17 de outubro de 2017

a substância da memória




Incapaz - ao contrário de Somerset Maugham - de usar as palavras para pintar um quadro, ainda assim, arrisco ceder à tentação de alinhavar as ideias na objectividade do silêncio, enquanto os meus olhos se demoram no amanhecer da saudade.

Num exercício de surpreendente harmonia, os meus passos percorrem a distância que me separa do teu sorriso e detêm-se à beira do sossego. À beira do absoluto.

Um brevíssimo rumor de asas que se projectam na abstracção do tempo ou, se preferires, os discretos alcatruzes da alegria a recordar o crepúsculo e o reflexo da ternura. É então, mãe, que a memória se reencontra - que os meus sonhos, já cansados, se aconchegam rente ao caos da solidão.

...

Confusos, os meus sentidos precipitam-se em busca de um outono sem mácula. Como se a eternidade se reconhecesse no vazio dos calendários...!



16 de outubro de 2017

o meu outro lado




Somente tu, mãe, consegues entender o que significa cada um dos gestos com que vou tentando comunicar com os outros. Cada sorriso. Cada sinal, ainda que o mais imperceptível.

Talvez por sermos um para o outro, o reflexo do silêncio que sempre procurei atingir!... Talvez por termos sido desde o princípio, o amanhecer das dúvidas no prolongar da memória. Na lentidão dos relógios.

Hoje, marcado pela distância e pelo insuportável peso da tua ausência - longe mesmo daquela sabedoria com que o tempo parecia anunciar um futuro imprevisível - é preciso manter a lucidez que me impede de tropeçar nas pegadas do vazio.



15 de outubro de 2017

mãe














Mãe - que adormente este viver dorido,
e me vele esta noite de tal frio,
e com as mãos piedosas até o fio
do meu pobre existir meio partido...

Que me leve consigo, adormecido,
ao passar pelo sítio mais sombrio...
me banhe e lave a alma lá no rio
da clara luz do seu olhar querido...

Eu dava o meu orgulho de homem - dava
minha estéril ciência, sem receio,
e em débil criancinha me tornava,

descuidada, feliz, dócil também,
se eu pudesse dormir sobre o teu seio,
se tu fosses, querida, a minha mãe!


Antero de Quental

ser feliz




Aqui, na paciente melancolia de cada gesto, tenho o silêncio onde costumo refugiar-me quando a penumbra cai sobre os meus sonhos. Não sei de outra coisa que possa impedir-me de vestir os farrapos da solidão.

Até onde sou capaz de me recordar, a felicidade nunca foi um objectivo deliberadamente assumido. Sempre a entendi como um caminho enviesado. Superficial. Trata-se, em todo o caso, de um exercício recorrente, esse "acreditar" - à falta de melhor palavra - que o destino foi definido através de um artifício genético. Fortuito. Sem nexo.

Os momentos continuam a multiplicar-se pela estrutura do vazio. Não existe uma sequência em que a lógica possa considerar-se como uma espécie de fio condutor. Por vezes, no intervalo de um instante, o infinito parece adequar-se ao reflexo da rotina, permitindo que a memória retenha o indizível. O muito ténue vislumbrar da perfeição.

E todavia, mãe, como se a demência fosse a mais óbvia das circunstâncias, raramente se projectam em mim os sinais da alegria.



14 de outubro de 2017

no prolongar da distância




A manhã veio de mansinho, embrulhada numa claridade muito ténue. Quase translúcida. Quase consciente. O meu pensamento percorreu a distância que me separava da lentidão do teu sorriso. Era ali que deverias estar, mãe!... No prolongamento da noite. Na definição do silêncio.

Depois, entre os trinados de uma ave certamente perdida e a improvável espessura da neblina, procurei os sinais da tua presença. Apenas o vazio me respondeu. As minhas dúvidas não deixaram de crescer. O cheiro - o teu cheiro - misturava-se com o branco das paredes.

Foi muito mais do que um sonho. Talvez o esboço de uma imaginação à beira do impossível. Só a saudade me fez continuar. Só a memória dos relógios me ajudou a encontrar as palavras. Só os búzios. Só a solidão.



13 de outubro de 2017

cuidar da sua esperança




Somos todos experiência do inacabado, indagação no incompleto, dureza e opacidade da pedra. E a esperança não nega ou contradiz isso. A esperança é uma gestação espiritual que ocorre precisamente nessas circunstâncias. É a esperança que entreabre - que faz ver para lá das duras condições - possibilidades ainda escondidas.

A nossa existência, do princípio ao fim, é o resultado de uma aprendizagem da esperança e só ela é capaz de dialogar com o futuro e de o aproximar.

...

Podias ter sido apenas o reflexo daquele encontro adolescente nas páginas de um livro a que, todavia, nunca deixei de regressar. Não obstante o equívoco dos calendários.

Podias, ainda agora, não ser mais do que isso. A verdade, porém, é que nunca te limitaste ao melancólico folhear de uma indiferença quase austera. Ao incerto prolongar da saudade pelos flancos da memória.

És - sempre foste!... - a esperança num futuro que não cabe nas coordenadas do tempo. Um sorriso inatingível. Uma espécie de silêncio que só os búzios entendem. Para além deste vazio que me cerca, continuas a ser a distância que me separa do amanhecer de um sonho. Dos rituais do outono. Do sopro da perfeição.



12 de outubro de 2017

momentos




Não se trata - à maneira dos alquimistas - de procurar a felicidade num qualquer balão de ensaio na penumbra de um laboratório vagamente clandestino. A vida, necessariamente, é muito mais do que a sequência de momentos susceptíveis de transmitir harmonia às respostas de que carece a inquietação dos sentidos.

...E, todavia, são sempre muito escassos esses instantes em que o silêncio e a sabedoria se revezam a fim de superar as incompatibilidades que os distinguem. Sobretudo porque me falta o engenho capaz de permitir antever os sinais que podem conduzir do supérfluo ao patamar das revelações. A indiferença, por si própria, limita-se a favorecer a ignorância.

Hoje, mãe, quando a solidão me entorna na memória uma difusa nostalgia, prossigo o meu caminho através do teu sorriso e da lucidez do teu olhar. É, bem entendido, uma tarefa árdua, mas, ainda assim, continuo a acreditar na transparência destas palavras que te escrevo.



11 de outubro de 2017

rio tejo




As minhas palavras não voltarão a ser as mesmas. Nunca mais poderei coleccionar os momentos em que - atrevo-me a dizê-lo!... - éramos exclusivamente um do outro.

Talvez nunca me tenha apercebido das arestas daquela ilusão que, se calhar, não passava de um hiato que me permitia escapar a uma realidade já de si rudimentar. Em todo o caso, mãe, haverá sempre esta hipótese de continuarmos a partilhar o silêncio e, por vezes, os reflexos de uma alegria vagarosa.

Não sei como ultrapassar os limites que me são impostos pelo vazio de uma folha de papel. Circunstancial. Obviamente redutora. O único e, agora, o derradeiro vestígio que me separa da solidão.



10 de outubro de 2017

saudades desse lugar




Lembro-me bem!...

Costumava sentar-me no amanhecer daquela esquina onde a adolescência se entretinha a tecer os sonhos. Sempre só, num diálogo imaginário com os secretos vestígios da solidão.

Não era mais do que um instante - o reflexo, talvez, da saudade que o olhar já denunciava. Depois, seguia o meu caminho para além da simplicidade de um sorriso, lado a lado com o sossego que ali tinha encontrado.

Incapaz de uma palavra que certamente teria alterado o curso dos dias, deixei que o silêncio se fechasse no outro lado do tempo, longe do crepúsculo e dos afectos. Hoje, mãe, quando apenas na memória reencontro a perfeição do teu rosto, o meu pensamento regressa ao lugar que só contigo partilhei.

E não sou capaz de entender a razão por que o vazio chegou tão cedo.



9 de outubro de 2017

como as cerejas




Foi um tempo - noutro tempo - em que os sonhos não se reflectiam na geografia da solidão. Era ainda possível que um sorriso se prolongasse pelas palavras que se diziam no vagaroso soletrar das horas. No aprender dos costumes.

As viagens, agora que as recordo através de uma realidade quase translúcida, foram, sobretudo, a surpresa pelos pormenores capazes de permitir o equilíbrio entre a avidez da adolescência e a interjeição da memória.

Nunca me deixei seduzir pelos predicados de uma expectativa demasiado ansiosa. Preferi, antes, a alegria que sugere o desconhecido e se revê no brilho do silêncio. Do que se diria inacessível.

É certo que os meus passos e, já agora, a minha genuína aversão a projectos demasiado elaborados, nunca demonstraram particular entusiasmo pelas coisas do abstracto. Mais depressa haveria de reconhecer-me no contemplar do sol a espreguiçar-se lá em cima. Sobre as nuvens.

E afinal, mãe, não se produziram grandes modificações neste processo de contínua evolução. Nada mais do que o envelhecer do olhar nos parapeitos da saudade.