31 de dezembro de 2016

pelos caminhos de siddhartha




São inúmeros os caminhos. Atravessam quase sempre a penumbra da memória e a ladainha da indiferença. Os que restam - os que se afastam da turbulência das palavras - são pouco óbvios. Não são fáceis.

Falta-lhes a alucinação dos dias. A cadência dos passos que se aproximam do vazio. Não foram rasgados pelo caudal da alegria, mas são percorridos pelo cheiro do silêncio. Pelo amanhecer do olhar.

Depois há os sonhos e, esses, como os sorrisos, multiplicam-se pela essência do abandono. Pelo reflexo da solidão. O futuro, porém, tropeça naquela encruzilhada rente às trevas. Rente aos sulcos da tristeza. Lentamente, a saudade não cessa de crescer.

E a saudade é como um pássaro sem o céu para voar!...



30 de dezembro de 2016

pátroclo e a memória




O corpo inerte. Os relógios que prolongam o silêncio para além das palavras que se refugiam na lentidão do outono. No súbito anoitecer do olhar.

Não há outra forma de aconchegar a saudade nas ruínas da memória. Não há, na cadência da solidão, outro jeito de reaprender a viver. Outro vazio. Outro deserto onde os sonhos se libertem da indiferença.

O sorriso já não se desenha na melancolia do crepúsculo. Pouco a pouco, o passado vai-se confundindo com o peso da distância. O futuro, esse, é apenas uma estrada sem campos magnéticos, onde as bússolas não têm qualquer utilidade.



29 de dezembro de 2016

um olhar de gesso




Um silêncio espesso a percorrer a saudade que se alarga pela memória. O olhar parado na lentidão das paredes. No amanhecer das palavras.

Ao lado dos livros e da solidão, Eros assemelha-se à tristeza de um outono sem luar e ao bater de um coração que se esqueceu de ter esperança. Que se esqueceu da ternura. Um rosto branco, perfeito, mas sem vida.

Há contudo, para além do abandono e para além das molduras, um breve rumor de folhas que a brisa vai agitando. Verdes, como sonhos que se tecem nos sulcos da madrugada. Tangíveis, como o sorriso que se prolonga pelos búzios. Que se projecta nos rios.


28 de dezembro de 2016

entre ítaca e o vazio




Era uma forma de projectar o silêncio através da solidão. Uma forma de mergulhar no vazio sem que os sonhos se esgotassem.

Como se fossem de areia - tão escassas como os lugares entre o outono e a lentidão do olhar - as palavras demoravam-se no parapeito da memória. Versos avulsos numa ampulheta esquecida pelo tiquetaque do tempo.

Restava um sorriso na imperceptível geografia dos gestos!... Um sorriso paciente no debruar da saudade. Um sorriso da cor da ternura que as paredes não esqueceram. A última fronteira antes de o sono chegar.



27 de dezembro de 2016

da secreta natureza dos sonhos




Longe do sonolento tiquetaque da solidão, a noite, bem perto da rugosidade do silêncio, prolonga-se pela transparência das palavras semelhantes à cantilena dos búzios.

É uma realidade diferente, essa que se alarga pelas paredes que cheiram a madressilva. Que têm a textura do orvalho e da alegria. Uma realidade que se multiplica pela natureza dos sonhos e pela perfeição de um sorriso que resiste ao folhear da tristeza. À lentidão dos ponteiros que se projectam no vazio.

É então que as perguntas se completam no amanhecer de um poema. Na carícia das respostas que lembram aquele olhar à beira do infinito. Da eternidade.



26 de dezembro de 2016

um certo e longínquo novelo




Era em azul que se pintavam os dias. Como um novelo que se enrolava em redor da madrugada. Era o silêncio que se fazia no adolescente rumor de um sorriso.

Foi na transparência de uma alegria imprevista, que o olhar se deteve no apelo muito breve da vidraça. Na projecção de um rosto que sobrava da frágil geometria do abstracto. Talvez fosse sábado - ou sexta-feira!... Na verdade pode ter sido noutro dia qualquer.

Fosse como fosse, a música não era coisa que pudesse confundir-se na indiferença das estantes. No alinhamento da memória. A música, porque o tempo não se esgota na lentidão do futuro, continua a ser o perfil de um caminho secreto, mas com pontes. Continua a ser o reflexo da saudade.



25 de dezembro de 2016

ausência




Nada restou daquela ausência que se multiplicou pela trajectória do desencanto. Nada restou. Nem o vazio.

A própria memória não conserva mais do que um hiato sem palavras. Sem um rosto que possa reflectir-se na metamorfose do olhar. Sem o esboço de um sorriso e sem a adolescente partilha dos gestos. Sem a luz no fundo dos espelhos.

Nada restou desse tempo em que o silêncio crescia na turbulência dos sentidos. Na melancolia dos passos e na lentidão dos caminhos. Nada restou!...



24 de dezembro de 2016

quando um olhar




Há muros - ou talvez seja o pressentir das ilusões - que se intrometem entre o silêncio e a textura do olhar. Como se o tempo fosse apenas o retrato do vazio.

Há palavras que se calam no amanhecer de um sorriso. No anoitecer da distância que se prolonga pelos gestos descuidados. Há sonhos que se aconchegam na abstracção das molduras. No vagaroso tiquetaque da solidão.

Mais do que uma promessa, há corpos que se demoram na lentidão da ternura. Que ardem na adolescente explosão da beleza. No reflexo da sua própria saudade.



23 de dezembro de 2016

da poeira e dos retratos




Chegam do outro lado dos calendários. Há sempre um sorriso que se prolonga pelos sulcos do silêncio. Pela melancolia do futuro.

Confusos, os passos caminham pela indecisão das palavras que se multiplicam pela extremidade de setembro, como se ainda fosse o tempo em que os sonhos se demoravam à sombra dos pássaros. Na própria ausência de uma canção de embalar.

Chegam do outro lado da ternura. Do outro lado da solidão!... Os dias, agora, já não se enfeitam com a memória desse lugar onde se escrevia um poema no reflexo do orvalho. À beira da madrugada.



22 de dezembro de 2016

...sooner or later!




Everything changes...

...

Indomável, o tempo passou por nós como se nada mais houvesse para além da meticulosa geografia do silêncio. Como se as palavras fossem, tão-somente, atalhos perpendiculares à melancolia do futuro. Ao peso da solidão.

Já não me recordo onde foi que o Stian e eu nos descobrimos no mesmo lado da adolescência. No prolongamento do olhar através de um sorriso quase clandestino. A verdade é que, depois disso, nunca mais os caminhos se rasgaram na consciência do vazio. No sublinhar da indiferença.

Hoje, porém, quando nos reencontramos no reflexo dos espelhos, dir-se-ia que o passado não foi mais do que a inútil tentativa de contornar a fria arquitectura dos calendários. Indefeso, observo o significado das nossas dúvidas. A cruel desolação da distância percorrida.



21 de dezembro de 2016

alegria




Lá fora, a noite era apenas a bissectriz das imagens que se arrastavam pelo vazio dos espelhos. Pela turbulência das palavras.

O silêncio, contudo, não cabia na impaciência das paredes onde o ricochete das vozes se assemelhava ao inadiável caudal do desencanto. À explosão da melancolia sobre a superfície da memória.

Muito tristes - quase tresmalhados - os gestos reflectiam-se nos olhos fatigados. Um olhar imenso, onde a esperança se cruzava com a indiferença. Com as ruínas do futuro. Um olhar perdido na distância. No rodapé da saudade.



20 de dezembro de 2016

um dia perfeito




Na urgente embriaguez da madrugada, os galos partilhavam com as abelhas o espreguiçar das horas que se antecipavam ao tiquetaque do relógio.

Estremunhadas ainda, as janelas permitiam que o som difuso dos passos se insinuasse no amanhecer dos sonhos e na discreta penumbra do sossego. O breve rumor de um sorriso alargava-se pelas descuidadas esquinas do silêncio. Pela lentidão do olhar.

Uma toalha de linho já puída pelo peso dos calendários. As palavras repetidas no emaranhado da memória. Quase uma promessa no desatar da alegria. No tactear da saudade.



19 de dezembro de 2016

migrações




Ano após ano, entre a lentidão dos calendários e a geometria das palavras que se reflectiam na distância e, às vezes, no próprio espreguiçar da memória, as cancelas voltavam a fechar-se sobre os caminhos. Sobre o que restava do brevíssimo chapinhar da alegria.

Era então, quando o cheiro da saudade se derramava no entardecer da brisa, que o olhar costumava poisar na rugosidade das paredes que tinham a cor do sossego. Um sossego quase translúcido - quase adolescente - que se tecia na horizontal ondulação das searas.

O tempo, contudo, parece ter-se multiplicado pelo caudal do vazio. Os rostos não são mais do que retratos arrancados à poeira do silêncio. Os sonhos, esses, vão tropeçando nas raízes da melancolia.



18 de dezembro de 2016

permanent yesterday




No outro lado do silêncio, onde a saudade se reflecte na melancolia dos passos, deve haver um sorriso que se prolonga pelas coordenadas do tempo. Pelas pétalas da memória.

As palavras - ou talvez seja a transparente inquietação do olhar - demoram-se na incerteza das velhas estórias que se inventavam à sombra da alegria, quando agosto e o orvalho não se limitavam a deslizar pelos calendários sonâmbulos.

Havia uma espécie de pureza que sobreviveu ao cheiro da resina. Uma espécie de nudez que continuou para além dos espelhos. Para além dos eucaliptos arrancados ao abraço da solidão. Havia os sonhos na projecção do luar. No adormecer das candeias.



17 de dezembro de 2016

improviso sobre a distância




O verão atravessava-se através dos pinhais onde se refugiava a transbordante melodia do silêncio.

Então, no breve estremecer da adolescência, quando a memória se reencontrava com o amanhecer do olhar, o sorriso projectava-se nas palavras que reflectiam a embriaguez das estórias.

...

Agora, no prolongar da indiferença que se multiplica pela erosão do crepúsculo, as ruas transformam-se na distância que separa os sonhos da arquitectura do vazio. Os freixos, esses, deixaram de ser o destino dos pardais.



16 de dezembro de 2016

o novo canto da sereia




As ruas deixaram de ser o reflexo de uma alegria que se multiplicava pelos atalhos da memória. Deixaram de se reconhecer no silêncio que se prolongava pelo descuidado rumor dos passos.

Era ali - na esquina mais próxima da adolescente lentidão do olhar - que os sonhos se aproximavam da transparência do sorriso prometido pela trajectória do futuro. Era ali que a quase imperceptível luz do amanhecer se projectava na hesitação dos gestos.

A realidade, agora, é a equívoca melodia do desassossego que cresce na brancura das palavras. Como se os pássaros tivessem adormecido à sombra do vazio. Como se as árvores já não se debruçassem sobre o riso das crianças.



15 de dezembro de 2016

para sempre




O silêncio desce pela melancolia das paredes. Tangível na própria desmaterialização da memória. As palavras - agora não mais do que monólogos - vestem-se com as cores da saudade. Do abandono.

Nos relógios, o tempo deixou de reflectir o cheiro da madrugada. A transparente curva do crepúsculo. O sorriso, contudo, persiste. Vai resistindo à turbulência do vazio que se alarga em redor dos retratos. Que se apossa dos espelhos e da rectangular fadiga das janelas.

Os pássaros já não cortam o vento através da alegria. Já não rasgam a monotonia das vozes que se perdem nas esquinas do desencanto. Só o outono ali ficou, naquele lugar sem nome à beira de um sonho antigo. Para sempre!...



14 de dezembro de 2016

a pantanosa lucidez do vazio




No quase sonâmbulo caminhar pelos atalhos da indiferença, os passos já vão tropeçando no reflexo deste outono à beira de ser passado.

Como se pretendesse decorar os sinais da madrugada, o olhar desaba sobre as palavras sobranceiras aos gestos que se multiplicam pela pantanosa lucidez do vazio. Pelas silhuetas que o nevoeiro projecta no futuro.

Os sonhos já não se reconhecem na geografia dos sorrisos. Incerta, a memória é agora a inexpressiva ausência dos degraus por onde subia o silêncio.



13 de dezembro de 2016

sombras




Na memória dos espelhos, apenas o silêncio se reflecte no que sobrou dos sonhos adolescentes. Como se, pacientemente, o vazio fosse preenchendo a lentidão das paredes.

O sorriso era a única alegria que explodia no olhar. Nada mais do que o sorriso para que as palavras não se prolongassem pela solidão de um futuro tresmalhado. O gesto - talvez não houvesse outro - que permitia rasgar as sombras que caíam sobre os caminhos.

...

O outono tornou-se na precária definição de uma saudade que se debruça nas janelas do abandono. Lá fora, as árvores continuam a ser o refúgio dos pardais, mas, esses, desconhecem que a tristeza se abateu sobre os telhados.



12 de dezembro de 2016

a interdita perfeição de stian




Translúcido, o tempo é agora apenas a recordação dos gestos que se projectavam na lentidão do olhar. O secreto prolongar da ternura que se desenhava na trajectória dos rostos. No irrepetível silêncio dos relógios.

Só não gastámos a memória desses dias interditos à solidão das palavras. À esdrúxula dimensão de um futuro que não sabíamos como perspectivar para além da madrugada. Para além do vazio que se seguia à hesitação dos lábios.

Não sei onde foi que nos perdemos um do outro!... Talvez já não haja forma de regressar à segurança daquelas margens onde ficaram os nossos sonhos. Talvez já não haja a quem perguntar o que foi que nos aconteceu.



11 de dezembro de 2016

phénix e o silêncio




Deve ter sido em outubro, no entardecer dos gestos que rilhavam o silêncio. O sol projectava-se na perfeição de um lago quase perpendicular à vagarosa percepção dos corpos.

De um verde espesso e tardio, as árvores reflectiam-se nas esquinas da memória, como uma promessa ou, talvez, uma carícia a percorrer os rostos e a hesitação das palavras. A espreguiçar-se pelo soletrar do desejo.

Cúmplices, os sentidos multiplicaram-se pela súbita erupção da ternura. Pela transbordante nudez do olhar onde se aconchegava um sorriso puro. Casto. Transparente!...



10 de dezembro de 2016

song of search




Não quero que as palavras possam subtrair-se à geometria do silêncio. Não quero que seja um dia arrumado à sombra da memória, ou que haja um rumor de pétalas no envelhecer do olhar.

Bastará que, na convexa hesitação dos relógios, a música aceite espraiar-se pela cadência das águas. Pela lucidez dos retratos perdidos no tempo. Esquecidos da própria saudade.

Bastará que os pássaros e a vagarosa chama das candeias se reflictam no breve esboçar de um sorriso. Na melancolia dos gestos e no cheiro da maresia.



9 de dezembro de 2016

a balada do soldado




Apenas um instante - pouco mais do que um lamento entre a distância e as coordenadas do vazio. Transbordantes, inaudíveis, as palavras subiram ao olhar como se trouxessem consigo a inesperada lucidez do silêncio.

O beijo, então, projectou-se no secreto voo dos pássaros. Na imperceptível trajectória do infinito. Dir-se-ia que aquele instante se multiplicara pelas pegadas de um futuro que não se revê na superfície da ternura.

Só a tristeza ficou. O reflexo dos caminhos que conduzem à lentidão dos monólogos. Ao envelhecer da memória.



8 de dezembro de 2016

caleb




Uma palavra - densa, transparente, transbordante!... Como se o silêncio tivesse explodido na súbita melancolia do outono.

Como se o vazio se cruzasse com o desassossego dos sonhos.

Talvez fosse o peso da solidão. A proximidade do deserto e a surpreendente fluidez da memória. Talvez o desencanto a projectar-se na indiferença dos caminhos, entre a poeira dos dias e a sonolência dos passos.

Uma voz que tropeçava nas sílabas do abandono. Débil, quase inaudível. Uma voz, ainda assim, a multiplicar a esperança pela superfície do futuro.



7 de dezembro de 2016

a explicação do silêncio




Nenhuma palavra se prolonga para além da mágoa daqueles versos que se refugiaram na explicação dos búzios. Nenhuma se debruça sobre o incerto rumor da solidão.

Mais do que as pálpebras da tristeza, o silêncio assemelha-se ao lamento de um sorriso que se alarga pela nocturna substância da saudade. Pelo que resta da memória que escorrega pelas franjas do tempo.

Talvez a noite - uma noite sem sonhos e sem o canto do rouxinol - seja apenas o retrato da melancolia que tenta resistir ao abandono dos velhos caminhos que o coração não esqueceu.



6 de dezembro de 2016

foi ali no velho alpendre




Foi ali no velho alpendre, entre o amanhecer dos galos e a chama de uma candeia, que um sorriso se espraiou à passagem do silêncio.

Era lá que os olhos se demoravam na transparência dos gestos. No cacimbo que caía e nos rostos de quem vinha pela lentidão da saudade. Era lá que o rumor da alegria se multiplicava pelo sussurro das palavras que tinham a cor da brisa, quando agosto despia o cheiro dos calendários.

À noite, depois da ceia - antes que os sonhos chegassem - recordavam-se as estórias de outro tempo. Dos dias que tinham sido retratos de um futuro que não cabia na penumbra das paredes. Na memória dos caminhos.



5 de dezembro de 2016

ruínas




Como se o vazio se multiplicasse pelos atalhos da memória. Como se, fatigada, a saudade já não se reconhecesse na interrogação dos caminhos. Na rugosidade dos espelhos.

Hesitantes, as palavras principiam a confrontar-se com o desassossego. O futuro deixou de espreitar pela lentidão dos sorrisos. Pela transparência do olhar que, ano após ano, voltava a percorrer a fluidez da alegria. Transformou-se no paciente reflexo da solidão.

Talvez os rostos se tenham habituado às ruínas dos lugares que prolongavam as noites e os sonhos. Talvez as candeias já não se apercebam da imperceptível carícia do silêncio.



4 de dezembro de 2016

se quem conta contigo...




Na diferente perspectiva do silêncio, quando um sorriso se insinua pela transparência dos sonhos, os passos parecem prolongar-se pela lentidão dos caminhos.

É, por assim dizer, a recordação dos gestos que desafiavam a letargia da distância. Que se multiplicavam pelas palavras carregadas de alegria, como se o futuro não se limitasse a projectar as esquinas para além dos horizontes.

Velhas cumplicidades que se renovam na trajectória de um olhar. Como o brilho de uma estrela a rasgar a solidão. Longe, é verdade, do entusiasmo que transbordava da alucinação das horas.



3 de dezembro de 2016

os dias de cobre e de mel




Com a porosa lucidez das palavras, aprende-se a reconhecer o silêncio na encruzilhada do vazio. Como se o futuro não fosse senão a breve hipotenusa que, do olhar, se projecta nos sulcos da memória.

Por vezes, quando os caminhos se confundem com o rumor da solidão, só os pássaros permanecem sobre o que resta dos sonhos tresmalhados. Os passos, então, prolongam-se pelo pousio de uma adolescência sem horizontes. Por uma indiferença que se reflecte na superfície dos espelhos.

Os dias transformam-se em vestígios daquelas estórias em que o outono explodia na geométrica lentidão de um sorriso, quando os relógios paravam à beira da madrugada. Hoje, a alegria - ou seja lá o que for!... - já não se espreguiça ao mesmo tempo que a manhã se debruça nos parapeitos da saudade.



2 de dezembro de 2016

memórias da beira do rio




Não era ainda o sorriso!... Esse, só mais tarde haveria de desenhar-se nas páginas da memória, ainda que já estivesse poisado no olhar. Gravado no coração.

Seria, talvez, o silêncio - uma espécie de sossego que chegava com o cheiro da maresia. Com a luz da madrugada. Era, por certo, o verão a brincar com a alegria. A cair sobre os castelos feitos de areia e de esperança.

Foi um tempo muito breve. Um tempo quase de nácar. Uma lenda recolhida numa concha sem passado, aberta sobre o futuro. Um tempo onde a saudade costuma refugiar-se quando os sonhos adormecem.



1 de dezembro de 2016

da natureza dos sonhos




Quase se ouviam os pássaros em redor do silêncio que se projectava no anoitecer das palavras. Na indolência dos búzios.

Os sonhos eram, por assim dizer, a inacessível fronteira que separava a realidade da longínqua e incompatível geografia do sossego. Da turbulência do olhar rente à embriaguez de setembro.

Uma dúvida que teimava em alargar-se pelos gestos. Pela inquietação da voz. Uma dúvida que se multiplicava pela cadência dos passos!... Apetecia rasgar os retratos daquele futuro que se desenhava na confluência do vazio. Apetecia deixar que a memória se antecipasse à textura dos sorrisos.



30 de novembro de 2016

o amanhecer de larry




Naquelas alturas, como se a aurora se prolongasse pela transparência dos sonhos, o sossego ia-se aproximando da substância do silêncio. Apesar dos pássaros. Apesar das águas.

O olhar já transpusera o limiar de uma beleza que as palavras não tinham como explicar. A neblina emaranhava-se no esboçar de um sorriso, demorando-se na inesperada lentidão de um azul em que a alma se reflectia.

Não foi mais do que um momento. O sopro da brisa a rilhar a solidão. Foi um instante sem gestos. Sem vozes que se confundissem com o brilho das estrelas. Com o marulhar do vazio. Um instante - apenas isso!...



29 de novembro de 2016

a canção de daniel




Eram palavras que brincavam com as curvas do silêncio. Que brotavam da raiz da solidão. Palavras muito jovens que se reflectiam no amanhecer dos sonhos.

Havia nelas uma espécie de ternura. Uma nudez que se espraiava pelas sílabas e se aconchegava na transparência do olhar. Na timidez de um sorriso. Eram palavras perfeitas. Densas. Palavras que prolongavam o infinito pelas pétalas da alegria.

Palavras da cor da brisa, como se a primavera fosse o espelho da memória. Palavras espessas, como o outono a cair sobre as searas. Palavras irrepetíveis. Como se fossem estrelas. Como se fossem mágoas.



28 de novembro de 2016

equus




Nem a lentíssima sombra dos plátanos se demorou na encruzilhada que separa o vazio da imprevista trajectória dos sonhos.

A neblina fechava-se sobre as franjas da memória. Sobre os caminhos que atravessam as coordenadas do silêncio. No solitário perfil da melancolia, os gestos lembravam o adolescente rumor das estórias contadas no entardecer do alpendre.

Resta a chama precária de uma candeia corroída. O desencanto cravado sobre o retrato de uma ternura difusa. Nem a nudez das palavras. Nem o cheiro do outono.



27 de novembro de 2016

gil martin e o vazio




O retrato - um retrato que se projectava na periferia da memória - separava-o da previsível cadência do vazio. Do consciente tiquetaque de um silêncio por inventar.

Quando a tempestade se abateu sobre a plenitude dos dias, a própria incerteza das palavras transformou-se num futuro que não chegou a reflectir-se nos calendários. Na distância que o aproximou da angústia daqueles olhos que o fitavam do outro lado da vida.

Gil Martin era só um adolescente a quem foi negada a possibilidade de partilhar a timidez com a perspectiva de um sorriso. Com a promessa de um caminho por desvendar.



26 de novembro de 2016

bolgene




Vagarosas, quase suspensas das subtis entrelinhas do silêncio, as palavras entardeciam na côncava geometria das paredes à beira de dezembro. Como se fossem o reflexo das ondas que, lá fora, arrefeciam a arquitectura da solidão.

Os olhos demoravam-se na carícia dos segredos que se despiam. No deslumbramento das horas que se projectavam na lucidez da lareira. Embriagados, cúmplices, os gestos teciam-se na promessa de um futuro transbordante.

A noite veio na transparência dos rostos e dos sinais que se anteciparam ao rumor de uma alegria partilhada. À inesgotável memória de um sorriso.



25 de novembro de 2016

o sabor de ser amigo




Um espelho ou, melhor, o reflexo da chuva na superfície do silêncio. A utopia que se alarga pela transparência dos búzios. Pela geografia da memória.

Como se os relógios tivessem parado ao início da madrugada, as palavras prolongam-se pela difícil trajectória de um sorriso, ao mesmo tempo que o olhar se detém na fronteira entre o vazio e a textura de um poema.

Um amigo é, às vezes, o deserto. Outras, o retrato de uma saudade que se demora à beira da solidão. O futuro que se multiplica pela secreta explosão da alegria.



24 de novembro de 2016

o peso da solidão




Só o tiquetaque do velho relógio insiste em multiplicar o silêncio pela lentidão das palavras que as paredes já não reconhecem.

Só o vazio!... A crepuscular lassidão da memória que se demora sobre os recantos de uma saudade quase sempre perpendicular à melancolia do olhar. À ausência de um sorriso.

Os gestos - o que sobra deles - deixaram de se reflectir na perspectiva do futuro. Não há como iludir o rastejar do desencanto. O paciente desfolhar da solidão.



23 de novembro de 2016

o cheiro da terra molhada




Era uma chuva tardia, aquela que caiu na madrugada de julho na projecção de um verão ainda jovem. Uma chuva que surpreendeu as formigas e apressou as brincadeiras dos pardais.

Passeou-se pelos cabelos e pelos rostos em que se reflectiam segredos e despertavam memórias. Felizes, as palavras voltaram a desfolhar-se na geometria dos gestos.

A terra pareceu enfeitar-se com o cheiro do silêncio - com o sossego que se espraiou pelos olhos e se desenhou nos sorrisos. Uma espécie de saudade modelada pelo cinzel de uma alegria contagiante. A adolescente explosão dos sonhos ainda longe do peso dos calendários.



22 de novembro de 2016

a queda




A culpa não foi de Dédalo!... Dele, apenas o desejo de recuperar no dia-a-dia a projecção dos sonhos. A reflexão do silêncio.

Ícaro, por outro lado, não tinha como experimentar os limites da adolescência, a não ser pela superação dos seus próprios receios. O sol foi apenas um pretexto. Uma hipótese ou, melhor, um desafio irrecusável. Ainda que mais denso, o azul do mar significaria, tão-só, prolongar no tempo a tentação.

Era um dia repleto de perspectivas únicas. As palavras, quaisquer que fossem, seriam sempre muito escassas. Dédalo, contudo, ultrapassada a vertigem do abismo, viu-se confrontado com a explosão do vazio. Com o peso da tristeza.



21 de novembro de 2016

merlin e as amoras




As lendas costumavam reflectir-se no desenho de um sorriso convergente com o cheiro da resina. Com a luminosidade das searas.

Eram a tradução de uma adolescência projectada nos espelhos da memória, ao mesmo tempo que o silêncio se tecia na cegarrega das cigarras. O reverso de uma realidade cinzenta que tingia de novembro as folhas dos calendários.

Descuidadas, como se os sonhos se multiplicassem pelos sulcos da alegria, as palavras demoravam-se na periferia do olhar, enquanto Merlin entardecia junto ao muro no prolongar das amoras. Antes que a saudade tropeçasse nas raízes da tristeza.



20 de novembro de 2016

pelos caminhos do graal




Nas longínquas margens do silêncio, os passos procuram as respostas que não existem na indiferença dos sorrisos. Na sombria trajectória das palavras que se equilibram sobre o vazio.

Talvez não exista alternativa. Talvez a solidão seja o único caminho. O derradeiro obstáculo que se intromete entre a memória e a esdrúxula geometria do futuro. A irrepreensível perfeição dos sonhos que se refugiaram no entardecer dos búzios.

Um dia, quando o orvalho se multiplicar pelo despertar dos pardais - quando o voo de uma gaivota se projectar nas pupilas do outono - talvez o olhar se liberte da inacção dos corpos. Da insustentável rigidez dos relógios.



19 de novembro de 2016

a um deus desconhecido




O breve ritual de um livro que se folheia no filtrar da madrugada, pouco antes do silêncio se debruçar sobre a geografia dos sonhos.

...

Como se fosse um sorriso a desenhar a transparência da saudade, a árvore aconchegava-se à sombra de um futuro cujas raízes se prolongavam pela súbita fragrância das palavras. Pela paciente carícia da memória.

Ali, naquele lugar frente ao corrosivo rastejar das vozes que se atropelam e dos gestos dissimulados no anoitecer dos espelhos, apenas o desejo de sobreviver ao lamento da terra sedenta. De descobrir as respostas na melancolia dos caminhos.



18 de novembro de 2016

o pequeno harmónio de brincar




Foi ali, naquelas águas-furtadas rente às nuvens e rente aos sonhos, que o silêncio principiou a tecer-se na projecção do olhar.

Foi um tempo que apenas a memória guardou. Um tempo que se esgotou nas ruínas do vazio. Na ausência dos sinais que costumavam debruçar-se sobre os relógios, quando o entardecer vinha aconchegar-se nas varandas.

Agora, ao percorrer o que sobrou da rua que desaguava na confluência dos jacarandás, o sorriso já não se demora no azul do horizonte. Talvez seja o reflexo da saudade - a longínqua recordação do pequeno harmónio a tocar sobre o telhado. Sobre uma alegria ainda trôpega.



17 de novembro de 2016

rua antónio pereira carrilho




Eram estreitos os degraus que conduziam os passos à fronteira do vazio. Era preciso atravessar a manhã e a súbita percepção da indiferença. Os sonhos, esses, limitavam-se a acompanhar a cadência dos relógios.

Os caminhos divergiam naquela encruzilhada à beira da solidão. À beira de um futuro dissimulado entre as lágrimas e a perspectiva do silêncio. Era assim, dia após dia, como se o olhar fosse apenas o reflexo de uma parede sem esperança.

É possível que o sorriso se tivesse transformado numa espécie de refúgio vagamente intuído, conscientemente gravado no prolongamento dos gestos. No inevitável cheiro da memória.



16 de novembro de 2016

galahad e o destino




Luminoso - como o sol a reflectir-se no canto da cotovia - o sorriso subia-lhe ao olhar, enquanto os sonhos se debruçavam sobre o perfil da madrugada.

O destino, ou talvez fosse apenas a transparência da alma, pesava-lhe na incerteza dos passos. Na confusão dos caminhos. Dir-se-ia que a recordação de uma secreta adolescência, debruava os contornos daquela vontade que se sobrepunha às tarefas do desencanto.

Ainda que escassas, ainda que sussurradas na vagarosa projecção da voz, as palavras pareciam transbordar dos dias em que as abelhas se demoravam entre as searas e o incauto fluir da memória. Discreto no revelar da sua própria nudez, Galahad era a essência de uma alegria que se prolongava pela irrepetível perfeição do silêncio.



15 de novembro de 2016

o que ficou de um sorriso




Enroscado a um canto do silêncio, o palhaço - o mesmo palhaço que costumava sorrir na projecção da alegria - nunca se apercebeu do olhar da criança que se sentava na primeira fila da memória.

É hoje um palhaço pobre. Tudo o que resta de um passado esquecido no vaivém da solidão. É outro, agora, o palhaço que vai preenchendo os palcos para além da vida. Para além dos sonhos. É outro o que vai tropeçando nas raízes do abandono.

A criança cresceu e, não obstante as palavras que se deixam seduzir pelos alcatruzes do vazio, revê-se na tristeza dos espelhos onde se reflectia a incerteza do futuro.



14 de novembro de 2016

entre agosto e a memória




Aos sábados a manhã vinha mais cedo. Filtrava-se pela janela com vista para os pássaros e, devagar, aconchegava-se no branco de um lençol estremunhado.

A praça invadia os recantos da vila. Os recantos da saudade. Era o dia de reencontrar os sorrisos de outro agosto. E mais outro. E outro ainda!... O dia em que o cheiro da terra se misturava com o rumor do silêncio. O dia de percorrer os caminhos entre o orvalho e a explosão da memória.

A vila é agora uma cidade. Os rostos deixaram de ser a multiplicação da alegria pelas rugas que se reflectiam na poeira e no olhar. A praça já não existe. Ninguém parece saber que ali, numa esquina do passado, ficava o café do Barata.



13 de novembro de 2016

a invenção do silêncio




Muito brancos, os corpos rasgavam o espaço e apressavam o bater dos corações. Como o inadiável fluir de um sonho.

Os olhos penduravam-se nas hastes do poema que atravessava as franjas da penumbra. Que percorria o espaço de um sorriso muito ténue. Cerrados, os lábios hesitavam entre o espanto e a trajectória de um grito.

Quando as luzes se acenderam, o pensamento explodiu no próprio trovejar do assombro. O sossego trepou pelos degraus da alegria, como se os relógios tivessem inventado o silêncio.



12 de novembro de 2016

a projectar o futuro




Pode ter sido o silêncio. Talvez as primeiras palavras num recanto da alegria ou, se calhar, o silêncio à beira da incerteza.

O Manuel foi o pulsar adolescente na vagarosa dimensão dos sonhos. Foi o traço de união nas voltas do calendário. Poucas voltas, é verdade, mas a amizade não se mede pela distância entre a memória e o projectar do futuro.

Foi pouco mais que um instante no vaivém da rebeldia. Um olhar sobre o sossego e o voo de uma gaivota no amanhecer dos espelhos. No secreto rumor da saudade.



11 de novembro de 2016

death is not the end






Foi nesta noite fria - já as sombras se multiplicavam pela cidade - que o silêncio e o vazio se tornaram cúmplices de um futuro incapaz de resistir aos solavancos da memória.

Prematuros, talvez, os sinais eram ainda uma simples despedida. O projecto tresmalhado de um adeus que, todavia, não tardou a reflectir-se na sequência das manhãs. Dos dias. Da nocturna indecisão do olhar.

Bem sei que os sonhos já não têm como preencher a melancolia que se projectava na esdrúxula geometria de uma realidade sem sentido. Bem sei que os caminhos não se extinguem com o desabar deste novembro quase perdido nos labirintos da indiferença...!



10 de novembro de 2016

um branco irrepetível




Um lápis. O irrepetível branco do papel. A perspectiva do futuro a transbordar do silêncio. A atravessar a memória.

A carta deve ter sido a própria essência de um sorriso no folhear da alegria. O gatinhar das palavras na trajectória do vazio. Os dedos que prolongavam a vagarosa cadência da voz.

O sopro da brisa em redor da madrugada. A descoberta precoce de um caminho sem fronteiras. A transparência de um grito na projecção dos degraus. No súbito amanhecer de um sonho.



9 de novembro de 2016

no enrolar do pião




Havia os jacarandás perfeitos sempre que maio voltava. O riso dos mais pequenos e o saltitar dos pardais. Havia, também, o silêncio no anoitecer da brisa.

...

Era o tempo de correr através do pensamento. O tempo de alinhavar as palavras em redor da alegria. Os sonhos, esses, vieram quando o olhar se alargou pela diferença dos caminhos. Quando os passos aprenderam a soletrar a lentidão dos carreiros.

Havia julho a espreitar o doirado das areias. A transformar em carícia o imenso azul das águas. A adormecer por vezes no aconchego das dunas.

Foi o tempo de descobrir um sorriso no enrolar de um pião!...



8 de novembro de 2016

da poeira e da memória




O jardim está diferente!... Como se a infância fosse uma terra longínqua. Inacessível.

Foi o lugar das primeiras brincadeiras. O folhear dos primeiros livros. O lugar em que o silêncio se entretinha à sombra daquela árvore onde os pardais se juntavam no entardecer dos gestos. Na projecção da alegria,

A estátua - um Prometeu de olhos tristes, da cor do tempo esquecido na poeira dos relógios - deixou de ser o reflexo de um sorriso. A secreta lentidão dos passos. É agora a memória do sossego que se prolonga para além do chafariz.



7 de novembro de 2016

a cadência da saudade




Esgotavam-se com o fim de cada agosto, os dias em que o silêncio preenchia a geometria das palavras e a essência dos sorrisos. Os dias em que a alegria se prolongava pela lentidão dos sonhos. Pelo amanhecer do orvalho.

Poucas vezes as vindimas se viveram a jusante da imaginação. Setembro costumava ser o início da fusão dos calendários com o vaivém da rotina. Uma certa apatia que se sobrepunha ao doirado do outono. Às folhas que transformavam as ruas na inevitável explosão do olhar.

Agosto era também o reflexo da saudade. A viagem do comboio no sentido descendente.



6 de novembro de 2016

com o mundo no olhar




Os dias eram difíceis e os sonhos escondiam-se quase sempre na ilusão do tempo que se tecia através do desencanto. Mas não faltava um sorriso e as palavras, essas, reflectiam a saudade da esperança que já se fora.

...

Eram só daquele lugar. Como as fontes. Como o silêncio que vinha com o canto das cigarras. Sabiam porém que o mundo espreitava pelas janelas a cada nova manhã. Sabiam-no ali bem perto, logo após a curva onde o olhar se perdia. Ali mesmo onde as cancelas se abriam para a vida. Devagar!...

À tardinha, no desfolhar da alegria, quando as vozes explodiam entre as cores do milho-rei e os carreiros das formigas, os rostos recuperavam a frescura do passado. As rugas eram troféus ou, se calhar, um poema.



5 de novembro de 2016

um breve regresso




Cúmplices com a geografia da memória, as vozes reflectiam-se sobre o silêncio que preenchia as paredes. Sobre a alegria reencontrada a um canto do alpendre.

Era o tempo em que os calendários encerravam mais um ciclo. O tempo de recordar o cheiro da madressilva. De partilhar os afectos e descobrir que a saudade era só o prolongar dos sorrisos pela dimensão dos coretos. Pelo olhar que percorria os caminhos sempre iguais. Sempre novos.

O tempo de perscrutar as rugas que se afundavam nos rostos. De entender as lágrimas e os sorrisos. De reparar nos cabelos que a distância branqueara. De sentir um nó na alma.



4 de novembro de 2016

como as estórias longínquas




As salinas recortavam-se no amanhecer do caminho. Como as lendas. Como as estórias longínquas de um tempo que se arrumou a um canto da memória.

Antes da praia - antes do longo areal - o farol parecia contemplar o passado e o futuro. O presente, esse, era só uma ilusão. O instante em que se esqueciam os relógios. Uma porção de alegria no reflexo de um sorriso. Um pássaro a sublinhar a geometria dos sonhos.

...

O mar!... A lonjura do silêncio na projecção do olhar. Talvez o próprio sossego a resgatar as palavras. O eco do pensamento no envelhecer dos búzios.



3 de novembro de 2016

um pretexto e uma canção




Era uma manhã diferente. Não era só a alegria. Não era, de resto, a saudade que, essa, ainda não era o aconchego dos dias.

Era uma manhã com um sorriso a filtrar-se pelo espreguiçar dos sonhos. Pela lentidão das janelas. Mais tarde, já o dia se espraiava pelas colinas da cidade, o comboio era o pretexto para confrontar o vento. Para deixar que o silêncio se alargasse pelos relógios. Para escutar o lamento dos carris.

À tardinha, o sorriso reencontrava-se com outros sorrisos - os que ali tinham ficado no tempo das despedidas!...



2 de novembro de 2016

o sorriso de minha mãe




Era da cor da ternura ou, talvez, da madrugada. Um sorriso transparente. Único. Irrepetível.

Um sorriso mais bonito do que o poente que tinge um horizonte de outubro. Mais bonito do que a brisa que passeia pela manhã ou que uma rosa vermelha no entardecer de maio. Mais bonito que a música de um oboé ou que o doirado que tinge as folhas de cada outono.

Um sorriso mais bonito que o desfolhar do silêncio. Que não se esgota na irreparável memória de um beijo. Que se prolonga pela lentidão da saudade.



1 de novembro de 2016

o verde do arrozal




Os passos já conheciam cada fracção do caminho. Cada porção do silêncio com que a brisa percorria o amanhecer das searas. O despertar das papoilas.

À esquerda, entre o cheiro da resina e os alcatruzes da  nora, erguia-se o casarão. Velho, mas ainda altivo. Lá dentro, um relógio muito antigo jamais se esquecia de dar as boas-vindas a quem entrasse por bem. E havia um cheiro a feno. Um cheiro a broa de milho. O reflexo dos sorrisos que os gestos iam tecendo.

Mais à frente, naquele lugar que a memória não esquecera, o mesmo verde de sempre. Um verde que não temia o dobrar dos calendários. Era um verde transbordante. Era o coaxar das rãs. O bulício dos pardais.



31 de outubro de 2016

nas páginas de cada agosto




O Carlos e o António estavam sempre nas páginas de cada agosto. Ainda que fosse o silêncio a acentuar as palavras.

Era o tempo de aprender a linguagem dos sonhos. O tamanho das saudades que resistiam à cadência dos relógios. Era o tempo de correr através da alegria que ficava muito longe do ronronar da cidade. O tempo das coisas simples!...

O Carlos e o António deixaram de estar aqui ao alcance de um olhar. Na projecção de um sorriso. Deixaram de estar aqui no final de cada gesto. Agosto, esse, é agora uma ilusão no correr dos calendários.



30 de outubro de 2016

entre os sonhos e o sossego




A casa é apenas uma recordação. Como o muro junto ao qual se aconchegava. Resta o vazio. O nada. Nem o silêncio ficou!...

Era uma casa minúscula - aquela casa de paredes rugosas, vestidas de cal e sossego. Uma casa espartana com vista para a eira, na projecção do alpendre que se abria para o sonho. Para o verde do pinhal que se erguia lá ao fundo.

Foi ali, naquela casa junto à fronteira entre agosto e a saudade, que o sorriso principiou a gravar-se na memória.



29 de outubro de 2016

um sorriso em cada mão




Havia o cheiro da terra. O  cheiro da madrugada. Havia sempre o cheiro da alegria.

Havia, ano após ano, o reencontro com os amigos que traziam um abraço no olhar e um sorriso em cada mão. Os amigos que sabiam entender o silêncio e que falavam sem medo dos sonhos e do futuro.

Depois, quando a noite já caía sobre as casas, havia as estórias contadas ao serão junto à lareira ou à luz de uma candeia. As estórias de um sossego que não tardava a chegar.



28 de outubro de 2016

hiato




A fonte ficava numa esquina do silêncio. Logo depois do orvalho. Antes mesmo do cheiro da madrugada e da presença das abelhas.

Agosto era apenas um hiato adolescente no vaivém dos calendários. Uma estória em que as palavras se desenhavam nos rostos marcados pelo sol. Era mais que uma viagem pelo sossego dos pinhais. Pelos flancos da memória.

As lágrimas, essas, eram só as boas-vindas à chegada do comboio. Depois, era o tempo dos sorrisos - o tempo em que no olhar se reflectia a saudade.



27 de outubro de 2016

da difícil solidão das árvores




Cansado, como se o silêncio fosse mais pesado do que as pegadas da memória, vou passando pelos estreitos atalhos desta saudade que se aconchega à beira dos meus sonhos.

Dir-se-ia que as árvores já não se prolongam através das suas próprias sombras. Dir-se-iam mais perto da solidão que escorre dos telhados e se acumula na indiferença das janelas. No reflexo de um agosto que se perdeu na bruma dos calendários.

Não me reconheço na metamorfose dos sorrisos de quem percorre a súbita adolescência dos caminhos onde aprendi a distinguir o cheiro da alegria, São estranhos cujas vozes se assemelham ao perfil do abandono.



26 de outubro de 2016

incertezas




É na encruzilhada do silêncio que os meus gestos se vão aproximando da tristeza que se debruça nas janelas e se alarga pela incerta trajectória dos caminhos.

Aqui, nesta casa onde se esgotaram os poemas e onde o vazio se prolonga pela indiferença das paredes, as horas passam depressa. Não tão depressa, porém, como as sombras que se fecham sobre o adolescente rumor de um sorriso.

Olho-te ao mesmo tempo que me revejo na memória daqueles sonhos que partilhávamos quando a primavera se reflectia na lucidez dos pássaros. Olho-te e já não me reconheço na indecisão das palavras.



25 de outubro de 2016

por onde os calendários




Por que palavra principiar o retrato do silêncio que me desperta quando ainda é madrugada? Por que promessa?

A noite foi apenas o reflexo do sorriso que havia no teu olhar. A memória de outro agosto, quando os sonhos se alargavam pelo sossego dos pinhais. Vivo agora num tempo diferente. Sem sonhos, sem sorrisos e estes - ainda que os calendários o não confirmem - não passam de dias sem futuro.

...

Os animais, também eles, estão inquietos. Talvez não saibam como evitar a crueldade do abandono que desceu sobre os corpos. Sobre as árvores. Sobre a inacção dos mendigos.



24 de outubro de 2016

numa esquina da memória




Percorro em círculos concêntricos a difícil lentidão dos relógios que se prolongam pela madrugada dos meus sonhos. Pela saudade desse tempo em que os amigos espreitavam à esquina do mês de agosto.

As horas - talvez a complexa trajectória do silêncio - deixaram há muito de ser o reflexo de uma alegria espontânea. Passaram a ser a súbita geografia do vazio que desaba sobre os labirintos da memória.

Já não sei se os sorrisos são o resultado da transparência das palavras que se demoram na embriaguez dos lábios. Se calhar são apenas o que resta da noite que se aconchegava à sombra dos salgueiros. O que resta da secreta juventude dos pássaros.



23 de outubro de 2016

para além dos búzios




Olho-me na rectangular superfície deste espelho que se projecta no desencanto de um passado pouco nítido. Translúcido. Quase opaco!... Olho-me e não sei por onde vieram os meus passos. Sei apenas que este é o lugar onde mora a solidão.

Dir-se-ia que as minhas palavras se limitam a coleccionar monólogos coniventes com o murmúrio do rio e com a vastidão do silêncio. Talvez os meus gestos não sejam mais do que o reflexo da indiferença com que percorro os calendários.

Esta é uma terra sem horizontes. Uma terra onde os sonhos se assemelham a pesadelos. À própria dimensão do vazio!... Hoje, porém, a manhã trouxe consigo o cheiro da erva fresca acabada de cortar. Que seja, então, o princípio de um futuro para além do coração dos búzios.



22 de outubro de 2016

o reflexo do silêncio




O reflexo da alegria no amanhecer do olhar. O perfil da madrugada e a memória do silêncio por detrás do sol poente. A carícia do outono. A singular trajectória do sossego.

A própria fragrância de um sorriso. O sopro da brisa que percorre os meus cabelos. O voo de uma gaivota. A súbita melancolia de um poema.

A promessa da bruma. O sonho que atravessa a lentidão da saudade. A proa daquele barco no limiar do futuro. És tudo isso!... O perfeito luar de agosto e a solidão dos meus passos.



21 de outubro de 2016

periferias




Caminho pelos secretos atalhos da solidão. Pela incerta perspectiva das palavras que se reflectem no entardecer das janelas. Na perfeição do silêncio.

Dificilmente me reconheço na ausência dos muros e na indiferença das estremas que separavam o vazio do retrato de uma alegria transbordante. Não sei mesmo se os relógios coincidem na trajectória do tempo.

Nada mais me é familiar para além destes atalhos na periferia do absurdo. Observo o que ficou gravado na minha própria memória e descubro que me perdi daquele sorriso que se prolongava pela casual turbulência dos pássaros.



20 de outubro de 2016

prometeu




Quase incógnito num canteiro do jardim, ali onde a saudade se demora entre o riso das crianças e a penumbra do passado.

Os olhos não se projectam na porosa definição do medo. São de pedra, não de espanto. Dir-se-ia cedo para que os homens se reflectissem na insurreição do fogo. Para que as aves rasgassem a fronteira do silêncio.

Tudo se assemelha à indiferença dos gestos. Quem passa não se apercebe da corrosiva lentidão do mito. Do vazio que sobrevive para além dos sonhos. Para além das ilusões.



19 de outubro de 2016

do envelhecer dos relógios




Era quase sempre pela tardinha - depois da sesta e antes do soletrar do silêncio - que a cegarrega das cigarras se multiplicava pela preguiçosa vocação das palavras. Que a explosão das papoilas se reflectia no paciente perfil das searas.

Lentamente, como se fossem cúmplices do envelhecer dos relógios, os olhos percorriam a alegria das crianças que se debruçavam sobre os imperceptíveis parapeitos da memória.

A noite chegava depressa. Tão depressa como a embriaguez dos sentidos. Como a incompleta rugosidade dos sonhos que se esqueciam nas encruzilhadas do desencanto. No desassossego dos lábios.



18 de outubro de 2016

espero por ti




Espero por ti no recanto mais discreto da memória, onde o silêncio se confunde com o rumor da tristeza. Onde as palavras se projectam sobre a lúcida persistência de um sorriso.

As árvores secaram. Há muito que os pássaros deixaram de se refugiar na turbulência do vazio. Os olhos já não se reflectem na transparência do luar.

Espero por ti, apesar da solidão, nesta esquina junto à melodia do entardecer. Espero-te enquanto os relógios se multiplicam pelo perdulário brilho do crepúsculo. Pela própria ausência do futuro.



17 de outubro de 2016

equação




Somos apenas o reflexo dos sonhos que não se perderam para além dos gestos. Para além dos calendários. Somos o que restou desses sonhos. Do silêncio e da difusa trajectória das palavras.

Perdemo-nos algures entre as coordenadas de um sorriso e o imprevisível galope das certezas que já não se reconhecem nos caminhos da memória. Que já não cabem na indecisão do olhar.

Não somos mais do que promessas por cumprir. O esboço de uma solidão que nos completa. A difícil equação que se abate sobre o futuro. Sobre a amarga lentidão do vazio.



16 de outubro de 2016

como as árvores




Queria ser o reflexo do silêncio nos caminhos que percorro através da minha própria solidão. Queria ser o retrato daquele sorriso que continua a espraiar-se pelos limites da memória.

Queria ser como as árvores - sentir o sopro da brisa ou a nocturna transparência do orvalho. Escutar o coração do outono e prolongar-me para além dos dias da cor do cobre. Da cor do mel.

Mas, na verdade, sou apenas o que resta de um poema que alinhavei com palavras simples. Com palavras que me recordam uma breve adolescência e a irrepetível lentidão dos búzios. Palavras com o cheiro da maresia. Com o cheiro da saudade.



15 de outubro de 2016

do inquieto rumor do silêncio




Lembro-me de que não havia pássaros. Talvez tenha sido por isso que nunca o silêncio me parecera tão transbordante. Tão perto do nocturno rumor do sossego.

As palavras, essas, dir-se-iam o próprio reflexo dos búzios. O prolongar dos gestos no amanhecer da saudade, como se os nossos passos marcassem a cadência de um futuro no outro lado da memória. Ali mesmo à beira do riacho.

Lembro-me de que sorriste - um sorriso descuidado. Luminoso!... Mais à frente, uma criança de olhar confiante, hesitou entre a trajectória do pião e a transparência do teu sorriso.



14 de outubro de 2016

memórias de um outono precoce




Se pudesse saltar os muros do desencanto, voltaria a percorrer aqueles caminhos onde, quase sempre, encontrava a essência da alegria e a lentidão do silêncio.

Não que os caminhos se tenham confundido com os labirintos da memória. Pouco a pouco foram-se transformando em atalhos - foram perdendo a lucidez das folhas de um outono precoce - e até mesmo as formigas se surpreendem com a hostilidade dos carreiros.

Hoje, essa alegria não é mais do que o esboço de um lamento. Um equívoco onde tropeçam os meus passos e onde os meus sonhos se assemelham à melancolia dos pássaros. Às milongas do vazio.



13 de outubro de 2016

crónica de um certo domingo




O domingo foi apenas um instante. A brisa que desceu pela curva do teu rosto. O prolongar do silêncio no desenho dos teus gestos. No entardecer dos teus passos.

O domingo anoiteceu no outro lado dos ponteiros do relógio. Na neblina que caía sobre as águas. No súbito rumor dos corpos. No aconchego das areias.

Depois, o domingo ocultou-se entre as nuvens e as árvores que se reflectiram no que sobrou do luar. Que se refugiaram no segredo dos meus sonhos.



12 de outubro de 2016

estes dias sem futuro




Foi o fogo - não a terra - que lhe tocou o corpo adormecido. Talvez o silêncio se tenha feito mais longo. Mais denso. Mais pesado do que as palavras subtraídas à lentidão da tristeza.

Foi o fogo que engoliu a essência dos meus sonhos. Do sossego que partilhámos na projecção de um sorriso. Da transparência de um tempo que sempre foi o reflexo da ternura.

Resta-me a mágoa destes dias perdidos no vazio que me invadiu os sentidos. No desencanto dos passos com que percorro a distância entre a memória e a saudade - entre o voo dos pardais e a melancolia das janelas.



11 de outubro de 2016

perfeição




Dir-se-ia um resto de silêncio que se projectava para além da cancela. Rente à terra. Rente ao entardecer das amoras. Como as lendas que se espraiam pelo silabar da memória, as palavras confundiam-se com a subtil lentidão das águas. Com a trajectória do sossego.

Foi ali que te encontrei como se fosses a nocturna transparência de agosto, quando o verão principia a inclinar-se sobre a secreta melodia dos sonhos. Talvez fosse a brisa. Era, em todo o caso, o meu olhar a percorrer a brevíssima planície do teu peito.

Deixei-me ficar no prolongamento do teu sorriso. Não tinha por que ignorar os sinais da perfeição!...



10 de outubro de 2016

mendigo




Hoje entretive-me a percorrer os atalhos da memória. Um regresso à lentidão dos sorrisos desenhados nas rugas onde o tempo se instalara. Onde se demoravam os olhos e nas quais aprendi a soletrar as sílabas do silêncio.

Levei comigo as mesmas velhas palavras. Levei os sons do crepúsculo e a secreta adolescência dos sonhos que se perdiam no labirinto das minhas perguntas. Levei a ternura de que nunca me afastei e que, por vezes, se assemelhava ao rumor da madrugada.

Trouxe o cheiro da alegria e o sussurro da saudade. E cheguei ao pé de ti como se fosse um mendigo. Como se fosse o retrato da minha própria incerteza.



9 de outubro de 2016

da cor da brisa




Da cor da brisa, os teus lábios desenhavam-se no reflexo da alegria, como se houvesse um fio de silêncio no outro lado da memória.

Era quinta-feira - quinta-feira de espiga, para melhor dizer!... Nunca dei grande importância a essas tradições que costumavam sobreviver à indiferença dos calendários.

O dia estava limpo. As aves beberam o teu sorriso e atravessaram o secreto amanhecer do sossego. Como no tempo em que os sonhos se alargavam pela adolescência dos passos, o cheiro do pão de milho invadiu a casa. Multiplicou-se pelas veias da saudade.



8 de outubro de 2016

dos sonhos e dos caminhos




Os sonhos foram-se misturando com a poeira do tempo. Com a vagarosa melancolia do vazio. Foram-se confundindo com o que restou - e foi pouco!... - de um passado sepultado no olhar do desencanto.

Há agora uma realidade diferente, difusa, pouco compatível com a memória dos retratos e com o silêncio que percorria o amanhecer das searas. Que se aconchegava na lentidão das candeias.

Os dias deixaram de ser o reflexo de uma alegria paciente que se alargava pela lucidez dos calendários. São agora o próprio espelho de uma ausência que se prolonga pela indecisão dos caminhos.



7 de outubro de 2016

do melancólico entardecer




Quando me olhas - quando o teu sorriso se prolonga pela lentidão da manhã - é como se um pássaro se elevasse sobre as ameias do silêncio e nas águas se reflectissem as inigualáveis cores de setembro.

Depois, quando as palavras se multiplicam pela geometria da memória, nem eu sei se é nesta realidade que ainda habito. Nem eu sei se não me perdi na embriaguez dos teus sonhos.

Há no melancólico entardecer dos dias, uma espécie de desassossego que atravessa as paredes deste quarto em que nunca entraste. Há apenas o tresmalhado cheiro da solidão.



6 de outubro de 2016

nas paredes da memória




Foi há muito tempo, quando os pinhais se prolongavam através do meu olhar, que aprendi a reconhecer os contornos do silêncio. Mais tarde, já a adolescência se reflectia nos passos e nos sonhos, foram as palavras que se gravaram nas paredes da memória.

Não foi simples. Recordo os caminhos sempre desertos e a saudade que, clandestina, principiava a crescer para além dos calendários. Recordo também o cansaço que se ia acumulando nos rostos. Na própria lentidão dos sorrisos.

Sobrou o sossego - apenas ele!... Apesar da solidão. Apesar do vazio que se multiplicou pelo tiquetaque da esperança. Pela indiferença dos relógios.



5 de outubro de 2016

só a noite




Caminho pela solitária transparência desta noite que se projecta na consciência dos atalhos. Assim indefeso, deixo-me envolver pela indolência do luar e pelo murmúrio do silêncio. Pela sombria lentidão das casas.

Os meus olhos - talvez seja a minha memória!... - conduzem-me através de uma súbita melancolia que se multiplica pelo inesperado canto de um rouxinol por entre as franjas de uma alegria que se esgotou.

Só na noite me reconheço. Só ela me acolhe, porque nela sou capaz de me descobrir para além da madrugada. Apenas nela as minhas palavras se transformam no amanhecer dos búzios.



4 de outubro de 2016

como os pássaros




Vieste quando o sossego ainda não se alargara pela lentidão dos caminhos. Foi num verão muito distante da alegria que, mais tarde, se tornou inesgotável. Um verão que ia castigando os longos dias de julho. Setembro era só uma promessa.

Vieste como se os pássaros se tivessem reunido no prolongamento da brisa. Não importa como vieste. Vieste porque eu te esperava. Foi por isso!...

...

O silêncio multiplicava-se pela solidão do comboio. Os rostos fechados pareciam ignorar a manhã que se espreguiçava nas janelas e nas brincadeiras das crianças que se reflectiam na memória e no olhar.



3 de outubro de 2016

entre sonhos e flancos




Tu já eras o reflexo da ternura sobre o imperecível olhar do silêncio. O jeito difuso da melancolia que se alarga pelo desenho de um sorriso. Como se os pássaros trouxessem nos bicos a memória da tristeza. Os vestígios da amargura.

Esse, porém, foi o tempo em que os teus lábios apenas principiavam a beber as minhas palavras. O tempo em que o espanto ainda não dera lugar ao sossego.

Foi o tempo de aprender que, não obstante a rugosidade dos caminhos, os passos são capazes de marcar a cadência da alegria. Foi o tempo de sentir que um abraço pode conter em si a promessa de um infinito para além dos horizontes.



2 de outubro de 2016

cada pedaço do tempo




Só a tristeza surgia no teu olhar. A tristeza que restava dos passos com que percorrias os caminhos e o silêncio. Os gestos só reflectiam as perguntas sem resposta e o vazio que regressava a cada nova manhã.

Pouco a pouco, no que sobrou desse outono que a memória não esqueceu, as palavras principiaram a desfolhar-se sobre o esboço de um sorriso. Sobre os degraus da saudade.

Cada dia - cada pedaço do tempo - tornou-se num desafio. Opaco, difuso, mas real. O futuro deixou de ser sinónimo de solidão, ainda que a alegria continuasse distante. A amizade, essa, foi subindo devagar pelos muros da indiferença.