23 de agosto de 2017

mutação




Há agora na espessura da solidão, os primeiros sinais de cedência face à obstinação das sílabas que se prolongam pela surpreendente nudez do silêncio.

Os dias vão sendo preenchidos pela percepção da saudade. Pela contínua explosão dos sinais que permitem antever os contornos do sossego. As horas, por vezes, tornam-se menos densas e, mais fluidos, os gestos reflectem-se no amanhecer de um sorriso.

Enquanto escrevo, mãe, apercebo-me do antiquíssimo cheiro do feno e da quase lúcida harmonia entre a música e as parcelas da memória. Não é certamente por coincidência que, mal o crepúsculo se aproxima da geometria dos relógios, os teus dedos vêm afagar a iminente desordem dos meus cabelos.

...Que os nossos olhos se projectam no ocaso das palavras.



22 de agosto de 2017

para memória futura




Era o vazio. Um espaço indeterminado entre as sombras e o silêncio. Não me recordo muito bem do que aconteceu nesse dia, mas sei que, de súbito, as nossas palavras deixaram de ser o reflexo das metáforas para se projectarem no amanhecer da alegria.

Lentamente, aproveitando a vagarosa geografia dos relógios, fomos atravessando os argumentos que se aconchegavam no dedilhar do tempo. É bem capaz de ter sido então, mãe, que iniciei a aprendizagem do sorriso que não demorava a subir-te ao olhar!...

...

Descubro-me agora no envelhecer dos gestos que costumavam adormecer à beira do sossego. É através deles que os sonhos se denunciam e se destroem, mas, de uma forma ou de outra, os meus passos adquiriram uma espécie de segurança que lhes advém do exercício da paciência.



21 de agosto de 2017

decididamente




Por vezes - não muitas - percorria-te o rosto uma certa angústia perante os equívocos de um futuro sem grandes perspectivas. As dúvidas principiavam a condicionar-te a vontade e a limitar-te a capacidade de sonhar.

Depois, mãe, foi-se tornando cada vez mais lenta a tua disponibilidade no reconhecer da alegria.

Por mim, se me escondo no lado menos apetecível do silêncio, não faço mais do que avaliar as possíveis opções de cada novo caminho. De todos os caminhos que vou rejeitando. As trajectórias quase sempre indefinidas dos passos que se arriscam através do desconhecido.

A saudade - ainda que com outro nome - mais do que traduzir as interrogações do olhar, é o reflexo consciente, ainda que inseguro, da minha memória. Apenas dela.



20 de agosto de 2017

ensaio sobre o desencanto




Os sonhos reflectem-se na geografia das memórias que, mais tarde, hão-de traduzir-se na explicação da alegria. Em todo o caso, nem sempre a realidade se transforma a partir das perspectivas mais lúcidas.

Só muito raramente as palavras foram o produto do meu desencanto. Quase sempre me surpreendi pela forma como se articulavam sobre o vazio e sobre a indiferença que, necessariamente, me levam a percorrer os caminhos que conduzem à solidão. Não que os monólogos alguma vez se tivessem incompatibilizado com a hipótese de um futuro por esboçar, mas, sobretudo, porque sempre me senti um estranho na obtusa trajectória do olhar.

Desde sempre, mãe, te encontrei em todos os lugares que me propus partilhar com as ilusões e com a inesperada acidez do silêncio - aqueles instantes em que nos reconhecemos no prolongar dos sorrisos. Eram, ainda assim, muito ténues os sinais e as circunstâncias, como se oscilassem entre a incerteza e o deslumbramento.

Hoje, porém, de uma forma que continua a opor-se à própria racionalidade, os calendários vão-se sucedendo em harmonia com as tardes de agosto, contornando os obstáculos e multiplicando os gestos pelo cheiro da saudade.



19 de agosto de 2017

(varekai) em qualquer lugar




Revejo-me na quase clandestina dimensão da sala e no vagaroso aconchego da noite. Apenas a luz do silêncio percorria os retratos da memória.

Mais do que o reflexo da alegria, os sorrisos faziam parte da súbita tranquilidade que principiou a esboçar-se sobre o vazio e a escalar os muros da solidão. Deliberadamente escassas, as palavras limitavam-se a sublinhar o deslumbramento que poisava no olhar. Que se alargava pela geografia dos sonhos.

Como se fora uma criança a soletrar as sílabas do sossego, ali fiquei alheio ao ofício dos relógios - escassos momentos, mãe, que se multiplicaram pelo adolescente rumor da saudade. Transbordante, é certo, mas, talvez por isso, quase à tona de setembro. Da perfeição!...



18 de agosto de 2017

âncora




...Mas o mesmo se pode dizer do encontro (ou do desencontro) com os outros.

Só encontramos verdadeiramente aqueles junto dos quais fundeamos a nossa âncora, empregando o tempo necessário à escuta, à atenção e à surpresa. O não parar é uma forma de fuga ao encontro mais profundo connosco mesmos e com os outros.

...

Talvez um simples sinal - um qualquer!... Talvez aquele jeito muito próprio que o silêncio tem de escorregar pela melopeia dos espelhos. Talvez o outono a sublinhar o amanhecer das palavras ou, para melhor dizer, a antiquíssima lucidez das abelhas.

Por vezes basta um sorriso. A transparência de um olhar a irromper da memória. O adolescente reencontro com os vagarosos mecanismos de um retrato ou, se calhar, com o gesto apenas pressentido na projecção dos degraus. Na hesitação dos passos.

Uma certa forma de prolongar o futuro pela geometria dos corpos já distantes do tempo em que os sonhos se arrumavam no outro lado da noite. Na sonolência dos relógios que, então, ainda não eram o envelhecer do desejo. Talvez não seja mais do que um passeio rente aos atalhos da alegria.



17 de agosto de 2017

contacto




Apercebi-me, ao acordar, da noite prestes a reflectir-se na dimensão do silêncio. Uma noite de privilégios - raríssima na concepção do absoluto. Nos meus olhos, mãe, permanecia o sorriso que se prolongou pela trajectória do sonho do qual acabara de regressar.

Àquela hora, as palavras eram uma sucessão de memórias, como se a luz se alargasse pelo meu pensamento. Pela constatação da minha incapacidade em garantir-lhes fluidez. Objectividade!...

Fosse eu poeta e, por certo, não me confrontaria com a culpe e o desencanto. Ser-me-ia bem mais simples a conjugação dos versos. A articulação do talento e da alegria. Esta, no entanto, é uma manhã diferente - uma manhã em que a solidão deixou de rilhar a eternidade.



16 de agosto de 2017

sobre o futuro




As mãos desertas como se a madrugada continuasse a ser a projecção da memória. Como se o silêncio não reflectisse a ausência de perspectivas. De recordações.

Não se trata apenas de confirmar a previsível extinção das espécies. Na realidade, mãe, o futuro antevê-se muito mais angustiante - um vazio que vai crescendo no apodrecer dos caminhos. Os mitos e as lendas acabarão vítimas de uma inteligência oblíqua que se prolonga pela ignorância.

O tempo deixará de medir-se na exacta dimensão do olhar e, então, todas as raízes serão inúteis. Nenhuma palavra restará para definir a ternura. O coração, esse, passará a ser o inevitável retrato da indiferença.



15 de agosto de 2017

das paredes da memória




Somos um para o outro, no prolongar da saudade, a substância da alegria e a textura do silêncio. Os dias não se limitam à enviesada coreografia das horas. As palavras, por vezes, misturam-se com o sussurrar das searas, porque foi no olhar que a ternura se instalou.

Aquele caminho que não chegámos a percorrer, desenhou-se nas paredes da memória, como se fosse o retrato de um futuro por construir. O teu sorriso, mãe, reflectiu-se nos sonhos e nos espelhos, ao mesmo tempo que preenchemos a distância que nos separava do tiquetaque do sossego.

Falta-nos compartilhar o envelhecer das estrelas. Falta-nos compreender a consistência da eternidade.



14 de agosto de 2017

paz de espírito




Pouco se sabe dessas metáforas com que a solidão gosta de nos surpreender. Elas são tão discretas que, na maior parte das vezes, apenas o imprevisto as reconhece.

...

Vi-te chegar, mãe, quando o crepúsculo principiava a escorrer pelas paredes e a desenhar no silêncio os sinais da melancolia.

O teu sorriso deteve-se ali mesmo onde o sossego costuma aproximar-se da peregrina lucidez da memória. Tem sido assim desde que os meus sentidos tropeçaram no amanhecer da saudade - uma espécie de cumplicidade a multiplicar-se pelo infinito.

A noite é agora um pretexto para que uma carícia me suba ao olhar e, secretamente, se alargue pela serenidade das tuas palavras. Pela transparência dos meus sonhos. A beleza, por outro lado, deixou de ser uma abstracção. Posso tocá-la sempre que os meus lábios vão poisar no reflexo do teu rosto.