitar que as metáforas continuem a domesticar as palavras que se mantêm fiéis aos meus sonhos de adolescente.

Quero sair daqui, mãe!... Esquecer que as horas se limitam a adiar o desejo e partir até reencontrar o aconchego do teu sorriso. O olhar, porém, já se quebra pelo cansaço e pelo desânimo. Já se submete aos desígnios da incerteza.

O que resta de mim é a imensa nostalgia das pupilas aprisionadas por trás desta janela.



16 de maio de 2017

para além dos sonhos




A noite passou sem pressas entre a exiguidade das persianas e a penumbra do silêncio que a manhã trouxe consigo. Dos sonhos ficou apenas o vazio do lugar que ocupaste - o lugar que foi teu na melancólica geografia do sono.

E ficou o teu sorriso. Uma realidade improvável, amordaçada pelo turbilhão das imagens. Pela solidão das paredes deste quarto.

Diria que são escassas essas horas de precária vigília em que te vejo tão nitidamente. Em que te tenho comigo. Talvez um dia a madrugada me surpreenda. Talvez ela possa vir a ser o prolongamento de um abraço, mãe. Do beijo que voltarei a dar-te!...



15 de maio de 2017

mais do que nos gestos




Anoitecia, ainda que o crepúsculo se demorasse na vagarosa letargia do outono, quando os teus braços se ergueram em busca de aconchego no desalento dos meus olhos. Cruéis, as perguntas soletravam-se no silêncio dos teus lábios.

Dissemos tantas coisas, mãe!... Com algumas até a memória se surpreendeu, escondidas que estavam nos detalhes do pensamento: a antiquíssima substância da ternura; a discreta luminosidade dos pinhais; os campos onde as papoilas se desenhavam na projecção de um sorriso.

...E antecipámos o insensato instante do adeus!

Mais do que nas palavras - mais do que nos gestos - foi na trajectória do vazio que me dei conta do peso da solidão. Depois, quando os relógios já se inclinavam sobre o ocaso, os tons fulvos do entardecer precipitaram-se sobre as lágrimas. Sobre o espanto!... Até se confundirem com a percepção do abandono.

Foi ali que a noite me encontrou. A noite e o rumor da escuridão.



14 de maio de 2017

da noite que principiava




Bastar-me-ia ser poeta, ou possuir um talento singular, para conseguir dizer o que os gestos não alcançam. Para falar do que faz bater o coração até ao limite do possível e o olhar perder-se nos abstractos contornos da realidade.

Talvez então fosse capaz de revelar o que ficou gravado na memória desse dia - da noite que principiava - em que nos revimos um no outro. O anúncio da solidão na vertigem de um abandono que se prolongou bem para lá do vazio. O sabor daquele beijo onde o silêncio se extinguiu...!

Mas eu, mãe, a quem as palavras gostam de surpreender, só posso esperar que a saudade te segrede aquilo que não sei como explicar.



13 de maio de 2017

como um simples fio de água




Como a brisa que passeia pelo silêncio das searas, ou como um sorriso tímido na periferia de um sonho, é assim que continuas a preencher a confusão dos meus passos.

Como um simples fio de água na vastidão do deserto...!

Somente tu, mãe, consegues afugentar a solidão dos meus dias. É, de súbito, um mundo por descobrir; um gesto novo que é preciso entender; o branco de uma tela a desafiar as cores. Então, sílaba a sílaba, invento palavras que ninguém antes dissera porque, antes, apenas o vento passava pelos caminhos da memória.

...E no fundo dos teus olhos, volta a reflectir-se a ternura que a saudade reclamava. Nos teus lábios, neles, desenha-se a alegria de um tempo que se esgotou.