25 de maio de 2017

a jusante da incerteza




Por onde principiar, mãe? Como alinhavar o silêncio na desordem das palavras e permitir-lhe que se espraie pela lentidão dos búzios? Como evitar o eco da solidão nos parapeitos corroídos?

Do dia - deste dia - sobrou a distância que, sem nexo, se multiplicou pelas esquinas do absurdo, quando os meus gestos se perderam no vazio, ao mesmo tempo que as dúvidas me preenchiam o olhar e se acumulavam no rodapé de um futuro inexistente.

Sobrou a perspectiva das horas extraviadas. Sobrou a confusão dos sentidos sobre as coordenadas da memória e sobre o cheiro da saudade. Sobrou a imensidão dos degraus. Sobrou o perfume do teu sorriso!...




24 de maio de 2017

as regras do jogo




Não é fácil conciliar as palavras, quando a saudade parece ser um obstáculo intransponível. Talvez o mais determinante!...

Desamparadas, inocentes, leves, como se lhes referiu Eugénio de Andrade, as palavras não hesitam em instalar-se-me no pensamento. Não seria racional detê-las, de tal forma elas se me impõem. Resta disputar o jogo de acordo com as regras pré-definidas. Em todo o caso, devo reconhecer-lhes capacidades não negligenciáveis, susceptíveis de me conduzirem ao cerne da solidão.

Não raro se afiguram lúcidas e, por vezes, o próprio sossego revela-se um escudo ineficaz. Que fazer, então, quando o vazio se projecta na distância? Que fazer quando a memória me arrasta pelos caminhos que deixaram de conduzir ao anoitecer das estórias entre a lareira e a lentidão do alpendre?

Que fazer, mãe, quando apenas os retratos me trazem o teu sorriso?!...



23 de maio de 2017

da poeira dos caminhos




É um silêncio transparente, esse em que as palavras se reflectem na nostalgia dos horizontes que não conheço. O lugar em que me reencontro com os sonhos que tomam conta das horas e que definem a minha própria ausência.

A distância - hoje como sempre - continua a alimentar esta ilusão que prolonga a incerteza e o medo de ser apenas a substância de um amanhecer sem a curva do teu sorriso. Sem a erupção da memória, quando os meus olhos se detinham na vastidão dos teus.

Resta-me a saudade dos dias que não vivi. O crepitar da lareira e a persistência da chuva a escorrer pelas janelas. A música, mãe, continua a ser a mesma, mas privados do som dos teus passos, os meus passos vão-se habituando à poeira dos caminhos.



22 de maio de 2017

elegia




As palavras aprenderam a prosseguir o caminho através do desencanto. As mãos rasgaram o silêncio que desabou sobre os olhos. A saudade, essa, sobrepôs-se à resistência das horas.

Não sei se a música se terá projectado na distância e no vazio ou se, por outro lado, se terá limitado a ser parte do murmurar da memória.

A noite fez-se enorme, mãe!... Maior até do que a solidão que recortava o luar e descia pelas paredes, ao mesmo tempo que os degraus da tristeza se prolongavam pelas estremas do absurdo.

Nada mais restou no desenho dos espelhos. Como se a proximidade do absoluto tivesse preenchido a própria lentidão do crepúsculo. Como se o teu sorriso atravessasse o singular amanhecer dos meus sonhos.



21 de maio de 2017

entre os álamos




Vinha dos lados do rio o rumor do silêncio e da memória. Insinuante, o vagaroso cheiro da madrugada antecipou-se ao sossego dos sentidos.

O olhar confundiu-se na espiral que as sombras projectaram na essência do próprio sonho - aquele sonho que se multiplicou pela distância e pelos labirintos do vazio. Como se fosse um poema a escorrer da solidão.

Foi ali, mãe, entre os álamos, à beira do crepúsculo, num chão sem pegadas, que descobri o significado das palavras protegidas pelas pétalas da tristeza. A noite afastava-se lentamente, mas as estrelas, essas, surpreenderam-se com a trajectória da saudade.



20 de maio de 2017

sobre a primavera




A primavera não é apenas uma estação exterior - nem sempre se resume a um assunto climático ou botânico - mas tem uma acepção inevitavelmente humana.

...

O que sei do silêncio é tão-só o que me trouxeram as palavras adolescentes que escrevi no limiar da minha própria utopia. Isso, porém, foi no tempo em que os meus sonhos eram diferentes de qualquer outra coisa, como se não existisse mais nada para lá da porta que, do alpendre, se abria para a insurreição do olhar.

Foram aqueles dias - irremediavelmente escassos - em que percorri a quase humanidade de uma alegria que, no entanto, pouco se demorava nos rostos e nos espelhos, mas que sempre nos acompanhava na viagem de regresso.

Minha mãe e eu vivíamos, então, muito perto da memória dos dias que prolongavam o sossego e se multiplicavam pela lentidão de um futuro inexistente. Vivíamos na promessa de um sorriso que ainda não era o reflexo do outono no perfil dos calendários. Só mais tarde - bem mais tarde!... - me dei conta de que a primavera se perdera no caminho.



19 de maio de 2017

tentáculos




Ainda que o silêncio se demore na periferia do orvalho e a madrugada principie a alargar-se pela timidez das palavras, este é o tempo de me refugiar na memória e prosseguir a viagem pela lentidão do vazio.

São demasiado ténues os vestígios de uma alegria apenas pressentida e raramente esboçada na inocência dos lábios. Aqui, mãe, aonde me trouxeram os sonhos coniventes com a saudade, imagino-me a calcorrear a imensidão do teu olhar. A secreta explosão do teu sorriso.

Os dias, porém, repetem a sucessão da sua própria metamorfose. O cansaço já não permite que os gestos se multipliquem pela esperança e pela ternura. As rugas já me invadiram o rosto, mas é na alma que as sinto, como tentáculos a dilacerar o futuro. O desalento é a mais óbvia das consequências.

Como se o sossego se tivesse perdido por entre as esquinas da solidão, também os meus olhos se vão habituando às teias do desencanto. Já nada me prende ao meu próprio reflexo. Nem a melodia do anoitecer quando o outono se derrama sobre as árvores.



18 de maio de 2017

circunstancialmente




Nada sei deste deserto, a não ser pelas interrogações que me conduzem à periferia onde se projecta a tua ausência, mãe. Insisto, contudo, em prolongar o vazio que se apossa do meu olhar e da simplicidade das coisas que te ofereço.

Sempre perpendiculares à consequência dos sonhos, talvez os dias se tenham habituado a permanecer em silêncio, mesmo quando a luz regressa da sua própria sombra. Aqui, onde a ignorância se alarga pelos detalhes do caminho, mantenho-me atento às evidências que me ferem a memória e destroem a vontade.

Talvez eu possa envelhecer entre a transparência do orvalho e a melancolia do violino que percorre as minhas palavras quando tropeçam no rumor da saudade. Talvez tenha chegado o tempo de esquecer os receios adolescentes e, por fim, deixar que a solidão se instale na poeira dos meus passos.



17 de maio de 2017

confissão




Por onde principiar a confissão desta angústia que me escouceia o peito, ao mesmo tempo que as sombras do crepúsculo se adensam na teia do horizonte? Que fazer com esta ternura que se apodera da intangibilidade do meu silêncio incapaz de subverter o ciclo da solidão?

Não sei como impedir que os dias corroam os derradeiros vestígios de uma vontade já sem argumentos para se libertar da sua própria memória. Como evitar que as metáforas continuem a domesticar as palavras que se mantêm fiéis aos meus sonhos de adolescente.

Quero sair daqui, mãe!... Esquecer que as horas se limitam a adiar o desejo e partir até reencontrar o aconchego do teu sorriso. O olhar, porém, já se quebra pelo cansaço e pelo desânimo. Já se submete aos desígnios da incerteza.

O que resta de mim é a imensa nostalgia das pupilas aprisionadas por trás desta janela.



16 de maio de 2017

para além dos sonhos




A noite passou sem pressas entre a exiguidade das persianas e a penumbra do silêncio que a manhã trouxe consigo. Dos sonhos ficou apenas o vazio do lugar que ocupaste - o lugar que foi teu na melancólica geografia do sono.

E ficou o teu sorriso. Uma realidade improvável, amordaçada pelo turbilhão das imagens. Pela solidão das paredes deste quarto.

Diria que são escassas essas horas de precária vigília em que te vejo tão nitidamente. Em que te tenho comigo. Talvez um dia a madrugada me surpreenda. Talvez ela possa vir a ser o prolongamento de um abraço, mãe. Do beijo que voltarei a dar-te!...