terça-feira, 25 de abril de 2017

secretamente




Um  beijo!... A recordação que percorreu os sentidos e se aconchegou na alma. A ternura desenhava-se nos teus lábios que tocaram o meu rosto como se receassem o despertar do sonho na arquitectura da distância.

...

Mais um dia que começa. As pálpebras subtraem-se à cerimónia do sono e reencontram-se no reflexo dos espelhos. Como uma promessa, o frio aguarda-me na projecção das janelas. A música, como um sussurro, acompanha-me através dos ponteiros de um relógio muito antigo.

Nunca mais as palavras se pareceram com a súbita explosão da beleza. Nunca mais o silêncio se demorou na transparência do teu olhar e na interrogação do teu sorriso. Apenas a madrugada foi testemunha do espreguiçar da solidão. Da geografia da tristeza.

Ah, mãe, que cansado que estou - que vazio de esperança pelos degraus do abandono!...



segunda-feira, 24 de abril de 2017

...e o sol encostava-se às janelas




Foi um voo muito curto, aquela adolescência que se esgotou antes que a ternura se desenhasse no teu sorriso e o silêncio se fizesse nos meus olhos em busca de uma alegria que, só muito mais tarde, fui capaz de compreender.

Lembro-me das palavras que escalavam os degraus de uma saudade que, então, se sucedia nas folhas dos calendários. Lembro-me do frio das madrugadas e do aconchego das paredes em que nos refugiávamos, mas que nunca foram verdadeiramente nossas.

Lembro-me das tuas lágrimas, mãe!... Quantas vezes as não dissimulaste na penumbra dos relógios...!

Pouco a pouco, os sonhos transformaram-se num lugar em que a tristeza raramente se demorava. É certo que deixámos de ter a presença das abelhas e que as cigarras já não se multiplicavam pelos caminhos quando o verão se reflectia nos corpos. Tínhamo-nos, porém, um ao outro e o sol encostava-se às janelas sempre que te ouvia cantar.

Agora só no vazio me reconheço. Só na solidão.



domingo, 23 de abril de 2017

pelos veios da memória




Do tempo em que as palavras e os sonhos tinham exactamente a mesma espessura, trouxe os segredos que os olhos tantas vezes murmuravam.

Éramos então a imperceptível medida do silêncio, como se pretendêssemos que os caminhos se alargassem pelas veias onde corriam as manhãs de maio. Lembro-me da ternura que espreitava pelo teu sorriso e do cansaço que percorria os teus gestos. Lembro-me da alegria que semeavas no meu peito.

Agora, frente ao envelhecer destes dias que se confundem com a solidão, é sem surpresa que me revejo nos contornos do teu rosto. Na saudade que atravessa as minhas mãos desamparadas.

A memória, mãe, é como um pássaro sonâmbulo a cantar à sombra de um futuro prometido. Pena é que as candeias já não preencham as noites de agosto. Pena é que as papoilas já não amanheçam nas searas.



sábado, 22 de abril de 2017

reflexo




As árvores já se reflectem nesta primavera com a memória a projectar-se na embriaguez das águas. A saudade atravessou a delicada espessura da manhã que os pássaros iam anunciando através da fria arquitectura do silêncio.

Era cedo - as sombras mal se definiam nas paredes. Indiferentes, quase sonâmbulos, os meus gestos limitaram-se ao ritual de todos os dias. Uma sucessão de abstracções que os sentidos têm vindo a decorar. A inconsequente mecânica que se confunde na dimensão da tristeza.

As palavras adquiriram um jeito telegráfico que talvez as torne imperceptíveis. Pouco mais do que monólogos que multiplicam a penumbra do olhar pela trajectória do vazio. Nem mesmo o cansaço parece resistir à secreta erosão das horas.

É assim, mãe, que vou passando pela desordem dos calendários. Apenas os sonhos me impedem de seguir o rasto do desencanto - apenas eles me ajudam a manter uma espécie de lucidez que resiste ao cheiro da solidão.



sexta-feira, 21 de abril de 2017

indescritível




Num momento todo o meu coração se comoveu como nunca; eu acreditei por dentro e com todas as forças; todo o meu ser era como que violentamente arrebatado para o alto. E havia em mim uma convicção tão forte - uma segurança tão indescritível - que fez desaparecer todos os resquícios das anteriores dúvidas.

...

Vive talvez no lugar mais inacessível da memória - esse lugar onde o pensamento costuma refugiar-se - a consciência de que, muito mais do que na perspectiva das palavras, é na transparência do silêncio que se reflecte a geometria de um sorriso.

Um sorriso quase tangível que se multiplica pela própria realidade dos lugares. Pela transbordante latitude do sossego que amanhece no prolongar dos passos e dos caminhos. Um sorriso ou, se calhar, a explicação do tempo e da saudade.

Porque o tempo não é apenas a irracional rotação dos ponteiros de um relógio. O tempo projecta-se na dimensão do vazio. No infatigável marulhar das ilusões. Na súbita percepção de que existe uma espécie de alegria no soletrar da distância.

...E há gestos que não se perdem na ausência de um olhar.



quinta-feira, 20 de abril de 2017

um gesto apenas




Um gesto apenas. Discreto. Imperceptível. A matéria que prolonga o rumor do pensamento. O desenho da saudade no despertar de um sorriso.

O gesto com que a ternura se aproxima do vazio. Com que os dedos anoitecem na convulsão dos espelhos, quando te debruças sobre a explosão das palavras. Quando os teus olhos se projectam nos meus e os sonhos se libertam do nó cego dos relógios.

É o silêncio que cresce no amanhecer do orvalho. Na inocência dos búzios. É um rio no outro lado do tempo. No envelhecer da memória. O sossego que se espraia na superfície de um retrato.

O teu retrato, mãe!... O meu desencanto.



quarta-feira, 19 de abril de 2017

metamorfose




Interrogo-me sem obter respostas. Pesa-me nos ombros a sombra da solidão. O tamanho do vazio!...

Deixo-me ficar na inóspita encruzilhada da memória - na difícil projecção de um futuro que não desejo - sem saber se os meus passos se atrevem a desafiar a indecisão dos relógios.

É nesse lugar que permaneces, mãe!... Tão perto da lentidão dos sonhos, num difícil equilíbrio entre a saudade e as ruínas de uma infância muito breve.

Noutro tempo, as palavras nunca foram o reflexo da ternura que trazias no olhar ou, então, talvez eu ainda não tivesse escutado o assobio do silêncio na superfície dos espelhos.

Foi só quando os meus olhos se demoraram na inquietação das janelas, que um sorriso muito triste se espreguiçou na geometria do teu rosto e se espraiou pela discreta metamorfose dos dias.



terça-feira, 18 de abril de 2017

introdução ao futuro




As sombras vão-se acumulando sobre a cumplicidade que nos unia. Que nos permitia a improvável compreensão dos equívocos e do silêncio.

E todavia, é na frágil sustentabilidade deste vazio que me rodeia, que se estabelecem os apoios de uma força súbita. De uma tranquilidade tão capaz de tropeçar na superfície das areias, como de se elevar para além da lucidez.

É na mais breve partícula do teu sorriso, mãe, que se desenha o futuro que vou tecendo através da solidão. É na semelhança entre os pássaros e as ilusões, que as minhas palavras se revêem na projecção daquele tempo que partilhámos e que, com transparente objectividade, faz de mim um eterno caminhante em busca da superlativa dimensão do sossego.

Falta-me a ternura do teu olhar onde me refugiava de cada vez que os meus sonhos se esmagavam contra os muros do desânimo. Agora, porém, não sei para onde me levam os meus passos trôpegos. Desconfio mesmo de que os meus dias se perderam numa qualquer esquina de um qualquer calendário.



segunda-feira, 17 de abril de 2017

talvez...!




Agora que o inverno já se escondeu no equinócio que o devolveu ao ritual dos calendários, talvez seja possível reinventar o tempo na periferia dos horizontes. Talvez o sol me convoque para o aconchego das palavras no regaço do crepúsculo.

Talvez descubra outra vez o teu sorriso a reflectir-se no refúgio das viagens inventadas.

Agora que as aves se aquietaram e a penumbra se prepara para tomar o vazio por confidente, talvez a música se demore na contemplação das cores que a primavera acendeu na transparência das lâmpadas. Na tristeza do olhar.

Nunca sei o que esperar destes dias que há muito se aproximaram da trajectória dos retratos. Não tenho mais do que a memória, mãe. Não tenho mais do que a saudade!...

Há pouco, logo após o abrupto amanhecer do relógio, pouco mais havia do que a solidão a abater-se sobre os candeeiros. É através dela que caminho rente aos muros que desconhecem o rumor de uma carícia. Não estou só. Os meus passos aproximam-se da rigorosa cadência do silêncio.



domingo, 16 de abril de 2017

indecisão




Dir-se-ia que a saudade amanheceu sem recear as arestas da solidão. Como se os derradeiros sinais de uma alegria compulsiva prolongassem a carícia dos sonhos interrompidos pelo marulhar do silêncio.

Lembro-me da minha súbita perplexidade - uma espécie de hesitação entre o estremecer de um beijo e a vontade de mergulhar na contemplação das palavras.

...

Lembro-me de tantas coisas, mãe!... Lembro-me de te ouvir cantar quando o sossego principiou a demorar-se na projecção dos teus olhos. Isso, porém, foi muito antes de descobrir que a ternura não é incompatível com as ruínas de um outono adormecido na perversão dos calendários. No envelhecer da memória.

Lembro-me do teu sorriso...!