25 de junho de 2017

o lado selvagem




São muito espessas as horas que se extinguem na confusão dos caminhos e no hesitar da memória. Quase sempre porque o silêncio e o vazio se conjugam exactamente da mesma maneira.

Às vezes, mãe, quando a madrugada se espraia pela inquietação dos meus sonhos, apetece-me reinventar o futuro através das sílabas que tecem a penumbra e a saudade. Os passos, porém, não acompanham a espiral do pensamento. Não é ainda o tempo de ignorar os flancos da melancolia.

A solidão é outra coisa!... A solidão, essa, apodera-se do reflexo dos nenúfares.



24 de junho de 2017

ser artesão de si mesmo




Nem sempre o futuro se assemelha à geometria dos sonhos. À lucidez dos desejos. Muitas vezes por culpa própria!... Onde existia generosidade sobreveio o calculismo e as palavras, essas, foram sendo substituídas por vocábulos inconsistentes, ambíguos e, não raro, em contradição com as antigas convicções.

Talvez o idealismo se tenha convertido numa utopia vaga. Sem substância. Incompatível com os desafios e as exigências que sucedem a uma adolescência que se extingue quase sem remissão. Como se a aprendizagem não fosse mais do que um hiato imprevisto. Como se, numa sorte de prestidigitação, pudessem apagar-se as referências que sustentam o carácter.

Não creio, mãe, na inevitabilidade das regras supostamente relacionadas com o que poderia caracterizar a maturidade. Como se pudesse colocar-se um enorme pisa-papéis sobre a objectiva individualidade. Como se o ser humano não fosse sinónimo de desassossego. De conquista!...

A experiência e a curiosidade não se situam em campos opostos. Tão pouco deve contrariar-se a vontade de experimentar outros caminhos que não sigam as pegadas de um passado longínquo. O homem deve assumir-se como o artesão de si mesmo e, se for caso disso, transformar-se num iconoclasta.



23 de junho de 2017

não pode ser só isto!...




...Seguro daquilo que lhe falta, o místico percebe que cada lugar por onde passa é ainda provisório e que a demanda continua. Não pode ser só isto!...

(...)

Como recorda Certeau, o místico "não habita em parte alguma, ele é habitado". E amarra-se, assim, não ao futuro, mas ao invisível. Quer dizer: ao ainda não (visível).

...

Caminho devagar. Não sou mais do que a lentidão do meu olhar poisado na inconsistência dos espelhos. Há uma permanente interrogação que não cessa de atravessar os meus dias. A própria nudez de um silêncio extenuado que se projecta no tumulto daquele outono.

Há - creio que nunca deixou de haver!... - um longo equívoco que se alarga pelos rostos sonâmbulos, como se a memória não fosse mais do que o prolongar da própria solidão. Como se a adolescência dos sorrisos se confundisse com a incoerência dos relógios.

Não sei como relacionar-me com a ilusão de um futuro que não consigo imaginar. Há muito que as minhas palavras deixaram de ser o reflexo desta realidade obtusa. Deste tempo cujos contornos vão tropeçando no precoce envelhecer dos diálogos. Na interminável convulsão de um passado apodrecido.



22 de junho de 2017

pelos recantos da memória




São rudes, por vezes, as memórias. Pouco dóceis e nem sempre disponíveis quando a saudade as procura na encruzilhada do tempo. É preciso vasculhar nos recantos menos óbvios do baú, para recuperar alguns fragmentos dispersos, não necessariamente sequenciais e quase nunca susceptíveis de reconstruir um passado pouco nítido.

Terão sido momentos determinantes ou, então, meras curiosidades sem outro interesse que não o de distinguir entre o acaso e o inconsciente. Seja como for, mãe, as folhas em branco do hipotético álbum, não são mais do que um convite à imaginação para especular sobre as probabilidades, sem verdadeiramente lhes definir os limites. Talvez fiquem a faltar alguns pilares e, sem eles, não é possível garantir-lhes a solidez.

Dir-se-á que são pormenores irrelevantes e, objectivamente, não há como refutar essa ideia. Não somos tão complexos na especificidade das nossas limitações?!... Pouco hábeis no confronto com os nossos próprios fantasmas?!... Para quê, então, essa urgência em nos tornarmos transparentes quando seria bem mais simples deixarmo-nos levar pela corrente sem cuidar do que ficou a montante?

É provável que a resposta se situe ao nível do cognitivo, no limiar de uma racionalidade mais elevada. Ainda que se trate de uma caminhada sem futuro.



21 de junho de 2017

timshel




Uma palavra!... Dir-se-ia apenas isso - uma palavra entre tantas outras. Uma palavra talvez privada da sua essência. Uma palavra desconhecida. Ou não!...

Uma palavra estranha. Desde logo um desafio. Provavelmente o mais objectivamente identificado com o livre-arbítrio que, por vezes, nos liberta das algemas que a inércia e o conformismo nos impõem. Uma forma de atingirmos a nossa própria consciência e, simultaneamente, a certeza de que as nossas limitações não nos impedem de dar um passo em frente sem receio do abismo.

Aqui estou reduzido à minha incapacidade de exprimir tudo o que ultrapassa o improvável. Não fora a míngua de talento, mãe, e poderia estabelecer um vínculo com as memórias que não esqueci, não obstante a tristeza. Não obstante a solidão.

Nada então seria impossível. A única dúvida haveria de limitar-se ao verbo a conjugar - à diferença entre o crer e o querer. A opção, em todo o caso, não constitui um dilema.



20 de junho de 2017

gin' ougo




Percorro o vazio que ficou daquela memória que, todavia, continua a preencher a esdrúxula inclinação das palavras órfãs do silêncio e da melancolia das paredes. Olho-me através da adolescente melopeia dos meus passos incapazes de reconhecerem a rugosidade dos caminhos, e sinto-me refém desta espécie de exílio que se reflecte na ausência das janelas.

As estrelas deixaram de ser capazes de se projectar no vagaroso espreguiçar das madrugadas. Dir-se-ia que os sorrisos se transformaram no próprio ronronar do desassossego. Na inútil explicação dos calendários.

Já não sou o prolongamento das horas na secreta geometria dos retratos. O tempo é agora o inquieto dedilhar do pensamento ou, se calhar, a agressiva arquitectura de uma solidão que me acompanha para além dos livros. Para além da dissonância dos monólogos.



19 de junho de 2017

um tiro no escuro




Nos diálogos que pontuam os caminhos de Axle Munshine, Christian Godard destaca a amizade como sendo um bem demasiado precioso para confiar a um ser humano.

Na vulgar estrutura das palavras, o que costuma definir-se como amizade, não é compatível com o grau de exigência que deveria ser-lhe intrínseco. Dir-se-ia que ser amigo é quase uma superficialidade e, essa, não se coaduna com o superlativo. Com a procura do absoluto.

Só muito raramente um amigo pega de estaca na alma e nos sentidos. O processo de fusão é lento, vagaroso, para que seja possível saborear cada momento e permitir que a semente possa desenvolver-se em harmonia.

É preciso que a indiferença se confronte com o seu oposto; que o silêncio tenha espaço para crescer livremente; que a alegria não se limite ao fogo-fátuo de um gracejo inconsequente. Um amigo é bem capaz de ser um projecto para toda a vida e, se calhar, os degraus prolongam-se inesgotáveis. Sem certezas, mas considerando cada gesto e observando os pormenores. Ainda que pareçam irrelevantes.

É por isso, mãe, que nesta busca incessante, nesta cruzada pouco óbvia, nem sempre o antagonista se situa no exterior. Nem sempre são os outros que armadilham as convicções.

Não se trata de um tiro no escuro, mas, não o sendo, a verdade é que se assemelha à essência de um acto de fé. Importa manter a ingenuidade da juventude, a capacidade de sonhar que caracteriza a adolescência e a determinação que ajuda a contornar as dúvidas que chegam com a rotação dos dias.



18 de junho de 2017

farsas




A voz de June Tabor parecia saudar o crepúsculo que descia sobre a cidade, como se o caos urbano e a impertinência dos semáforos clamassem por uma tranquilidade cada vez menos previsível.

Por trás de uma vidraça quase corroída pelo abandono, esquecido entre a poeira e a solidão, um derradeiro malmequer atrevia-se a desafiar a marcha do tempo. Sedentas e alquebradas, as pétalas tentavam inutilmente captar a atenção de um sol pouco credível. Ali, mãe, tudo parecia multiplicar-se pela decadência e pelo vazio.

O homem que o dobrar da esquina permitiu observar de relance, não era muito diferente dos demais que, àquela hora, se aprestavam para prosseguir o ciclo do desencanto que continua a sublinhar-lhes o dia-a-dia. Inerte, aparentemente alheio ao vaivém de quem pretendia usurpar-lhe os escassos centímetros disponíveis, era simultaneamente o personagem e o intérprete da mesma farsa em que participava o malmequer moribundo.



17 de junho de 2017

monotonia




Ali, em sossego, entre os canaviais que se multiplicam pelo leito do rio, a canoa quase se confundia com a bruma do entardecer. Foi então que a memória descobriu o pretexto por que aguardava para retroceder ao tempo em que os sonhos se demoravam no pensamento - o tempo em que as estórias se esboçavam no imaginário que resiste à passagem dos relógios. À subversão dos próprios sorrisos.

Parada, talvez entretida em secreto diálogo com as águas, dir-se-ia o prolongamento do homem cujos contornos a distância não permitia distinguir. Era, em todo o caso, a insurreição de uma paisagem desencantada com a monotonia das horas.

Quantas vezes, mãe, na descuidada azáfama com que se percorrem os caminhos, se deixam escapar estes pedaços de uma afectividade cada vez mais rara?!... Breves momentos que nos reconciliam com a ingenuidade de uma adolescência irremediavelmente ultrapassada pelos conceitos e pelos hábitos de uma nova realidade onde o silêncio não tem lugar.



16 de junho de 2017

a excepção e a regra




Quanta gente não recobra forças, só porque sente que alguém se preocupou pelo seu descanso e bem-estar!... Com pedacinhos de delicadeza assim, é mais fácil levar a vida até ao fim.

...

É essa a memória que me resta de tudo quanto no dia-a-dia preencheu aquela alegria quase lúcida - aquela alegria que se multiplicava pela cadência dos meus passos. Pela geométrica lentidão de um tempo que o próprio passado já não reconhece.

...E, vendo bem, é como se o silêncio fosse agora a abstracta desordem que me separa do envelhecer das estórias com que aprendi a projectar-me no sorriso de minha mãe. É como se me limitasse a ser o triste reflexo de um vazio sobre o qual desabou a indiferença.

Não tenho já como regressar a essa memória inseparável de um verão que se completava no secreto debruar dos calendários. Não tenho como recuperar as palavras rente à sombra dos pinhais. Deixei de me rever na rotina dos relógios e na melancólica ilusão dos espelhos.