domingo, 26 de março de 2017

dos sonhos e da distância




O silêncio, de súbito, fez-se maior do que os sons e dos que os cheiros de um outono que não cabia na arquitectura da memória. No insustentável peso da distância.

De tão absurdamente denso, dir-se-ia inadmissível reservar à solidão a partilha desse silêncio. Desamparadas, às palavras mais não restava do que seguir o pensamento, conscientes das suas nunca óbvias limitações.

Quando os olhos se procuraram, todas as coisas se envolveram numa harmonia prodigiosa. Porque naquele exacto momento, soubemos que a perfeição passara a reflectir-se no superlativo. Transparente, quase rarefeita, a tristeza tinha a força dos segredos que só os sonhos conhecem.

É escasso, todavia, o tempo que conjugo nas coordenadas do desassossego. As janelas continuam a manter-se na trajectória dos pássaros, mas a brisa já não é conivente com a carícia do crepúsculo.

Estes, mãe, são os dias em que procuro por mim nas pupilas da tua ausência.



sábado, 25 de março de 2017

nas páginas de um livro




Os gestos não são os mesmos. Não podem ser os mesmos!... O tempo, esse, é ainda o de tentar reencontrar a alegria soterrada nos escombros da memória.

O silêncio, na maior parte das vezes, não significa o mesmo que desconfiança, antes se projecta para o futuro com a esperança de que o caminho não venha a mergulhar no vazio. Há agora um jeito diferente de sentir as palavras quando elas não se limitam ao inofensivo adicionar das sílabas. Agora, ainda que ocupadas em busca da transparência, já principiaram a árdua tarefa do recomeço.

...E depois, quando não é deliberadamente posta de parte, a tristeza pode ser o fulcro sobre o qual se há-de desenhar a madrugada.

Não é simples, contudo, retomar a trajectória que conduzia à perfeição do teu sorriso. É preciso, mãe, atravessar os baldios onde se instalou a solidão. Faço-o, enquanto me refugio nas páginas de um livro e - por que não dizê-lo?!... - na contemplação da saudade em que se aconchegam os meus sonhos. O meu próprio desassossego.



sexta-feira, 24 de março de 2017

deste modo




Os anos deixaram de ser o refúgio da memória, quando a impaciência das horas se projecta nas encostas do vazio.

São agora o eco quase irreal dos sonhos que o absurdo foi recolhendo, como se houvesse só um rasto de inquietação entre as dunas e as águas que trazem os náufragos e a esperança. Como se as notas de um oboé se extinguissem entre as franjas do silêncio.

Já não se confundem com a solidão, os anos que se reflectem nas margens do desassossego, onde os olhos se libertam das ilusões. Onde, por fim, se descobrem os brevíssimos fios da ternura, quando os lábios tropeçam na geografia das palavras.

Os anos prolongam-se pelo tiquetaque dos relógios. São a inútil multiplicação dos dedos sobre a indiferença dos calendários. Nada mais do que isso!... A desamparada sequência desta saudade que se revê no coração das searas.

Os anos, mãe, vão-se alargando pelo enviesado rigor da tua ausência. Pela oblíqua estrutura do meu desencanto.



quinta-feira, 23 de março de 2017

taking your life in your hands




Talvez as águas - talvez só elas - sejam capazes de trazer à memória a recordação da cidade branca, como lhe chamou Alain Tanner, mesmo que seja preferível lembrar os degraus e degraus e degraus que Eugénio de Andrade descia até ao Tejo.

Aqui, onde os fusos horários se vão aproximando do ocaso, não é possível evitar que a saudade se instale numa inexplicável mancha de luz à beira da melancolia. Então, debruçado sobre os primeiros sinais do crepúsculo, facilmente me apercebo da falta daquelas palavras que tinham o cheiro da ternura.

É verdade que os lugares podem ser a realidade que os olhos projectam no infinito, mas quando mal se recortam na trajectória do tempo, a própria madrugada parece incapaz de sobreviver à ausência das estrelas. Foi aqui, não obstante, que a solidão preferiu habitar. Foi aqui que se revelou este silêncio muito jovem, muito frágil, mas autêntico.

O desencanto, se calhar, vai-se colando às paredes que lembram as ilusões adolescentes, quando os sonhos se desenhavam na vagarosa geografia dos arrozais. A casa - a velha casa aconchegada junto ao muro - não é mais do que a imagem inexistente de um passado sem rosto. Tal como a vida!...

Agora, mãe, é nestes retratos que se prolonga o entardecer do teu sorriso.



quarta-feira, 22 de março de 2017

aprendizagem




A cidade, por estes dias, ocupa-se em trabalhos perpendiculares à trajectória da solidão. Raramente as sílabas se aproximam das palavras que as procuram e, quase sempre, são equívocos os sorrisos que se ocultam nos ângulos da amargura.

Como se fosse um pássaro de asas transparentes, o silêncio afeiçoou-se aos ramos mais próximos da melancolia e espraiou-se pelas artérias do desencanto. São raríssimas as vozes capazes de seduzir a alegria. São inúteis as tentativas para as libertar das mordaças que a si mesmas impõem.

É preciso contornar a confusão e o desânimo. Acreditar na lucidez dos sonhos que a inquietação não poluiu. Ousar prosseguir o caminho, apesar do clamor de quem se limita a construir o vazio.

...

O comboio já não é a projecção da saudade na cadência dos carris. As estações sucedem-se rente ao vento e às pálpebras da memória. Abandono-me, em todo o caso, à recordação dos gestos que se transformaram na telegráfica reinvenção do tempo. Na subtil insurreição dos relógios.

Os teus gestos, mãe. A mais que perfeita definição do sossego!...



terça-feira, 21 de março de 2017

ritual




Não se abrem como outrora as janelas por onde os sonhos espreitavam o passado e que eram, tão-só, um recurso para ludibriar a penumbra em que se escondia a solidão.

Então, quando a saudade crescia nos contornos do silêncio, era nelas que se debruçavam as interrogações adolescentes, até a indiferença se apossar das vogais que ajudavam a conjugar a alegria.

E contudo, cada parágrafo do futuro ia sendo construído enquanto se alinhavavam as incertezas que a ilusão permitia. Não havia por que duvidar da vontade que se projectava nas madrugadas inquietas, nem da enviesada simplicidade com que se iam tecendo os dias.

Hoje, são os horizontes que cabem na vagarosa distorção dos sorrisos que no mundo se desenham.

Hoje, mãe, as minhas palavras reflectem-se no prolongamento da memória que me recorda a transparência do teu olhar. É verdade que o vazio se insinua através da trajectória do sossego, mas, ainda assim, posso refugiar-me naquele verde perpendicular à carícia dos búzios. À respiração do orvalho.



segunda-feira, 20 de março de 2017

arestas




Bem cedo - a manhã ainda embrulhada na penumbra do silêncio - com a brisa a tactear a substância das palavras, os gestos detinham-se na lentidão do sossego, ao mesmo tempo que a memória procurava as pontas do seu próprio novelo.

Ali, somente a ternura poderia conjugar-se com a impaciência dos ramos altos onde o sol principiava a espreguiçar-se. São inesquecíveis esses instantes em que a vida se assemelha ao perfil da eternidade.

Como que desafiados pelo canto da cotovia - era por certo uma cotovia!... - os olhos estreitavam-se a prolongar o crepúsculo parta além da tolerância das árvores. Depois, o desenho de um sorriso reflectia-se na geografia dos sonhos. Na transparência das fontes.

...

É assim, mãe, que me revejo naquele tempo que, todavia, parece ter-se confundido com o acentuar dos monossílabos. Um tempo tão curto como a trajectória desta saudade desamparada e perdida entre as sombras da solidão. Entre o envelhecer do vazio.



domingo, 19 de março de 2017

na projecção da memória




Simples no traçado que lhe desenha as esquinas, a cidade alarga-se a partir do oceano até aos vestígios do tempo que me preenchia a imaginação, quando os sonhos se perspectivavam na confluência das palavras.

Faltam-lhe porém as referências capazes de enquadrar a alegria na vagarosa interrogação do olhar. Não existem os recantos a sugerir um passeio pela geografia do passado.

E contudo, quando a penumbra lhe dissimula as arestas - quando os semáforos diminuem nos espelhos, ao mesmo tempo que a música de Virginia Astley abraça a derradeira sucessão dos quilómetros que conduzem ao sossego da periferia - até o pensamento se habitua à lenta metamorfose do silêncio.

Por fim, com a estrada já convertida à ruralidade do crepúsculo, o sorriso não demorava a debruçar-se na janela. Transparente, como a saudade a multiplicar-se nos lábios.

...

Fecho-me agora na projecção da memória que se prolonga pelo vazio. Aqui, mãe, onde a solidão se confunde com o peso do abandono.



sábado, 18 de março de 2017

entre os cardos e a saudade




Neste inverno distante dos mecanismos do silêncio, são muito escassas as recordações partilhadas à sombra da solidão.

A memória, por estranho que possa parecer, foi a primeira a deixar-se arrastar pelo inconfundível aroma de uma alegria em repouso sobre a ternura. As palavras, essas, demoraram-se mais um pouco no sublinhar do vazio.

Agora, neste mesmo lugar com vista para os sonhos, repartem-se os gestos na insubordinação do futuro. Tacteiam-se os vestígios muito antigos de um tempo em que os cardos não se assemelhavam às arestas da indiferença.

Os lábios aprenderam a soletrar a melodia dos búzios e a subversiva lentidão da tristeza. Aprenderam, sobretudo, a saborear as vagarosas sílabas da saudade.

Sento-me à beira da madrugada, entre as persianas e o desassossego. Lá fora, sobre a sonolência das árvores despidas, a brisa entretém-se em redor das estórias que nunca esqueci - as estórias que me contavas, mãe, quando o teu sorriso vinha aconchegar-se no anoitecer dos meus olhos.



sexta-feira, 17 de março de 2017

a ponte




Mais um dia que se esgota. Longo, que os dias já se demoram bem para lá do vazio.

Apetece subtrair uns minutos ao tempo que ainda resta e ficar aqui entre o relógio e o crepúsculo, procurando distinguir os rumores que trazem a noite e o silêncio. Talvez o cansaço não tarde, mas enquanto vai tropeçando nas arestas da incerteza, sabe bem permanecer na companhia da brisa e com o cheiro das maçãs.

Os sentidos já se habituaram aos sinais que anunciam a floração das palavras sobre a própria solidão. Nada se compara à subtil espessura da memória.

...

Os passos aproximaram-se. Inconfundíveis. A mão estendeu-se no tecer de uma carícia. Um sorriso transparente atravessou a penumbra. O beijo, esse, alargou-se pela lentidão do sossego.

Foi apenas um sonho, mãe!... A única ponte para o amanhecer da tua voz.